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Uma questão cara ao mundo do entretenimento, porém deixada de lado em grande parte das discussões sobre o assunto, é a representatividade e diversidade nos meios culturais, com especial atenção ao que chamamos de cultura pop, foco do Fast Food Cultural. Aproveitando o gancho do dia da Consciência Negra, abordado aqui no Fast Food Cultural, seguimos com o exercício de conscientização, pensando um pouco sobre os personagens negros presentes nas produções culturais.

Lembro, quando criança, de que meu desenho preferido nas manhãs da TV era a série animada dos X-men. Não que identificasse todo o subtexto dos mutantes sendo entendidos como minorias sociais, como foi bem abordado no filme X2 ou no ótimo quadrinho Deus ama, o homem mata, de Chris Claremont e Brent Eric Anderson (que foi recém lançado pela Panini. Comprem!). Mas por ter uma personagem forte como a Tempestade, que, diferente de todos os outros heróis que via, com a pele negra, como a minha. Outro personagem que eu gostava e admirava era Noturno, que embora alemão, tinha uma cor diferente e, mesmo que os mutantes fossem hostilizados pelos seus poderes, Noturno era mais, já que sua aparência não agradava aos humanos “normais”. Aquilo tudo me fazia assistir empolgado o desenho e adorar, de certa forma me ver na tela e me fazer querer acompanhar tudo. Embora Noturno tenha pouco aparecido na série animada, Tempestade estava sempre presente, era uma das personagens mais legais e uma das líderes do grupo. E creio que, como eu, outras tantas crianças puderam se identificar e se permitiram sonhar com ela. Assim como achei acertadíssima a escolha dos produtores do desenho Liga da Justiça em utilizar John Stewart, um dos mais esquecidos dos Lanternas Verdes, como membro regular da série animada.

Tempestade, poderosa e absoluta

Tempestade, poderosa e absoluta

Lutando contra a invisibilidade

Pensando rápido, quantos personagens negros protagonistas de filmes, livros, HQs ou desenhos animados vocês conseguem lembrar? E coadjuvantes? Por mais que esses números venham mudando de uns tempos para cá, ainda não é o ideal, principalmente se pensarmos em termos da produção nacional, assunto que voltaremos mais adiante.

A produção geral na chamada cultura pop por muito tempo, de forma consciente ou não, contribuiu para tornar invisível tal parcela da população. Filmes, livros, quadrinhos e desenhos normalmente retratam apenas personagens brancos, ou reconhecidos como tal, não deixando espaço para outros grupos se reconhecerem naquilo tudo. Dessa forma, cria-se uma sensação social de invisibilidade para tais grupos. Eles não existem como personagens de ficção, pois fora dela também não possuem voz. Dessa forma, torna-se incompleta a realidade retratada, mesmo em mundos fantásticos: ela dialoga apenas com uma parcela da população, excluindo outra por completo. Mas por que isso realmente importa. Bem, creio que essa imagem responde:

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“Bem, quando eu tinha nove anos, Star Trek estreou e eu olhei para aquilo e saí gritando pela casa, ‘Vem cá, mãe, todo mundo, vêm logo, vêm logo, tem uma moça negra na televisão e ela não é uma empregada!’. Eu percebi naquele momento que eu poderia ser tudo aquilo que eu quisesse ser.” — Whoopi Goldberg

Ter personagens de grupos minoritários presentes em produções culturais instiga as crianças. Mostra às crianças negras, como o exemplo citado, que elas podem ser mais do que a sociedade espera delas. Ajuda em seus sonhos, rompe com as amarras sociais que ainda prendem os jovens, principalmente, a determinados papeis em nossa sociedade. Ver uma super-heroína, um bravo detetive, uma grande advogada, um guerreiro destemido com quem você possa se identificar pode dizer àquela pessoa que: você pode ser muito mais que isso, sonhe, viva!

 

Representatividade no contexto nacional

Quando nasce essa discussão nos EUA, em fins dos anos 1960 e começo dos anos 1970, podemos perceber que, depois das grandes lutas pelos Direitos Civis, personagens negros e de outros grupos minoritários passam a surgir em quadrinhos (Pantera Negra, Luke Cage, a já citada Tempestade) e protagonizar produções no cinema (como o movimento blaxploitation, voltado a essa parte da população). Hoje em dia, devido a diversas lutas e reivindicações, costumamos ver cada vez mais personagens negros em seriados, filmes, quadrinhos e desenhos, protagonizando suas histórias e sendo bem sucedidos. Mesmo em países com a presença ainda menor de pessoas negras em sua população, como o Reino Unido, podemos perceber que esses grupos continuam a aparecer em suas produções (como o seriado policial Luther, que recomendo!). Mas, diferentemente desses dois mercados, o Brasil vive uma situação mais delicada ainda. Enquanto nos EUA e Reino Unido essa população chega a 12,6% e 3%, respectivamente, no Brasil, com 51% da população declarada como tal, não conseguimos perceber essa mesma proporção em nossa produção cultural. Seja televisiva, cinematográfica, literária ou no incipiente mercado de quadrinhos.

Um estudo feito pela professora Regina Dalcastagnè, da UnB, percebeu que na nossa literatura contemporânea, que personagens negros são apenas 7,9% do total. Também é objeto de estudo a questão da representação de pessoas negras na teledramaturgia nacional, segmento que movimenta uma produção gigantesca e contínua. Os resultados deram origem ao livro e ao filme A negação do Brasil, mostrando o descompasso entre essas produções e a realidade social. Normalmente relegados a papeis subalternos, personagens negros pouco surgem em nossas mais diversas formas de produção. E se ganham espaço, são caricaturas, como do infame seriado O sexo e as negas. Conseguimos ver, portanto, que um problema de invisibilidade persiste em nossa produção. Somos um país que muito tardiamente aboliu a escravidão. Um país que adotou discursos higienistas e racistas por sua intelectualidade (sim, Lobato, estou falando de você!), um país que o assassinato de jovens negros e impunidade de seus assassinos por parte da força do Estado crescem de maneira absurda. A invisibilidade dessa parcela da população, a  caricatura, e todas essas sub-representações apenas contribuem para agravar o problema, para que quem consome esses produtos não consigam perceber a diversidade de nossa sociedade, dando espaço para a construção de uma história única, como bem falou a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em sua palestra.

Para não dizer que não falei de flores

Se ao longo do texto expus um quadro não muito favorável que perpetua na produção cultural a relação de invisibilidade social que as pessoas negras presenciam no cotidiano, nem tudo está perdido. Temos artistas trabalhando para mudar essa realidade e diversificando seus personagens em diversas áreas. Embora aqui no Brasil ainda prevaleça o estereotipo e a sub-representação, na TV dos EUA e Reino Unido, centros de produção que possuímos mais contato, a realidade já está mudando. O seriado Luther, já citado, apresenta um detetive negro, interpretado pelo ótimo Idris Elba, e obcecado pelo trabalho em Londres. E uma das maiores sensações do ano corrente foi a estreia de How to get away with murder nova produção de Shonda Rhimes, a talentosa produtora de Scandal e Grey’s Anatomy (dois seriados com elenco bem diverso, devido ao esforço de Rhimes, uma das produtoras mais bem sucedidas dos EUA e negra). Essa série traz como protagonista Viola Davis como uma brilhante advogada e professora de direito de uma das maiores universidades dos EUA e um grupo de alunos, capitaneado por Alfie Enoch (Dino Thomas na série de filmes Harry Potter), envolvidos em um assassinato. Se não estão assistindo, comecem agora! Há algumas outras iniciativas, como Power, série produzida pelo rapper 50 Cent, sobre um dono de boate envolvido com o tráfico de drogas.

Já no cinema, a situação parece ainda ser resistente, como mostra o desastroso elenco do épico bíblico Exodus, de Ridley Scott: embora passado no Egito de milênios atrás, os únicos personagens que possuem pele escura são os escravos e os ladrões. E o diretor ainda “justificou” sua escolha dizendo que, se fosse de outra forma, não conseguiria financiamento para a película.  É de se destacar também, o ainda não lançado Oya, the rise of the orisha, filme nigeriano que mistura a estética dos super-heróis com a religiosidade Iorubá, presente aqui no Brasil em cultos como o candomblé.  No Brasil, algumas produções também surgem com personagens negros de protagonistas, mas ainda pouquíssimas. O grande Kilapy, coprodução com Angola e Portugal, é um exemplo . O vindouro O vendedor de passados, baseado em um ótimo livro do angolano José Eduardo Agualusa, também. Detalhe que os dois possuem o mesmo ator como protagonista, o talentoso Lázaro Ramos. Embora que, em 2013, uma das maiores bilheterias nacionais além das comédias da Globo Filmes, foi Faroeste Caboclo, baseado na famosa música de Legião Urbana e protagonizado por Fabrício Boliveira.

Na literatura, área que costumo ter mais contato, também há iniciativas interessantes. Desde clássicos importantíssimos que estão devendo uma nova edição em português, como Kindred, de Octavia Butler, sobre uma mulher negra do século XXI que viaja no tempo até o período anterior à Guerra de Secessão nos EUA, até obras mais recentes, como o infantil recém-premiado Brown Girl Dreaming, de Jacqueline Woodson, que em seu discurso de agradecimento disse “Eu não quero mais me sentir invisível”, mostrando que sua obra busca lutar contra essa condição social de pessoas como ela e a personagem de seu livro, inspirada em si mesma (e, na noite da premiação, teve que ouvir uma piada racista de quem lhe entregou o prêmio). Algumas outras obras estão disponíveis em português, como o interessante Jogo da Velha de Malorie Blackman, que imagina um mundo onde os signos da opressão são invertidos, apresentando uma visão corajosa e que empurra os leitores para fora de sua zona de conforto, e o Rei Negro de Mark Menozzi, subvertendo um gênero, a Alta Fantasia, que costuma ser majoritariamente branco. Na literatura dita mainstream, também temos os livros da já citada Chimamanda Ngozi Adichie, como Americanah (o blog da protagonista da obra, uma nigeriana que vive nos EUA, tem textos bem interessantes e pode ser acessado aqui) ou Paulina Chiziane, moçambicana, autora de Niketche, uma história de poligamia, que também recomendo.

No Brasil essa também é uma questão complicada e a luta contra a invisibilidade também é árdua. Como já mostrou a já citada pesquisa da professora Regina Dalcastagnè, os personagens negros em nossa literatura são totalmente subrepresentados e estereotipados. Algumas obras, como o clássico Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus, que está sendo revisitado atualmente, e as obras de Conceição Evaristo, possuem um alcance muito limitado. Já o épico Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, vencedor do prêmio Casa de Las Américas 2008, encontra-se há alguns anos esgotado. No meio da literatura fantástica, algumas obras também surgem. É o caso de O espadachim de carvão, de Affonso Solano, e o de Rani e o sino da divisão, de Jim Anotsu, que descobri há apenas alguns dias e estou super animado para ler!

Como percebemos, a questão da representatividade por meio da produção cultural de sujeitos negros é ainda um campo de batalha e essa luta é necessária. Buscando nos livrar da condição de invisibilidade, a cultura e os meios culturais se tornam uma ferramenta importante. Produzir e consumir obras que se propunham mais diversas é um bom exercício, tanto individual quanto social, para escaparmos da “narrativa única”, muito bem exposta na palestra acima mencionada, pois a representatividade importa, ajudando de diversas formas na construção de uma nova realidade. Apresentei aqui uma lista rápida de produções que buscam apresentar um mundo mais diverso, seja “realista” ou fantástico, para que possamos ler e tentar enxergar um mundo mais diverso e interessante, caso saibam de mais algum, indiquem nos comentários!

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