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[AVISO: o texto a seguir contém altas doses de ironia]

A maioria das pessoas pensa que apenas homens possuem pênis – que todos os homens possuem pênis, e que quem possui pênis é homem. É uma noção elegante, mas que foge da realidade complexa atual. Por acaso, muitas mulheres possuem pênis também, o que pode vir a ser um problema se você se encontra nessa situação. O que fazer com um pênis quando se é mulher?

As pessoas gostam de assumir que nossos corpos ainda são essencialmente masculinos, e que funcionam da mesma maneira que o corpo dos homens, mas qualquer mulher trans ou travesti afirmaria o contrário. Portanto, boa parte do que aprendemos e do que nos ensinaram sobre nossos corpos não é exatamente útil. Sendo assim, traduzi e adaptei o texto “10 Rules For Managing Your Penis When You’re Trans”, de autoria da Zinnia Jones, pra dar uma forcinha às manas trans do meu Brasil.

  1. Aquenda isso aí.

Esconda, em qualquer situação, qualquer rastro da existência do seu pênis. Usar calcinhas apertadas demais, passar a fita, usar o dobro de roupas que qualquer outra pessoa usaria – faça o que for preciso. Claro, os homens podem andar por aí o dia inteiro com a mala aparente e ninguém dá a mínima. Mas, assim como pelos nas pernas e nas axilas magicamente se tornam anti-higiênicos quando se encontram no corpo de uma mulher, a mera presença de um volume nas calças de uma mulher pode fazer as pessoas surtarem. Sim, empurrar seus testículos até seu abdômen e deixá-los lá por longas horas não é normal – mas quando você é mulher trans ou travesti, é rotina.

  1. Nunca vá a piscinas ou à praia.

Você gosta de nadar? Tá um calor do cacete? Quer estrear o biquíni fofíssimo que pechinchou na feirinha? Hoje não, Faro. Aquendar no dia a dia é uma coisa, mas manter as nozes na casca e o periquito na gaiola num ambiente tumultuado, úmido, e vestindo pouquíssimo tecido são outros quinhentos. Nem toda fita isolante do mundo vai te ajudar agora, e a inabilidade da sociedade de compreender corpos não-normativos fica especialmente evidente quando uma mulher tem algo extra dentro do seu maiô. Soluções possíveis: skirtinis, burquinis, e – minha preferida – martinis.

  1. Falando de ambientes sem espaço para corpos não-normativos: NUNCA vá a vestiários.

Ou você será obrigada a levar seus peitos pro vestiário masculino, ou estará trazendo seu pênis pro vestiário feminino. Se você perguntar pra algum trouxa o que ele espera que a gente faça nessa situação, provavelmente o cérebro dele vai entrar em tela azul quando perceber o paradoxo. As pessoas não estão preparadas para aceitar qualquer uma dessas opções. Você só quer tomar um banho e trocar de roupa como todo o mundo ali, mas aparentemente o mundo cis não aceita isso.

  1. Nem ouse esperar que alguma pessoa sequer ache seu corpo desejável.

Nunca diga isso em voz alta. Nunca sugira que alguém possa desejar uma mulher que tem um pau ou que esteja fora dos padrões inalcançáveis religiosamente impostos pela mídia. Não espere que as pessoas repensem seus gostos e expectativas, e jamais expresse seu descontentamento com a maneira que sua transexualidade ou travestilidade prega na sua testa uma placa de “NÃO SE RELACIONE COMIGO”, bem grande. Fique feliz! Afinal, você ainda é procurada por travequeiros fetichentos na calada da noite. Pelo menos você tem o direito de ser vista como um depósito de porra ambulante, uma boneca inflável, ou um dildo acoplado numa mulher (brincadeirinha, você não é vista como mulher). E também aceite que homens cis hétero fiquem putos com você por fazer com que seus devidos pênis fiquem eretos, dizendo que você os enganou. Se você apanhar por causa disso, azar, né? Ninguém se importa com violência transfóbica. Quem mandou se vestir de mulher?

Bônus: “feministas” vão te chamar de “estuprador de saia”. Se acostume.

  1. Corte ele fora.

Faça a cirurgia de redesignação genital. Você precisa de uma vagina se quer ser levada a sério um dia. Ninguém se importa se você gosta do seu pênis e não tá a fim de passar por uma cirurgia complicada, perigosa e cara. Afinal, sem uma vagina, como raios você vai ser uma mulher de verdade? 

  1. Melhor começar a juntar uma grana.

Na soma total do custo de anestesia, cirurgião, quarto do hospital, remédios, recuperação, pós-operatório e passagens de avião, você pode gastar uma baba de cerca de 30 mil reais, ou mais, dependendo do escultor-de-pepecas que você escolher. Ainda bem que o governo disponibiliza cirurgias gratuitas pra quem não tem essa grana toda, né? Existem QUATRO (uau, tudo isso?) hospitais públicos que realizam a CRS no Brasil, e o maior deles, do estado de São Paulo, realiza uma cirurgia de vaginoplastia por mês, sendo que a fila de espera já conta com centenas de mulheres trans. Ou quem sabe seu plano de saúde cubra a cirurgia (pffffffffkkkdsjfgksdf HAHAHAHA ok). Se você tem disforia genital, estou rezando pra você conseguir fazer a cirurgia antes de morrer. E aí, depois disso, você vai começar a ser reconhecida como a mulher que você é. Se tiver sorte. E se tiverem a fim de te respeitar hoje. Ou não. Bom, mas pelo menos você vai ganhar o privilégio de ir à praia ou a uma piscina de novo! Quem mais no mundo tem o direito de fazer isso, hein?

Spoiler: você vai continuar sendo chamada de “estuprador de saia”. 

  1. Mantenha ele em forma.

Isso é um eufemismo pra “masturbe-se regularmente”. Não utilizar o pênis enquanto você faz a ingestão de bloqueadores de testosterona pode levar à sua atrofia, e com o pênis atrofiado, a cirurgia de redesignação é dificultada ou impossibilitada. Não existem dados científicos concisos que comprovem isso, afinal, ninguém está interessado em pesquisar sobre a saúde de pessoas trans, mas é melhor garantir, né? Então mesmo que você se sinta extremamente disfórica, o ideal é estimular seu grelo com alguma frequência. Pode ser uma tortura, eu sei, mas essa vai ser sua realidade durante a looooooooooonga espera na fila do SUS, ou durante o looooooooooongo processo de juntar uma grana pra cirurgia pelo sistema privado. Boa sorte. 

  1. Sério, dedique um tempo pra se re-acostumar com ele.

Parceiros sexuais desavisados podem assumir que seu corpo funciona da mesma maneira que o corpo de um homem cis, e até mesmo muitas mulheres trans e travestis ficam um pouco confusas com como lidar com seu próprio corpo. A questão é que as altas taxas de estradiol, baixas taxas de testosterona, possíveis cirurgias e possíveis disforias fazem do nosso corpo único. A ereção pode ser menos frequente ou inexistente, estímulos outrora prazerosos podem agora te deixar desconfortável, e estímulos que antes não tinham efeito algum no seu corpo podem se tornar um botão de “acionar orgasmos múltiplos”. O fato é: vai levar algum tempo até você aprender a se masturbar e saber o que te dá prazer ou te deixa disfórica. Sexo pode ser uma experiência incômoda e desastrosa. O importante é se dedicar a explorar seu corpo e desenvolver intimidade consigo mesma.

  1. Encontre nomes legais pra ele.

Não precisa ser nomes próprios, como Michele ou Jaina (a não ser que essa seja sua praia). Às vezes, termos como “pênis”, “pau”, e “piroca” (eca) podem nos deixar desconfortáveis. Eu já mandei um parceiro sexual pra casa por se referir a meu grelinho como “piroca”. Olha pra mim e me diz se eu tenho cara de quem tem “PiRoCa”. Quem tem “””piroca””” é macho cis. Eu tenho uma “florzinha”, um “grelinho”, etc. Descubra quais termos te deixam incomodada ou disfórica, e se divirta achando nomes criativos pra sua Michele. 

  1. Foda-se o mundo. Faça o que você bem entende e nunca se envergonhe.

Jogue a fita fora e deixe sua mala completar o look. Vá à praia de fio-dental e mande tomar no cu quem se incomodar. Encontre alguém que goste de você do jeito que você é, eu garanto que tem muita gente maravilhosa por aí disposta a amar você e a respeitar seu grelinho. Se você não gosta de tocar lá embaixo, foda-se: deixe seu pênis atrofiar até virar uma florzinha adorável. Pegue seus 30 mil reais e viaje o mundo. Chame seu pênis de Juliana e costure tutus de balé pra ela. Ninguém tem que falar porra nenhuma sobre como VOCÊ lida com O SEU corpo. A sociedade não sabe lidar com seu pênis, mas você sabe.

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  • Eduardo Turcatto

    Que postagem é essa? Isso só impõe uma trans ou travesti a ficar na sua. Deve-se educar a sociedade para que se respeite as trans e travestis, assim garantido-as seu espaço social e seu direito de serem elas mesmas, em vez de educá-las para ficarem no cantinho caladas (total exclusão social!).

    • Paulo Carvalho

      Olá, Eduardo, tu por acaso leu o início do texto da Aria? “[AVISO: o texto a seguir contém altas doses de ironia]”, o texto é irônico em basicamente todas as partes, é justamente para dizer que é mais do que normal ir a praia de biquíni e curtir, sem ter que enfiar suas bolas pra dentro e grudar o pau com fita. A Aria, por sinal, é Travesti e o texto aqui adaptado/traduzido também é de uma ativista da causa.

      • Eduardo Turcatto

        Peço desculpas. Eu li mas somente depois que meu comentário tinha sido enviado para análise, aí não tinha como editar nem remover. Erro meu. Fiquei perplexo achando que o texto era sério. Novamente, desculpa pela falta de atenção.

        • Paulo Carvalho

          Que isso, Eduardo, tá de boas, hahaha. Pelo menos, como acertadamente me alertou a Aria, tu comentou positivamente em defesa da causa. E depois acabei acessando teu perfil, e foi com alguma alegria que me deparei com um cara que, além de jovem, curte metal, e sei muito bem que esse meio precisa de gente que esteja orientada nesse sentido, pois normalmente rola muito preconceito.

          • Me senti elogiado. hahaha Falou tudo. O metal tá muito conservador ultimamente. Machista, racista, homofóbico… Triste ver isso de um cenário que surgiu como revolucionário e libertário. Mas o que importa é pessoas como nós estarem presentes em todos os meios sociais, no metal, na internet, em comentários assim e etc para não deixarmos essa onda de conservadorismo tomar conta.

    • Paulo Carvalho

      Em tempo, a dica 10 não é irônica:

      “Foda-se o mundo. Faça o que você bem entende e nunca se envergonhe.

      Jogue a fita fora e deixe sua mala completar o look. Vá à praia de fio-dental e mande tomar no cu quem se incomodar. Encontre alguém que goste de você do jeito que você é, eu garanto que tem muita gente maravilhosa por aí disposta a amar você e a respeitar seu grelinho. Se você não gosta de tocar lá embaixo, foda-se: deixe seu pênis atrofiar até virar uma florzinha adorável. Pegue seus 30 mil reais e viaje o mundo. Chame seu pênis de Juliana e costure tutus de balé pra ela. Ninguém tem que falar porra nenhuma sobre como VOCÊ lida com O SEU corpo. A sociedade não sabe lidar com seu pênis, mas você sabe.”

      😉