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“E se os animais e vegetais, essas formas de vida que muita gente acha menos valiosas do que a vida de um ser humano, ganhassem um poder além da conta?”, pergunta Hitoshi Iwaaki a um leitor que envia uma carta à revista Afernoon em 1991. A conversa é sobre o mangá Kiseiju, publicado por Iwaaki no Japão no final da década de 80. Felizmente publicado pela JBC aqui no Brasil este ano, agora podemos apreciar a obra sob o título Parasyte – inspirado no nome em inglês que dá título ao anime no eixo anglo-saxão, lançado no Japão em 2014 como Kiseijū: Sei no Kakuritsu.

Com a promessa de completar a novela em dez volumes, a JBC compartilha conosco a incrível história de Shinichi Izumi, cuja mão direita é tomada por um parasita que falha na tentativa de tomar conta de seu cérebro. Enquanto os dois tentam viver em harmonia, outros seres humanos passam a ser controlados pelas criaturas que surgem por toda a parte e se alimentam de outras pessoas. Uma narrativa de horror e ficção científica, sem dúvidas, mas com elaboradas reflexões sobre os excessos da humanidade.

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A história de Shinichi, de Miggy e dos “moedores de carne”:

“Que troço bizarro”, eu pensei quando iniciei a leitura de Parayte. A história começa com estranhas esferas do tamanho de uma bola de tênis atravessando a atmosfera e encontrando o solo. Em terra firme, delas saem criaturas semelhantes a longos vermes que entram nas residências e penetram nos orifícios de diversos seres humanos. Um desses humanos é Shinichi, o protagonista do mangá, que acorda quando o parasita tenta acessar seu corpo pela cavidade nasal. Apesar de ter conseguido contê-lo num primeiro momento, para o pânico do estudante, o parasita penetra sua mão. Ele grita e amarra o braço em verdadeiro horror, olhando aterrorizado para o verme correndo sob a pele. Os pais acordam e vão até o seu quarto acudi-lo, mas o parasita já não está mais visível e eles se veem incapazes de acreditar no filho. Na manhã seguinte, todos acreditam que o episódio não passou de um pesadelo do jovem.

No entanto, a mão de Shinichi, dormente desde aquela noite, passa a apresentar sinais de autonomização e capacidades sobre-humanas – ele não controla seus movimentos e vê o braço e a mão esticarem e adquirirem força e habilidades incríveis. Enquanto isso, pessoas são encontradas dilaceradas no mundo inteiro sem qualquer pista, voltando as suspeitas a grupos religiosos dissidentes e organizações criminosas, chamados misteriosamente de “moedores de carne”.

parasyte01Não demora muito tempo para a “mãozinha” abrir seus olhos e boca (!) e começar a falar com Shinichi. Tudo, então, se esclarece: os vermes que se espalham pelo planeta no início da trama são parasitas que invadem o corpo humano e tomam o cérebro, tornando-se capazes de controlarem o corpo inteiro. Ainda que pareçam pessoas comuns, elas conseguem mudar de forma esticando-se como uma borracha ou endurecendo como ferro, multiplicando olhos e criando tentáculos. Como se alimentam de pessoas, são as responsáveis pelas mortes. Apesar disso, como parasitas por excelência, elas dependem dos órgãos internos do ser humano para sobreviver. É aí que entra, então, o drama de Shinichi: o parasita que penetra seu corpo não é bem sucedido ao alcançar o cérebro, e consegue apenas tomar conta da sua mão. A trama desdobra-se, assim, nas tentativas de convivência de Shinichi e sua mão, nomeada Miggy, que entende estarem em codependência e terem de zelar um pelo outro. Além disso, Shinichi fica perturbado ao se perceber o único a saber o que está acontecendo e, não se conformando com a alimentação dos novos seres que invadem o planeta, deseja poder poupar a vida dos seres humanos em perigo.

Uma ficção, mas nem tanto:

A primeira edição de Parasyte oferece uma narrativa que dinamiza os sentimentos de quem a lê: às vezes embasbacada, às vezes horrorizada, às vezes curiosa, às vezes um pouco de todas as minhas emoções ao mesmo tempo (!), eu concluí as 232 páginas em uma tacada. Apesar de a trama combinar diferentes fórmulas para um bom terror ficcional – a mutilação, uma aparente invasão alienígena e a perda de controle do próprio corpo –, há nela uma boa dose de reflexão sobre o mundo tal como o experimentamos, particularmente nas reflexões de Shinichi e em seus diálogos com Miggy.

Shinichi mostra-se perplexo com a frieza demonstrada por Miggy com relação aos parasyte02outros. Sua mão autônoma sempre coloca os dois acima de qualquer coisa – o importante, para ela, é que Shinichi esteja seguro e saudável, pois, assim, ela também estará, de forma que ela pouco ou nada se importa com o resto. No entanto, o que mais atormenta Shinichi é a alimentação dos pares de Miggy, que se instalaram nos cérebros das outras pessoas.

Miggy não entende, por exemplo, porque Shinichi está tão horrorizado com seres aparentemente canibais – pois, se o parasita se hospeda em pessoas, se alimentará de pessoas. Miggy genuinamente questiona Shinichi se é mesmo tão ruim ter os semelhantes comidos pelos dele, ao que Shinichi responde aos gritos que toda vida humana é preciosa e que Miggy só é incapaz de compreendê-lo porque “não passa de um verme predador”. Miggy recusa a ideia de Shinichi de divulgar o que está acontecendo pelo mundo e ameaça tirar sua voz, sua audição ou sua visão se assim o fizer. Shinichi, atormentado, o acusa de demônio.

Está claro que a convivência não é fácil, mas Miggy é talentoso em dialogar com o jovem: “Eu pesquisei nos livros sobre o significado da palavra ‘demônio’ e tenho que discordar de você. Creio que as criaturas sobre a terra que mais se aproximam da definição de demônio são os humanos. A sua raça mata e se alimenta dos mais variados tipos de criaturas, enquanto meus semelhantes se restringem apenas à espécie que se hospedam… É uma dieta até bem modesta.”

Em diálogos como esses, Iwaaki transforma a sua trama em uma interessante metáfora da bondade seletiva e do egoísmo que tomam conta das ações humanas. Shinichi defende que toda vida humana é preciosa e que é um absurdo comer humanos, mas é incapaz de lançar qualquer problematização à preciosidade sobre a qual ele fala ou pensar sua própria dieta nos termos de Miggy. Se, por um lado, ficam claros os problemas que emergem de tentar justificar o porquê os seres humanos são mais importantes do que outros seres – e por isso seriam eles os únicos poupados da racionalidade carnívora e se ignoraria, nessa lógica, outros animais –; por outro, fica evidente o peso do saber à sensibilização do protagonista: Shinichi sabe o que está acontecendo e, desde as suas circunstâncias, não é sequer capaz de ignorar os eventos. Até que ponto as vidas são qualificadas como preciosas na medida em que atravessam a realidade de Shinichi e até que ponto o são desde uma visão verdadeiramente fraternal que busca o que acontece para que se possa agir a respeito? No fim das contas, Shinichi divide-se em uma imagem de hipocrisia, de culpa e de confusão sobre o que ele sente pelos outros ou sobre o que simplesmente sente por si.

Considerações finais e técnicas:

A publicação de Parasyte pela JBC é simples, mas a proposta de completar a obra de parasyte0310 edições é atraente. O mangá não dispõe de páginas coloridas, e as folhas são bastante finas, possibilitando ver as ilustrações do verso. A capa do mangá também deixa a desejar: parece com a estadunidense, mas piorada, com uma arte que qualquer um faria no Paint. No entanto, a JBC acerta ao publicar, entre os capítulos finais, uma série de perguntas feitas por leitores a Hitoshi Iwaaki sobre o mangá, provocando reflexões sólidas sobre a filosofia do texto, que corre o risco de ser ignorada pelo leitor menos atento.

Hitoshi Iwaaki é competente neste trabalho: a arte é adequada à trama, com traços retos e simples. A narrativa é dividida em seis capítulos e há um conjunto de precisões interessantes, como algumas revisões à história. Um dos pontos altos, além das bem-vindas críticas à sociedade que contradizem a expectativa da simples ficção, é um aparente desdobramento sobre as estratégias que os seres parasitários passarão a fazer uso para compreender suas próprias existências e perpetuarem suas vidas na Terra. No entanto, essas são questões das próximas edições.

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Parasyte (Kiseiju): Horror, mutilação e reflexões sobre egoísmo
Quantas mangas vale esse mangá?
Conteúdo:10
Publicação:5
PRÓS:
  • Boa narrativa gráfica;
  • Trama de ficção e suspense original;
  • Mangá estimula interessantes reflexões.
CONTRAS:
  • Publicação sem folhas coloridas;
  • Páginas finas, com algum grau de transparência;
  • Arte da capa fraca.
7.5Nota
Nota do Leitor: (1 Voto)
10.0