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Aceitei o convite para escrever sobre gênero e relações raciais no Fast Food Cultural ciente do enorme desafio que me espera. Nesse texto de estreia, decidi trazer quatro aspectos que são fundamentais para entender o que é ser mulher negra no Brasil, sem a intenção de esgotar as possibilidades de discussão nesse campo, mas apenas para dar um pano de fundo geral e objetivo para os muitos eventos que aqui problematizarei no futuro.

A condição da mulher negra no Brasil atravessa uma complexidade de fatos históricos que se manifestam na realidade vivida como um prolongamento do período de escravidão: o regime escravocrata é ainda um impasse para a mobilidade social das mulheres negras. Sentimos que a escravidão acabou oficialmente, mas o racismo não, sendo praticado pelas pessoas com aterrorizante visibilidade. O racismo como um típico sistema de opressão visa negar direitos a um grupo, criando uma ideologia de exploração que, mesmo na contemporaneidade, força mulheres negras a buscarem um lugar como cidadãs – lugar que lhes é sistematicamente negado.

As mulheres negras são educacionalmente desfavorecidas com relação às mulheres brancas. De acordo com o dossiê de mulheres negras de 2007, a taxa referente à frequência do Ensino Superior de mulheres brancas é de 17,4%, enquanto a das mulheres negras é de 6%. Em 2009, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apresentou 23,81% das mulheres brancas na universidade, mas apenas 9,91% das mulheres negras no mesmo espaço. Como se não bastasse sermos a minoria nas universidades, quando conseguimos concluí-la, ainda temos que conviver com olhares e conflitos desejosos de colocar dúvidas sobre nossas capacidades, bem como sobre os saberes da nossa cultura negra.

A mulher negra muitas vezes torna-se a única base financeira de sustento para sua família. Criar os filhos por conta enquanto trabalha fora faz parte da história da mulher negra no Brasil e no mundo, sendo uma realidade secular que foi, por muito tempo, ignorada pelos movimentos feministas de luta das mulheres brancas pela transcendência do espaço do lar. Conjuntamente à união da mulher negra com sua família, há laços que se estendem à comunidade a qual ela pertence. A maioria das organizações e sustento familiares são realizados pela coletividade da mulher negra. Em um artigo escrito por José Ivo Follmann e Adevanir Pinheiro em 2011, há algumas informações da cidade de São Leopoldo no Rio Grande do Sul, mas que é exemplo para o Brasil: a figura da mãe é uma referência importante no meio da população afrodescendente. Em muitas situações, impera uma espécie de matriarcado para o qual precisamos atentar ao interseccionarmos a categoria de gênero e a de raça.

Apesar de estarmos todas mulheres no mercado de trabalho atualmente, nós mulheres negras não conseguimos obter salários iguais ao das mulheres brancas mesmo quando exercemos a mesma profissão. Os cargos de gestão são ainda pouco ocupados pela mulher negra. Quando nos tornamos bem sucedidas e somos reconhecidas profissionalmente, temos de lidar com o preconceito e com a discriminação racial que exigem maiores esforços para a conquista do ideal pretendido. A questão de gênero é em si um complicador, mas, quando somada à da raça, coloca sobre nós mulheres negras as maiores dificuldades. Para exemplificar essa desigualdade, o estudo de Síntese de Indicadores Sociais do IBGE realizado em 2012 indica que, no ano de 2001, 49,9% das mulheres brancas tinham empregos formais, contra 34% de pretas ou pardas. Em 2011, o número de brancas trabalhando subiu para 61,8% da população, enquanto as negras aumentaram para apenas 47,3%.

Portanto, é árdua e complexa nossa vida cotidiana. Ser mulher negra no Brasil é viver com manifestações racistas e machistas no dia-a-dia, é lutar por um espaço social, cultural, educacional e profissional com reconhecimento e excelência. É fazer da nossa dor um ato político e reivindicar por ações e políticas que representem a mulher negra com suas reais necessidades. Nós continuaremos lutando por equidade e efetivação – por oportunidades que possam mudar todo esse cenário machista e racista que nos tornam invisíveis. Que esta coluna faça parte da diferença.

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