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Empurrei com a barriga o máximo que deu, mas acabei assistindo o novo Oldboy, o remake, era meio que inevitável, visto que eu sou fanático pelo primeiro filme e sua história/atuação visceral, além da brilhante direção de Chan-wook Park. E é muito disso que interfere no decorrer do remake.

O filme tem boa parte dos detalhes do primeiro e boa parte do decorrer da história é igual, mas a forma com que é dirigido e encenado, deixa a desejar; além do que as mudanças que são feitas deixam a desejar. Joe, o novo Oh Dae-su, passa, no encarceramento, 5 anos a mais do que o personagem original e mesmo assim parece que o sofrimento dele não é tanto. É como se ele tivesse passado uma semana numa colônia de férias e não 20 anos em um cubículo.

Ele não se transforma no meio bicho/meio homem que Dae-su se transforma. Ele não se deleita com as primeiras gotas de chuva que caem em sua mão na tentativa de fuga. Ele não parece querer sair dali tanto assim (tanto que volta depois e com a língua inteirinha). Ele não enlouquece com o primeiro ser que vê, saudoso do toque humano. Ele não se espanta com a primeira mulher que vê, com um tesão contido e movido a masturbação. Ele não tem o mesmo desejo de vingança.

Até aí tudo bem, eu pensei: vão dar um ar mais policial/intimista, vão fazer a coisa mais estadunidense, vão suprimir coisas para atrair mercado. Mas não. Ledo engano. Spike Lee fez uma bagunça tão grande que até mesmo as cenas bacanas ficaram meio desconexas. Quando você pensava que ele ia seguir uma linha, aparecia o Samuel L. Jackson com uma roupa espalhafatosa, ou uma japa-ninja-loka, ao melhor estilo do cinema asiático.

A mistura de cenários não encaixou, parecia ter um portal entre os dois filmes onde nada, no fim, acabou por ser original. A impressão que se tem é que ele quis fazer algo diferente, mas não conseguia se desapegar de determinados pontos do primeiro filme. Quando esses pontos eram usados faltava coragem na conclusão, ou o estúdio, provavelmente, limava os excessos. E quando não eram usados a história empobrecia.

Um exemplo de sucesso: The Departed (Os Infiltrados) e Infernal Affairs. Porque se é pra adaptar, bom, adapte também à sua cultura, até para evitar problemas com estúdio/público.

Voltando a transformação de Dae-su: Joe parece ser um ex-militar bem treinado, porque olha, nem toda programação de TV do mundo faria uma pessoa lutar tão bem daquele jeito. Lembra da visceralidade? Pois é, Dae-su bate, mas é uma briga suja, ele sua como um porco, apanha, e se machuca horrores, se desgrenha, o terno fica amassado, tudo soa mais real, mais intenso; enquanto isso Joe está com a maquiagem em dia, o terno alinhado e quase sem nenhum arranhão.

Segue: a construção da relação com a filha também é problemática e extremamente superficial, a inocência da menina está completamente perdida, e ao que parece eles só deixaram ele mais 5 anos no confinamento para evitar que ela ainda fosse menor de idade, ou nova demais para se relacionar com um “velho” (lembra da falta de coragem?). E aí se perdeu mais um detalhe: a hipnose. Como é que os dois foram guiados um para o outro? Não existe muita lógica na montagem dos acontecimentos, chegam a citar a música do celular (que faz parte da hipnose), mas fica por isso mesmo; é uma paixão que se encontra e acontece do mais absoluto nada, mas sem sentido de ser.

E mais: a interação com o vilão, interpretado no remake pelo excelente ator Shalrto Copley, fica subjugada a pouquíssimas e irrelevantes cenas, até mesmo sua morte se torna insignificante dentro de todo o contexto (perde-se aqui a personalidade aloprada do cara). A reconstrução do incesto, do vilão, do guarda-costas do vilão… Tudo é empobrecido de uma forma estranha. Ficou entre fazer algo original, ou só refilmar, deveria ter escolhido de uma vez entre um e outro, e não ter ficado em cima do muro.

Os diálogos são pobres, as cenas onde eles filosofam sobre a vida, sobre o desastre que aquilo está sendo, sobre toda a merda que uma fofoca se tornou, tudo se perde. O filme é fraco em emocionar, muitas vezes pode até ser mais violento, mas não choca como o primeiro, não te faz pensar, é só mais um filme de ação, sem significado. Sem o significado que mangá e filme original propõem. Sem sentimento.

Várias cenas interessantes se perderam, os flash backs dos fatos ficaram extremamente superficiais. Tudo ficou meio preguiçoso. E não faz a diferença como o filme que queria ser. Spike Lee reconstruiu algo de forma tão ruim, que conseguiu gerar fracas atuações de ótimos atores (o que fica ainda pior se compararmos com as atuações do filme de 2003). E muitos consideram esse filme o maior erro da carreira dele.

É pra tanto? Não. Vale ser assistido? Vale. Desde que tu não queira comparar um produto com o outro, e essa era a minha intenção aqui. No mais, é um bom filme de ação “qualquer”.

Por fim, um pensamento que resume meu sentimento acerca do remake ao ser comparado com o original: enquanto o filme de 2003 se lambuza com um polvo vivo, pulsante, em sua boca, o remake apenas observa ele no aquário, quieto, parado, insignificante.

Como nosso sistema não permite avaliação dupla, aqui vão as notas:

Oldboy 2003: 10.

Oldboy 2013: 5,7.

Abaixo os trailers. E por eles fica até parecendo que o remake é melhor.

 

 

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Sobre o Atendente

Editor chefe, administrador, fotógrafo, criativo, mediador do #FFCBoteco, cozinheiro no #FFCNaCozinha e fundador
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Militância pé na porta! “Às vezes está louco na problematização”. Cru. Somente a verdade, nada mais que a verdade. Já foi ignorante e às vezes pensa que é inteligente. Viciado em: consumir informação, alguns jogos, música e sexo. Se formou DJ e Produtor Musical pela AIMEC, não era o que a família queria. Preza por água de boa qualidade (não me venha com Crystal), bem como cerveja (não me venha com Skol). Cozinha muito bem e não come animais. Mora no Cubo Mágico, QG de operações localizado em Porto Alegre, mas é mineiro e come pão de queijo enquanto ainda tiver. Torce para o Palmeiras: “Ninguém é perfeito”. Idealizador, fundador, pica das galáxias e rei do universo. Obrigado, de nada.

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