Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
Quer ver seu nome aqui? CLIQUE e saiba como.


“O Tchê Tchê, macaco!”, é o grito que surge logo na entrada do Palmeiras dentro da Arena da Baixada, estádio do Atlético Paranaense, em Curitiba, pela última rodada do Brasileirão. O rosto do cidadão que emite o grito discriminatório fica claro no vídeo gravado pela TV Palmeiras.

Tchê Tchê olha pra trás para ver o rosto de seu agressor. Tchê Tchê, ou Danilo Neves, é um garoto de 23 anos que tem que conviver com um cenário em que um tribunal ainda analisará se o outro time perderá pontos por causa do racismo de sua torcida. Tchê Tchê é um garoto que joga num futebol composto majoritariamente por atletas de sua cor. Tchê Tchê mora num país composto majoritariamente por pessoas de sua cor.

Seja Atlético-PR, seja Palmeiras, ou qualquer outro time, não adianta mais que a punição caia somente sobre o torcedor, já vimos isso ocorrer e não deu resultado. E quando cair sobre o time, não basta perda de mando de campo ou jogo sem torcida, ou torcida única, a torcida não entende isso, não afeta em nada. Os dirigentes e federações também estão se fodendo pra isso.

O racismo continuará (a cada denúncia descreditada mesmo com todas as provas audiovisuais). O machismo continuará (a cada bandeirinha sendo aconselhada a posar na Playboy, já que lá, supostamente, seria seu lugar devido). A homofobia continuará (a cada tiro de meta cobrado ao grito de “Bicha!”). Enquanto os times não forem punidos com pontos, perda de posição, e até rebaixamento, nada se resolverá.

Outra coisa falha é que o torcedor que comete injúria, violência, destruição, ou faz qualquer merda dentro e fora de um estádio X, acaba entrando no estádio Y sem impedimento nenhum, visto que os sistemas de gestão dos estádios brasileiros, ou até mesmo sul-americanos, não tem comunicação entre si, nem com a Polícia Civil ou Militar. Um torcedor punido no estádio do Grêmio pode destruir o estádio do Palmeiras, e vice-versa. Um torcedor punido no estádio do Inter pode destruir o estádio do Corinthians, e vice-versa. E por aí vai.

Se não começar automaticamente, é a partir dos 3min e 17s do vídeo abaixo:

É interessante notar que o único “cristo” dessa história, fora as próprias vitimas do racismo, foi aquela menina gremista. A única mulher até hoje pega por câmeras dentro de um estádio de futebol expulsando quão escrota pode ser uma pessoa, ao lado de pelo menos mais umas quatro pessoas do gênero masculino, foi perseguida aqui em Porto Alegre, pintou o cabelo várias vezes, mudou de casa, mudou de escola, mudou de cidade, sumiu do mapa… Se você puxar na memória se lembrará da foto dela que a mídia machista martelou na nossa mente e a reconhecerá em qualquer lugar que ela estiver, mas e os caras? Com eles quase nada aconteceu, nenhuma perseguição, eles ainda se apresentam na delegacia até onde eu sei e devem ter que pagar alguma cesta básica, se já não pararam de pagar. A carreira do goleiro Aranha foi afetada com certeza, um excelente profissional jogado na reserva do Palmeiras depois da fuga do Santos onde a própria torcida do crucificou, e que agora vive de incertezas depois de deixar o Allianz Parque sem nem atuar direito.

Tchê Tchê é um expoente do futebol brasileiro, um dos melhores laterais que já vi atuando nos últimos anos, e não é só porque joga pelo time que torço, mas tem potencial para ir muito longe, muito além do que a maioria dos jogadores atuando hoje no futebol brasileiro. Um jovem preto que está num dos poucos lugares, infelizmente, que permitem ascensão astronômica para alguém de sua etnia, e que, aos 23 anos, feliz por ter conseguido comprar uma casa para sua mãe depois de ser contratado pelo Palmeiras, enxerga mais uma vez a impunidade do racismo com que convive diariamente desde que nasceu.

Achou nossa mensagem importante e quer que ela chegue em mais pessoas? Ajude o Fast Food Cultural a crescer, seja um financiador! Você pode contribuir com o projeto através do Patreon ou Apoia.se, acesse os links, confira nosso vídeo, nossos objetivos, leia outros textos nossos e faça parte da nossa família.