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Aumentei Mouth for War para começar a escrever. Lembro do quão feliz eu fiquei quando o meu amigo Roger me passou todos esses sons do Pantera em mp3 quando eu ainda não tinha internet. As lembranças começam a fluir em imagens sépia, douradas como a Heineken que me contempla. Eu lembro de jeans rasgados, de bandanas, de dedos médios em riste e de ter confrontado o diretor fascista da minha escola. Lembro dos babacas do último ano assustados com a minha cabeça raspada. Contudo, preciso voltar mais no tempo. Quando tudo ainda estava sob controle. Quando eu ainda tinha o Tae Kwon Do em minha vida.

Eu chegava na academia e vestia meu Dobok. Não gostava de ficar conversando, gostava de me desconectar. De meditar. Os pés descalços no Dojan eram a melhor parte da minha vida. Alguns colegas ficavam cuidando as meninas de fio dental das aulas de aeróbica (início dos anos 90). Eu não tinha essa malícia, preferia treinar meus punhos para me defender, quebrar tijolos, madeira, ossos…. As cicatrizes em minhas mãos me lembram disso, como belas assinaturas nas costas de minhas mãos. Eu nasci um lutador. Eu queria o Dojan, e o Dojan me queria também.

Meu grande amor era o TKD. Eu queria era lutar sem parar. Aquela forma de combate milenar, todos eram iguais e todos só dependiam de si próprios. De suas próprias habilidades. O Dojan foi o lugar mais mágico que eu pisei em toda a minha vida. Era a porra do mundo de Oz. Um mundo paralelo onde não existiam ricos e pobres, pretos e brancos. Existiam fortes e fracos. E eu tinha uma vantagem: Um peito cheio de pequenos demônios aprisionados desde a infância.

Eu ligava Vulgar Display of Power e chutava o saco de pancadas sem parar. A insanidade em crescendo. Era a musicalidade de tudo aquilo que eu sentia quando praticava artes marciais. Era um turbilhão de fogo que corria pelas minhas veias. Meu coração queimava e ardia e se transformava em uma fornalha. Eu cerrava os dentes e me perdia em um oceano de energia. Deixava que as caravelas da fúria me levassem para bem longe. Eu drenava toda a minha ira, levava as bestas dentro do meu peito para dar uma voltinha. Até eu me esvair em suor e cansaço.

Eu me destaquei nas competições. Em uma carreira curta de menos de dez anos eu fui Campeão Brasileiro em um ano, vice no outro, quatro vezes Campeão Estadual e muitos outros campeonatos menos expressivos. Mas isso não me satisfazia. Eu não podia parar, não podia sossegar. Precisei explodir o meu joelho, destruir minhas articulações. Alma de metaleiro. Autodestruição. Eu não tinha guitarras para quebrar. Não tinha grana para comprar instrumentos. Então fazia de minhas lutas meus shows particulares de heavy metal. Lembro que desferia sequencias de chutes no ritmo de Fucking Hostile.

Eu chegava em casa exausto e olhava para o céu escuro ouvindo Hollow, Planet Caravan e This Love no quintal repleto de entulhos e garrafas de vidro quebradas sentindo os efeitos viciantes da endorfina. Olhava para o céu e imaginava se algum dia eu viajaria pelo mundo. Eu não era bilíngue ainda, mas eu sabia exatamente sobre o que Phil estava falando. Era como uma mensagem telepática. Era uma mensagem para os seus semelhantes espalhados pelo mundo. Os que transformavam suas fraquezas em uma espécie de combustível. Aqueles que sobreviveram lúcidos à violência de um território hostil. Que não permitiram que deformassem suas almas. Aqueles que podiam drenar seu ódio e transformar pedras em diamantes. Eu fui um alquimista de mim mesmo. Aqueles que engoliam o câncer de um mundo doente terminal e transformavam em coisas mais belas. Mas ainda assim, era melhor que não me encarassem na rua ou que apontassem para minha pele quando eu estava ouvindo Walk (Are you talking to meeee?). Carga tóxica. Mantenha distância.

Eu lembro que senti um certo contentamento doentio e sádico quando descobriram que o assassino do Dimebag era branco. Não que eu tenha gostado do fato que o Dime tenha sido assassinado, mas era muito cômico que um guitarrista de uma banda com tendências KKK tenha sido assassinado por um fã branco. Então quando Phil gritou “White blah blah blah” eu queria estar lá para gritar:

Hey Phil, remember when a white dude murdered Dimebag?

Imagino o que ele me responderia. Mas eu compreendo Phil. E o perdoo. Quando você lida com cargas radioativas é fácil se contaminar. E a raiva é radioativa. E você pode se sobrecarregar. Artistas marciais são como metaleiros do esporte. Você lida com emoções extremas. Você acredita em ir até o seu limite e voltar com algumas lindas cicatrizes para lembrar de quando se sentiu vivo, completo e animal. A endorfina é o entorpecente do lutador. A medalha é o seu Grammy Award. Mas você pode perder o balanço, o equilíbrio. Minha adolescência foi rebelde. Digna de um adolescente complicado. A falta do Dojan me sobrecarregou. Mas o Phil Anselmo ainda estava lá para me consolar nos momentos mais confusos e escuros. Para que eu soubesse que não estava sozinho naquela. E raiva não traria meu joelho de volta. Então, agora, eu entendia sobre o que ele falava. E Cemetery Gates virou meu hino.

Phil Anselmo pisou na bola e precisou se desculpar, e talvez suas desculpas ainda tenham sido cínicas. Não estou aqui tentando relativizar um ato racista, dizendo para as pessoas pretas amarem o cara. Ou para separar o artista de sua obra. Nós temos todo o direito de odiá-lo. Mas permitam-me não silenciar, enquanto demonizam o Phil Anselmo como se ele fosse um caso à parte nessa porcaria de mundo racista, quando eu mesmo tive professores iguais quando era uma criança aqui em São Leopoldo.

Então, excepcionalmente para mim, não havia motivos para odiá-lo. Ele é exatamente como eu era na adolescência, mas branco. Perdido e zangado. Alma transbordando de seu corpo. Sempre pronto para qualquer briga, sempre querendo uma boa desculpa para a autodestruição. Então, a violência da tal “supremacia branca”, para o Phil, cobria o buraco negro dentro do seu peito, da mesma forma que chutar o rabo dos meus colegas brancos ruins de briga com aquelas roupinhas grunge de grifes caras e cabelinho do Kenny G na saída da escola me satisfazia. Me deixava feliz humilhar os playboys. Eu acreditava que chutar rabos era um tipo de acerto de contas de toda aquela questão de dívida racial. “Teu ta-ta-ta-ta-ta-ravô esculachou os meus agora eu vou enfiar o bico do meu coturno na sua bunda. Supremacia Negra, mudafuckaz”.

Depois daquele lance da supremacia branca, eu li um artigo de um blogueiro negro dizendo que negros deveriam boicotar o Metal. Peraí! Um negro boicotar um subgênero do rock é como um alemão boicotar música clássica. “Não conheço muitos negros que gostem de Metal”. Também não conheço muitos alemães que gostem de Bach, Brahms ou Bethoveen. O cara chega em casa cansado de colar sola de sapato, joga o cd do JM e dos Atuais no lixo e liga um Strauss na vitrola. Também não conheço muitos que escutam Amadeus Mozart no Kerb. Que tal não nos limitarmos?

Phil Anselmo realmente já não tem mais idade para essas idiotices, está certo. Mas só um momento: a maioria de meus amigos eram tão idiotas quanto o Phil Anselmo. Eu estava acostumado com aquela baboseira de Confederados. Sou um negro gaúcho, descendente de Lanceiros. Fomos trocados por fazendas, compuseram um hino dizendo que não temos virtude. Hoje vivemos entre imigrantes brancos caipiras separatistas do Sul, ultranacionalistas que se masturbam com bandeiras e reclamam de pagar impostos de terras que receberam de graça. Você sabe. Rednecks subtropicais. Cowboys tupiniquins. Barranqueadores de vacas. Obtusos e moralistas. Porque eu odiaria Phil Anselmo? Sou cercado de idiotas parecidos com ele e nenhum deles compôs Cowboys From Hell. Antes de odiar Phill, eu precisaria odiar o pequeno e medíocre lugar em que nasci.

Hell yeah, I’m fucking hostile

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