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RÓTULO (s.m.); peça com inscrição ou letreiro, que serve para informar sobre o objeto em que é fixada; dístico, letreiro, etiqueta.

Nessas andanças entre os círculos de minorias pude perceber uma coisa sempre muito presente nos discursos: o rótulo. Desde então, me dei conta de que a gente compra o rótulo antes de levar o produto (mas isso é assunto pro outro texto), já que, no caso das lutas identitárias, sempre recebemos o rótulo antes mesmo de saber o que é a coisa. “Nigrinha”. “Viadinho”.

Mulher preta nervosa / “I am not my expression” por Steve Rosenfield (What I Be Project)

Os rótulos – paradigmas, definições, caixinhas, conceitos, como queiram chamar – estão presentes no nosso quotidiano por conta da herança classificatória do positivismo científico, de uma hermenêutica cartesiana baseada numa lógica de binarismo. Masculino e feminino. Branco e preto. Hétero e homo. Cristão e herege. Rico e pobre. Essas categorias têm nos diferenciado uns dos outros e nos escalonado em melhores ou piores, certos e errados, apesar da crescente ideia dos seres humanos como iguais, livres e fraternos.

Os rótulos sobre sexualidade têm em si mesmos um histórico no mínimo complicado. Eram considerados indiferentes nas sociedades europeias clássicas, até a “sodomia” obter o status de pecado alcançado com a instituição do cristianismo e sua expansão. Depois, passou a ser “crime contra a moralidade” nas sociedades modernas e, até pouco tempo, o “homossexualismo” era considerado doença. A homossexualidade somente passou a ser levada em conta como um comportamento dito normal do ser humano a partir de 17 de maio de 1990, quando a Organização Mundial da Saúde – OMS retirou-a do Cadastro Internacional de Doenças. No entanto, ainda encontramos pessoas que, seja por desconhecer a carga semântica do primeiro termo, seja pelo desejo de estigmatizar como desordem comportamental, ainda usam homossexualismo atualmente, embora o termo já devesse ter caído em desuso.

Mas esse é o caminho ocidental feito por apenas um desses rótulos. Rótulos que sempre acabam em discussão se devem ser chamados de opção, orientação ou condição sexual – a fim de evitar isso, sempre chamo de sexualidades.

É sabido que o espectro de sexualidades não está restrito ao binarismo que gira em torno do hétero e do homo, como se fossem opostos antagônicos. Bissexuais, assexuais, pansexuais são algumas entre tantas denominações que são oportunas listar neste momento. Só que a sexualidade é fluida e muita gente esquece disso.

O que acontece é que, por conta daquele ranço positivista, temos como um de nossos quereres o de delimitar tudo. E isso causa um desconforto com o próprio sujeito em relação a si mesmo (quem/o que sou eu?) e gera discussões do tipo: héteros podem ficar com outros caras sem serem viados/bissexuais? Ou ainda: gays podem sentir vontade de ficar com mulheres sem se considerarem bissexuais, pelo menos?

Pra mim sim. Porque o que existe é o afeto, a atração, o tesão; que nome isso é dado é pouco importante no dia a dia. E a sexualidade vai fluir, porque a gente se apaixona e sente (ou não) tesão, atração e desejo pelas pessoas, não pelos rótulos que elas trazem; seja de gênero, seja de sexualidade. Isso deve ser uma ideia muito bem fixada na cabeça dos coleguinhas pra evitar alguns desconfortos e economizar umas horas de crise existencial.

Em suma, que o rótulo exista para aquilo que foi feito: identificar. E que essa identificação seja usada de forma positiva, tipo reivindicar políticas específicas ou dar/requerer atenção a realidades vividas. Mas que eles não precisem existir quando seu propósito for nos hierarquizar ou conter, diferenciar ou estigmatizar. Porque para além do direito à igualdade, precisamos ter, antes de mais nada, direito de sermos diferentes uns dos outros.

Foto de capa: Steve Rosenfield – What I Be Project.

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  • Sandro Ferreira

    Jow, parabéns pelo texto. Tem sido uma prazerosa descoberta a contribuição teórico-prática dos estudos Queer para entender o quanto precisamos transitar de uma política da identidade para uma política da diferença.
    Abraços.
    Sandro

  • Alana Barreto

    Diferentemente do caráter estanque dado à algo tão subjetivo, a sexualidade não cabe nas estreitas molduras que socialmente se insiste pôr, é preciso fomentar essa sensibilização em torno dessa pseudo necessidade de categorização e limitação visto que, por vezes, essa engendra uma série de violências! Excelente texto, Jow!