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Poucos anos atrás eu via a galera alternativona de London Beta inteira execrando o sertanejo. Hoje toda casa noturna que se preze na cidade tem uma “balada sertaneja ALTERNATIVA”. O que será que mudou no sertanejo? O que será que mudou na cultura caipira que o bairrismo gaúcho desconhecia?

A resposta é fácil: mudou nada não. Ainda há machismo no sertanejo como existia antigamente e como existe em vários outros gêneros musicais, ainda há música de corna e corno, ainda há música de vingança, ainda há música romântica, ainda há música de pistoleiro, ainda há música de cabaré, ainda há sertanejo pop e SEMPRE existiram cantoras com letras empoderadoras.

O que de fato mudou foi a dinâmica entre as pessoas polidas e superiores de outros estados com a tal música, há um reconhecimento do sertanejo, da música caipira (é pessoa xenofóbica, caipiras existem) e sua rica cultura. Hoje é prafrentex ouvir sertanejo!

Uma cultura que vocês só diziam não gostar, mas não gostavam por preconceito, pois sequer conheciam bem. Hoje vocês enchem a cara de canha (de repente até canha mineira de alambique, feita artesanalmente, a melhor, bem melhor que Velho Barreiro, bem melhor que muito whisky) e cantam juntinhos os refrões das músicas da galera pouco escolarizada e pouco politizada de Minas e Goiás ( que se espalhou pelo país com cantores e cantoras de outros estados também).

Não é festa sertaneja alternativa não, amigues, é festa sertaneja mesmo. O sertanejo nunca foi música alternativa, é música popular, do povão, de botina suja de barro, mãos calejadas de segurarem enxadas, jeans surrado cheio de carrapicho grudado, chapéu e pito de palha, gente fedendo a suor porque acabou de sair do trabalho na roça e foi pro bailão arrastar pé e beijar bastante.

Querer forçar uma alternatividade no sertanejo só mostra quão preconceituosos vocês sempre foram e ainda são. Tem que elitizar pra aceitar. Não conseguem admitir que sertanejo é bom, tão bom quanto o constante indie rock dos Strokes que fazia vocês se empolgarem até menos do que as músicas de Marília Mendonça, Naiara Azevedo, Simone & Simaria e Maiara e Maraísa.

Hoje a casa que tocava Strokes, Foals, Metric, The Ting Tings, Yeah Yeah Yeahs, New Order, Depeche Mode, The Cure, Belle & Sebastian, Santigold, Arcade Fire, The XX, CHVCHES, Gaga, Madonna, Britney, Rihanna… e toda uma gama de bandas internacionais, tem o ORGULHO de ter uma festa sertaneja (nada alternativa). Isso, pouco tempo atrás, era inconcebível, heresia!

Perdemos a vergonha dentro do inferninho nosso de cada dia, descemos até o chão no “pau de puta”, mas ainda escondemos o sertanejo no nosso dia a dia. Temos vergonha de dizer que gostamos, que consumimos, que rebolamos com as violas e as rimas; se possível, é melhor chegar com um carro com vidros fumê na balada sertaneja.

Já disse várias vezes aqui: o preconceito musical expressa muito da discriminação que temos em diversos setores da sociedade. Sertanejo, pagode, samba e funk carioca são gêneros que automaticamente não gostamos porque estão diretamente ligados a uma parcela da população pobre, pouco escolarizada e supostamente ignorante/de inteligência limitada. E enquanto muitas das músicas, bandas e duplas desses nichos fazem sucesso no exterior, nós, colonizados pelo rock and roll e pela pop music (assim, em inglês), fazemos questão de diminuir nossa cultura (nossa: brasileiros) sem ao menos conhecê-la bem.

Ainda mais engraçado é saber que as casas voltadas ao sertanejo, as que não o tratam como alternativo e sim o assumem, são frequentadas pela elite de Porto Alegre. O suprassumo topzera intelectual da capital gaúcha. Se você passa lá vai ver todes trajados com suas camisas xadrez, jeans, botas e até chapéus. O que não é difícil de conseguir, porque muitos dos trajes do caipira são compartilhados pelo gaúcho. Mas pode ser que tenham comprado as becas em alguma viagem pro Texas, que é pra ser chique escutando country music (assim, em inglês).

Apesar disso, renegam nossa cultura (nossa: caipiras), riem do nosso sotaque e do nosso palavreado “errado”, do nosso reducionismo de palavras diversas. Fazem questão de não compreender as confusões que fazemos com o significado e simbolismo de algumas palavras, que, pra nós, são diferentes. Sufocados no seu bairro, desconhecem o tamanho do Brasil, porque, claro, o “Rio Grande é o meu país!”, mesmo pros não separatistas (é sim, admita).

Doze anos depois de chegar aqui, eu vejo quão sufocante é a cultura local; sufocante a ponto de restringir ao máximo o gaúcho dentro de um cercadinho onde só seus brinquedinhos são permitidos; sufocante a ponto de afetar as pessoas mais desconstruídas.

É interessante que o restante do Brasil, e já viajei por muitos lugares, conhece a cultura daqui, sabe muito ou pelo menos o básico pra não passar vergonha. Contudo, muitas pessoas gaúchas parecem fazer questão de tratar sua cultura como algo tão superior que fecham os olhos pro restante do país (infla os pulmões pra cantar um hino racista, amigão!).

Doze anos depois eu fui vítima de xenofobia ainda mais clara que os deboches de quando cheguei aqui, vinda de alguém que desconhecia a existência dos caipiras. Mesmo sendo militante de uma parcela oprimida da população, essa pessoa desconhecia o preconceito que caipiras (nomeados com uma palavra que tem origem Tupi) sofrem por serem trabalhadores braçais, da roça, de pouca escolaridade, formados por diversas etnias, incluindo pretos, índios, quilombolas… Sem dúvidas, uma pessoa ignorante acerca de pessoas que deveriam ser contempladas por sua militância. Caipira não é lenda de festa junina não!

Doze anos depois eu vejo a minha cultura, mesmo que de forma torta, mesmo que ainda criticada e cercada de preconceitos, invadindo o Rio Grande do Sul, onde lá atrás ela seria parada na fronteira da República da Pilcha por algum BM mal encarado.

São Evidências, assumam suas discriminações e desconstruam elas.

E Viva a Vida!

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