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Com a divulgação do trailer e dos pôsteres do filme Pan (confira aqui), que se propõe a mostrar a história não contada do menino que não queria crescer, uma coisa chama atenção além da qualidade do filme ou o nível de empolgação com uma história tão clássica: a personagem Tigrinha (Tiger Lily no original), que é interpretada no filme por Rooney Mara. Mas o que tem isso? O problema é: Tigrinha é uma “princesa” indígena e Rooney Mara,bem… é branca. Então, o que isso tem de mais? Tem que, infelizmente, há um processo de apagamento de minorias étnicas e sociais nos elencos dos grandes sucessos do cinema.

Tigrinha (Tiger Lily) na animação de 1953

Tigrinha (Tiger Lily) na animação de 1953

Como demonstrado com o elenco e demais materiais de divulgação de Exodus, novo épico bíblico de Ridley Scott, Hollywood se preocupa principalmente com uma coisa: rostos brancos e “ocidentais” para estampar em seus cartazes de divulgação. Há milênios atrás, os egípcios não eram brancos, como não são até hoje. Ter escalado um elenco com atores e atrizes negros ou de ascendência árabe poderia ser uma solução, mas não foi o caso. Scott chegou a tentar se justificar, falando que não conseguiria financiar seu filme caso colocasse um ‘Mohammad qualquer coisa’ como protagonista de seu filme (aqui). Seria apenas uma declaração absurda do diretor? Ou apenas uma regra tácita que há entre os grandes estúdios americanos? (O que não isenta Scott e sua equipe: o diretor, influente como é, poderia ter se esforçado para compor um elenco mais diversificado, e não um dividido entre brancos protagonistas e negros como personagens sem nome e subalternos).

Acompanhamento: Representatividade negra: uma questão de invisibilidade.

Esses dois filmes, grandes produções épicas de grandes estúdios que buscam um super sucesso de bilheteria esbarram no mesmo problema: o embranquecimento (o que nos EUA chamam de whitewashing) dos filmes. Mais que perceber quanto os papeis com nomes e falas dos filmes não são diversificados, o problema aqui é maior: é transformar personagens, mesmo que fictícios, que pertencem a grupos minoritários em brancos, para supostamente agradar uma audiência ideal ocidental. (Apenas pessoas brancas dos EUA assistem filmes?)

Um ponto que costuma surgir quando discutimos essas questões internet afora é: mas e os personagens que viraram negros/latinos/mulheres? “Por que o Tocha-Humana pode ser negro e a Tigrinha não pode ser uma atriz branca?”. Bem, primeiro tenho que falar que admiro demais o trabalho da Rooney Mara (Lisbeth Salander ♥) e que ela é uma ótima intérprete, mas esse não é o ponto. O problema em comparar as duas situações é a falsa simetria entre elas. Enquanto há esse movimento de mudar a etnia ou cor, a orientação sexual ou o gênero de personagens consagrados, principalmente de quadrinhos, para sujeitos de grupos minoritários, o inverso não faz sentido, pois se busca uma maior representação para aqueles grupos, até então subrepresentados, seja no cinema, nos quadrinhos ou em outras mídias. O Tocha-humana será interpretado por um ator negro porque, quando criados,  o Quarteto Fantástico não estavam inseridos em um contexto onde essas questões eram debatidas da mesma forma que são hoje. Em um elenco completamente branco, Michael B. Jordan aparece para dizer que os Estados Unidos é um país diverso, seja em seu universo ficcional ou em seu universo real, o nosso. E essa diversidade deve ser apresentada nas telas.

Mas qual seria o sentido de transformar uma das poucas personagens não brancas da história de Peter Pan em caucasiana? Embora o elenco de Pan apresente outros personagens de etnias diversas, como o Chefe Pantera Pequena, que será interpretado por um ator australiano de origem indígena, Jack Charles, o processo de embranquecimento de Tigrinha, que se supõe que terá um papel maior no filme, visto que sua atriz estampa cartazes de divulgação, é ainda problemático. Uma das maiores indústrias do mundo não deveria ainda insistir em apresentar apenas um modelo, de beleza ou outro. Rooney Mara é talentosa, mas sua presença no elenco soa como um equívoco. Quantos atores e atrizes indígenas ou nativo-americanos vocês viram em filmes? Nem mais em faroestes maniqueístas (e muitas vezes fortemente racistas) eles surgem, já que a produção desse material arrefeceu depois dos anos 1960 (e nem sempre nos anos 1960 os indígenas de faroeste eram atores ou atrizes nativo-americanos: Burt Lancaster, Audrey Hepburn, Harry Brandon e, mais recentemente, Johnny Depp no fracasso Cavaleiro Solitário, também o fizeram. Além dos infames comerciais com o “índio chorando”, que pipocaram na TV dos EUA dos anos 1970, estrelados por Cody Olhos de Ferro, que mais tarde se descobriu ser um americano de origem italiana, não um nativo-americano como diziam os produtores). E, ainda mais, em uma grande produção, como será Pan. A última atriz nativa-americana que vi em uma produção renomada foi Q’orianka Kilcher, em Novo Mundo, de Terrence Malick, em 2006. Furtar a oportunidade de uma atriz nativo-americana estrelar uma grande produção com chances de se transformar em blockbuster não me soa justo. Ainda mais de um grupo tão fragilizado socialmente como são os povos indígenas no continente americano, quase como um todo.

Durante todo o século XIX, devido à clara divisão social perpetrada pelo racismo e a escravidão, atores negros não eram permitidos em teatros nos EUA. Para interpretar personagens negros, atores brancos pintavam seu rosto de preto, no que ficou conhecido como Blackface. Essa prática sobreviveu até o século XX, e em 1930 Hollywood ainda a usava. É apenas nos anos 1960 que se vai banir esse tipo de prática, juntamente com o ponto alto dos movimentos dos direitos civis. Porém, colocar atores para interpretar personagens indígenas ainda parece ser aceitável, no que alguns críticos andam chamando de Redface. Embora não tão comum (pois os nativo-americanos pouco aparecem nas produções culturais para além dos faroestes), essa prática ajuda na invisibilização desses grupos e reforça estereótipos.

Exemplo de Blackface em cartaz de peça de teatro de 1900.

Exemplo de Blackface em cartaz de peça de teatro de 1900.

A indústria de cinema dos Estados Unidos é a quarta maior do mundo, mas a com maior potencial de exportação. Seus filmes são consumidos na maior parte do globo. Insistir em um único modelo de representação, como já disse, é um erro que deveria ser pensado de forma mais crítica e debatido. O cinema poderia muito bem servir como instrumento de transformação e os grandes estúdios poderiam se esforçar para isso, como os diretores e produtores. Os seriados da Disney, uma produtora considerada conservadora, possuem equipes destinadas ao esforço de montar elencos diversificados e nada indica que suas séries sofram com baixa audiência por causa disso. How to get away with murder, com um elenco bem diverso é a estreia de maior sucesso entre os seriados. Se a situação mostra que os filmes de Hollywood são estrelados por atores e atrizes majoritariamente brancos, o cinema tem a perder ainda mais quando personagens de grupos que, via de regra, não possuem representação na indústria cinematográficas começarem a ser embranquecidos para supostamente agradar esse público “ideal”. Buscar mudar esse quadro deveria ser um esforço contínuo, de todos os profissionais envolvidos na indústria. Espero que seja logo. Pan, provavelmente, será um sucesso. Se uma de suas protagonistas, como sua personagem, fosse indígena, creio que agradaria ainda mais.

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