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O despertador toca. O leão acorda na sua gaiola forrada com jornal para mais um dia de labuta, come seu alpiste na sua cozinha na frente daquele lindo quadro da Santa Ceia, aquela pintura famosa sobre os papagaios que foram  líderes na África tempos atrás. Ele toma seu banho como todo dia, lavando a sua juba com shampoo especial para hidratar penas verdes. Então ele parte para o trabalho. Ele trabalhava em uma gaiola enorme, ao meio de inúmeros papagaios que repetiam as mesmas coisas todos os dias. Ele tinha certa dificuldade de repetir tudo com a mesma intensidade que os papagaios que ganhavam prêmios e se sentiu frustrado, afinal de contas, ele tinha uma enorme vontade de exercer outras tarefas. De correr, de caçar, de comer carne, de pular, de estar ao sol, de rugir em uma savana. De arrebentar algumas hienas. Mas nada daquilo importava, afinal de contas, ele precisava se conectar naquele mundo, naquele sistema. Então logo se pôs a gralhar como os outros papagaios. Incessantemente. Mesmo que nada daquilo fizesse sentido. Afinal, ele devia agradecer por fazer parte daquela sociedade magnífica.

O progresso. Se não fosse por isso, ele estaria “passando fome na sua terra natal”, sem alpiste, sem shampoos para penas verdes, sem a evolução e sem a tecnologia desta sociedade.  Havia outros leões andando pela rua. A maioria deles vivendo em condições precárias, afinal, não se esforçavam o suficiente para viver no mundo de oportunidades verde e amarelo dos papagaios. Alguns leões até se pintavam de verde e andavam em duas patas.  Os papagaios amavam os leões que andavam em duas patas, porque eles não eram ameaçadores.  Por mais que os leões vivessem em condições de desvantagem e desconhecessem sua história e seu passado, eles viveram um bom tempo em silêncio sem compreender a própria desgraça.  O leão não compreendia a razão pela qual os papagaios apertavam o passo quando andavam na mesma calçada tarde da noite. Não compreendia a razão pela qual os papagaios mais velhos e maduros trancavam suas gaiolas e arrancavam seus carros importados apressados e medrosos, ou seguravam suas bolsinhas mais forte quando os leões e seus filhotes se aproximavam.

O leão não compreendia porque os papagaios com armas e distintivos sempre humilhavam incessantemente seus irmãos e sempre os distinguia entre os papagaios. O leão tentou explicar a situação, mas quando ele ficava nervoso ele rugia, e quando ele rugia, ele sempre era baleado, por mais que ele fosse inocente. Rugidos eram proibidos naquele mundo de bicos  estridentes com discursos repetitivos.  E mesmo que o leão vivesse aparando suas garras, os papagaios sempre o julgavam culpado só por precaução. Os papagaios os separaram em duas castas de leões: os que andavam em duas patas e pediam biscoito e os outros. Os primeiros eram bem-vindos. Eles nunca questionavam nada. Eram sempre citados como exemplo a ser seguido pelos leões. Mas a grande verdade era que eles nem eram mais felinos.  Mesmo assim, os papagaios os temiam por mais que eles próprios tivessem cometido as atrocidades mais bárbaras contra seus irmãos, por mais que eles vivessem em um mundo corrupto criado por seus pais em suas gaiolas de luxo sobre as fundações do trabalho escravo dos leões. E ainda que os papagaios tivessem apagado a história e o passado dos felinos, eles ainda enxergavam o leão com desprezo.

Os papagaios eram conhecedores das qualidades genéticas do leão, afinal de contas essa era a razão pela qual eles utilizaram suas tecnologias para acorrentá-los e os trazerem da savana africana para construir seus templos e prédios, e para fazer todo o trabalho à força. Mas precisavam também apagar o passado dos furiosos leões. Criariam livros de história repletos de imagens de leões abatidos e derrotados para os futuros leõezinhos se envergonharem de seu passado de sofrimento e servidão, até os leõezinhos desprezarem e esquecerem sua própria história. Lápis verdes eram chamados de lápis cor de pele. Era um processo necessário. Era preciso destruir a identidade dos futuros leões, para que mesmo sem as correntes, eles continuassem servis e humilhados. Então eles recontariam toda a história do mundo com heróis papagaios. Líderes papagaios, caçadores papagaios. E o leãozinho em sua gaiolinha logo se imaginaria um herói papagaio em suas brincadeiras e fantasias. E os leões eram citados frequentemente nas comédias dos papagaios. Bem, nem sempre eles citavam os leões, mas os representavam com tons de pele dourados e jubas imundas, músculos proeminentes e hipersexualização. Era a liberdade de expressão.  Precisavam transformar as características físicas dos leões em estereótipos de piada.

O leão descobriu, também, que os papagaios tinham um complexo histórico de inferioridade sexual. Talvez fosse por essa razão que os policiais papagaios tivessem aquela fixação em humilhá-los. Uma questão de compensar  o tamanho de seus seus órgãos reprodutores com distintivos. O papagaio precisou criar a sua própria versão do passado dos felinos e dedicou um período do ano para que os leões pudessem festejar e desfilar em avenidas, desde que festejassem a versão autorizada pelos papagaios, sem cunho militante ou político. Nada de consciência, só era permitido festejar e beber. E a imagem hiperssexualizada desta vez seria a da leoa. Outra vez, sua característica genética era a razão da obsessão. E mesmo que o leão conseguisse se adaptar ao mundo corrupto e a sociedade anômala dos papagaios, qualquer indício de que ele tivesse consciência de suas raízes deveria ser reprimido sistematicamente. Os papagaios inventam palavras (coitadismo) para evitar que o leão tente argumentar sobre igualdade, quando, na verdade, quem inunda os meios de comunicação de infortúnios e infelicidade sem fim são eles próprios.

O leão compreendeu o motivo que levava os papagaios a arrancarem seus carros, trancar suas portas ou atravessar a rua quando ele passava. Ele não se sentiu mais ofendido. Ele percebeu tudo de uma perspectiva diferente. Ele percebeu que mesmo com todo aquele progresso, tecnologia e autoridade, o instinto mais primitivo do papagaio temia que o leão voltasse a rugir. O instinto de sobrevivência mais sincero do papagaio temia o rei da selva, mesmo dentro de seus condomínios engaiolados e veículos caros, ele reconhecia o rei da selva mesmo que o rei da selva não reconhecesse a si próprio. Então o leão fez de sua própria sobrevivência uma afronta silenciosa aos papagaios. Como era triste ser um papagaio. Ter tudo e não ter nada.

Este conto é um devaneio enlouquecido e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

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