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Sempre detestei usar sutiãs – troço desconfortável e caro. Levei algum tempo, porém, para abandoná-lo: hoje, se tenho dois que uso raramente, é muito. Deixar de usar a peça acompanhou uma série de outras atitudes emblemáticas sobre a minha relação com meu corpo em um momento de questionamentos sobre normas de gênero e fez com que eu pudesse significar, no contexto da minha vida, a famosa “queima de sutiãs” – embora, no meu caso, a tal fogueira também não tenha acontecido.

tobeymaguirememe00Eis que vou a um bar com algumas amigas. Indo ao banheiro, um cara me cumprimenta, se apresenta e diz me conhecer de algum lugar. A falta de criatividade do sujeito ao tentar flertar comigo foi tão lamentável que quase despertou uma solidariedade em mim, mas decidi ir ao banheiro desinteressada e segui meu rumo. Quando voltei à mesa dos meus amigos, alguns outros rapazes que estavam com ele na mesa me chamaram. Eu os ignorei e fui comprar uma dose de tequila. No bar, um deles veio até mim e me entregou um guardanapo com o número de telefone daquele que havia falado comigo. Voltei à mesa e o cara (cujo número havia sido entregue para mim) se aproximou novamente, dessa vez com uma surpresa: ele me perguntou se eu gostaria de ganhar um fardo de cerveja. Eu o questionei a respeito e ele me explicou que, para isso, teríamos de ganhar uma aposta juntos. Adivinhem, meus queridos e minhas queridas, qual não era aposta? Ele insistia que eu estava sem sutiã; os amigos, que eu estava.

É, minha gente, parece 1930, mas é 2016, e lá estava eu sendo feliz sem o maldito sutiã quando uns homens vieram me avisar que eu deixei de usar a peça para que eles pudessem debater quão visíveis estavam meus seios. Como eu pude me esquecer que minha vida gira em torno do desejo deles? Como fui me esquecer que meus mamilos servem para avisar a multidão dos homens heterossexuais sobre minha disponibilidade sexual? Qual não era a minha inocência de pensar que a audácia de me vestir como quisesse não viria ao custo da chacota machista? Com efeito, me lembro claramente de me forçar o uso do sutiã por receio de que os homens fossem olhar meus mamilos sob a roupa e pensar que eu estivesse com tesão – pois, se estivesse com tesão, estaria disponível para qualquer um; se não estivesse, a possibilidade de estar já faria o serviço para mim. A lição de todo o dia, afinal, era que meus seios não tinham a ver comigo, mas sim com os homens, e um dos exercícios se tornaria falar deles para um grupo de desconhecidos que se achariam no direito de saber em que circunstâncias eu estaria desfilando por aí.

Irônica, eu disse que duvidava que eu fosse ganhar as cervejas, e que achava que ele deveria questionar minhas amigas a respeito. Cheio de autoridade, ele olhou para o grupo onde eu estava e inacreditavelmente contou sobre a aposta. Vi faíscas saindo dos olhos delas – ele achava que era 1930, mas é 2016, e elas partiram para a briga e logo a discussão se generalizou entre os dois grupos. O dono do bar tentou apartar, mas o álcool e a discórdia tomavam conta. Um sutiã não é mesmo apenas um sutiã, um shorts não é apenas um shorts, uma saia não é apenas uma saia: se a difícil decisão de manter ou largar a peça já descortinava os mecanismos a partir dos quais o machismo tenta operar em nossos corpos, o evento no bar era a o júri da subversão. Os caras acusavam as mulheres de violentas com tom de verdadeira injustiça: nenhuma surpresa para uma sociedade em que a violência machista é assumida como uma brincadeira e a reação das mulheres à violação é assumida como uma nova desobediência à doçura ou à disponibilidade sexual que lhes são cobradas.

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Quando eu estava pagando a comanda após a confusão, o namorado de uma das minhas amigas olhou para mim e, com meio sorriso, me disse que eu havia sido o destaque aquela noite. Claro, né, galera? O que eu queria meeeeesmo era tirar o sutiã e fazer o meu show. Esse lance de autonomia sobre o próprio corpo é conversa fiada para eu me tornar a subcelebridade-peitinho do bar. Estressada e alcoolizada, eu olhei para ele e disse, angustiada, que a culpa não era minha. Confuso, ele me disse que sabia que não era. No fundo, porém, eu me perguntava porque raios eu não tinha colocado o sutiã somente naquela noite – eu não teria arruinado a festa das minhas amigas, eu não teria dado uma sarna para o dono do bar coçar, eu não teria passado por aquela humilhação, eu não seria suspeita, por parte dos meus próprios amigos, de tentar chamar a atenção, fosse dos meus amigos e amigas, fosse de desconhecidos. O feminismo é um exercício diário e difícil: um sutiã não é mesmo somente um sutiã e, no bojo daqueles que abandonei na gaveta, transbordava o fantasma do machismo: “seja feminista, mas só em casa…”

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