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Eu fico pensando que daqui algumas décadas você entrará em algum desses locais que a elite brasileira adora frequentar, escolha um a seu critério e na sua cidade, e ouvirá em alto e bom som Remonta (de Cabo a Rabá). Qualquer música, todas as músicas, o BluRay/tecnologia compatível da apresentação deles em algum festival clássico: “Gênios da MPB, bons tempos em que a música brasileira tinha qualidade”, porque nosso viralatismo e preconceito é tamanho que eu não tenho muita esperança que ele desapareça tão cedo (vive em looping). Muito menos espero, que nossa população se lembre que Liniker e os Caramelows, e tantas outras e outros, foram ignoradas e ignorados em suas devidas épocas de auge. Isso já aconteceu antes, isso acontece agora, isso vai acontecer depois. Eu não espero, também, que em algum instante os brasileiros se lembrem que Liniker sofre/sofrerá/sofreu uma série de preconceitos por ser a pessoa que é ao se identificar sem gênero. “Queria ter ido a um show deles”:

Na vernissage, no coquetel, no country club, no pub com clima intimista-vintage-erótico-higienizado… Quando as caixas de som se encherem com o vozeirão de Liniker; com a voz das fantásticas backing vocals Renata Éssis e Bárbara Rosa (que faleceu esse ano); com o som do excepcional trompete de Márcio Bortoloti; além da bateria marcante de Pericles Zuanon; o baixo foda de Rafael Barone e a guitarra rasgada de William Zaharanszki; essas pessoas só pensarão em quão cult e descoladas elas são por estar ali sentadas em suas bundas gastando seus ricos dinheirinhos ao ouvir o renomado/clássico/premiado Remonta (tem que ser em vinil, edição de colecionador e se possível autografado porque o autografo faz soar diferente). Esquecerão que hoje o conservadorismo desse país esconde o brilhantismo de artistas como eles, não haverá questionamentos na mesa do bar, assim como não há, agora, sobre artistas que foram silenciados e exilados durante a ditadura e atualmente são ídolos das massas.

É difícil aceitar que uma pessoa preta que não se identifica nem como homem e nem como mulher seja nosso gênio atual, não é verdade? Seria melhor se fosse o padrãozinho, né não? Seria melhor que a instrumentação não fosse tão boa, né não? Que os músicos fossem todos padrõezinhos, mas elas e eles não são. “Eu não quero gostar dessas pessoas!”

O tempo dirá, como disse tantas outras vezes. O tempo reconhece e repara erros. Infelizmente, às vezes demora demais e nem sempre os resultados vem como gostaríamos. E talvez as pessoas não notem, mas é bem possível que nós estejamos num dos pontos mais altos da produção musical nacional com muita gente jovem e/ou nova despontando (nos mais diversos gêneros musicais), todavia como em outros momentos existe preconceito, existe boicote midiático e por aí vai.  Eu mesmo tenho resistência em ouvir produções nacionais atuais e estou investindo em corrigir esse meu grande erro (com ajuda do Spotify e uma lista que tenho montado aos poucos). Erro que é, na minha opinião, gravíssimo, haja vista que sou uma pessoa que vive pregando uma posição anti colonialista, mas que majoritariamente ouve músicas de língua inglesa (e está sempre atualizada nelas). Não adianta falar e não fazer. Não adianta ficar estacionado nos sambas antigos, nos sertanejos de raiz, na MPB que poderia ser minha mãe ou vó…

Enquanto isso Liniker e os Caramelows transbordam musica brasileira por onde passam e soam. Abra os ouvidos:

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Remonta: o genial trabalho de Liniker e os Caramelows
Quantos pepinos em conserva vale esse álbum?
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