Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
Quer ver seu nome aqui? CLIQUE e saiba como.


Fazia muito tempo que eu não ouvia falar da Nádia Lapa. Ela tinha um blog chamado “Cem Homens” que eu costumava ler há alguns anos. Depois, começou a escrever na Carta Capital, onde publicou um texto muito acessado sobre cultura do estupro, cujo espaço de comentários foi universo empírico da minha monografia de conclusão de curso. Uma das razões que me levaram a parar de acessar seus textos foi um artigo no qual ela dizia que sua família tratava a empregada doméstica negra como “parte da família” (o texto não está mais no ar, mas vocês podem acreditar em mim). Após o trecho ter sido acertadamente acusado de racista, ela negou-se a debater com ativistas do movimento feminista negro que foram problematizar o texto, dizendo a ela que aquele discurso era a própria atualização da relação servil e escravocrata que historicamente nega direitos às mulheres negras: a empregada que é “parte da família” é aquela que tem de renovar seus votos de gratidão em cada uma das suas 24h de exploração, assumida desde uma troca de favores e não de serviços, a partir da qual se renovariam direitos. Essa semana, Nádia Lapa foi novamente acusada de racismo: escreveu um texto horroroso em que critica Djamila Ribeiro por usar o termo “diva” e, depois, a acusa indiretamente de não ler mais do que dois livros desde uma crítica a um suposto “feminismo midiático”. Ler o texto até o final foi um esforço gigantesco a que eu não consegui me submeter em um primeiro momento. Eu senti muita tristeza pela evidente discriminação verborrada por Nádia à Djamila e senti uma vergonha alheia absurda do recalque da primeira frente à feliz (e crescente) popularidade da segunda.

Interessada em ler os comentários na discussão, acessei a página de Lapa e me lembrei, ao passar os olhos pelos seus posts, da outra razão que me levou a parar de lê-la: o seu comprometimento com o discurso anti-pornografia e a forma como sempre menciona suas referências clássicas como “as maiores estudiosas sobre o assunto”, sem jamais colocá-las em debate com outras estudiosas sobre o tema. Para as referências de Lapa, particularmente Macknnon e Dworkin, a pornografia é uma maneira de promoção da violência e da dominação política sobre as mulheres, um modelo explicativo e multiplicador da opressão sobre elas. Na pornografia, as mulheres seriam sempre objetificadas pelos homens – assumidos desde uma identidade única, fixa e essencialista -, de forma que a única estratégia viável frente a ela é a censura e a abolição. A frente política de Nádia não demora a surgir no texto último em que fala seus absurdos sobre Djamila: ao que retomo a leitura, noto que, ao final, ela é enfática ao também acusar feministas pró-pornografia de “midiáticas”, assumindo seus posicionamentos como contrários ao feminismo e insinuando que defendem “interesses masculinos” a um “ponto estarrecedor”.

Nádia, em seu texto sobre Djamila, não está apenas incomodada com a visibilidade das ativistas negras no feminismo. Ela está incomodada com a diferença no feminismo – aquela que coloca em cheque a mulher universal pregada pelas feministas radicais brancas, escolarizadas e de classe média que escreveram os livros que Nádia Lapa adora referenciar como “os maiores do feminismo”. Quando ela fala contra as feministas pró-pornografia, acusando-as de midiáticas, de defenderem os interesses dos homens (!), de não serem feministas (!) e defende o discurso da censura e da abolição desde uma presumida objetificação, ela não faz nada mais do que enfatizar essa mesma objetificação: por um lado, insinua que mulheres não são sujeitos ao que as apresenta como simples receptores dos desejos do homem heterossexual e cisgênero; por outro, perpetua o poder que os homens a respeito dos quais ela fala cumprem sobre a sexualidade, afastando as mulheres desse exercício. Ao fazer isso, Lapa e suas referências anulam a possibilidade de voltar a pornografia contra si mesma a fim de produzir estruturas de poder alternativas, reapropriando o dispositivo pornográfico e o transformando em um espaço de subversão e reconfiguração de gênero, como sugerem Paul Beatriz Preciado e Marie-Hélène Sam Bourcier, por exemplo, ao apropriarem-se de conceitos de Michel Foucault, Monique Witting, Teresa De Lauretis, Judith Butler, entre outros e outras, para pensar os corpos e os prezes como plataformas políticas de resistência. A tecnologia da pornografia poderia servir, então, da sua produção ao seu consumo, como um lugar de proliferação de corpos, desejos, prazeres e formas de intimidade que se recusam a atender o quadro heterocêntrico criticado pelo feminismo. O discurso anti-pornografia, por seu turno, acaba por reforçar a pornografia “tradicional”, sem confrontar as identidades naturalizadas – de homem ou de mulher – e as definições cristalizadas baseadas nas práticas – heterossexuais ou homossexuais –, mantendo, assim, a assimetria social no acesso à sexualidade. Além disso, ao pregar a abolição do material pornográfico, não coloca em discussão a regulamentação desse mercado (e de outros mercados do sexo, como a prostituição), uma demanda clara por parte de quem nele trabalha e uma necessidade para erradicar a exploração e a violência sexual relacionadas a ele.

Apesar de Nádia Lapa ter criticado o uso do termo “diva” em seu texto sob o argumento de que divas “estão acima de outras” (aparecem e brilham mais), quando se trata de falar de pornografia não parece importar dar voz às mulheres que a fazem desde as suas diferenças e dividir com elas o mesmo espaço. Para suas aclamadas referências, Dworkin e Macknnon, essa também não parece ser uma preocupação: as únicas vozes que se ouvem são as delas, afinal, abafando todas as outras. Ao criticar Djamila pelo uso do termo “diva”, Lapa também não parece comprometida a pensar o valor da representatividade para as mulheres negras, deixando de fazer esse recorte tão fundamental. “Diva”, para Lapa, é um problema gravíssimo; já falar em nome de todas as mulheres sem qualquer comprometimento com a diferença, não. Para completar, ela teme ser chamada de “academicista”. Não o será por mim, certamente: se nós fizéssemos esse tipo de pesquisa que anula seus sujeitos na academia, eu já estaria fora dela há muito tempo.

Achou nossa mensagem importante e quer que ela chegue em mais pessoas? Ajude o Fast Food Cultural a crescer, seja um financiador! Você pode contribuir com o projeto através do Patreon ou Apoia.se, acesse os links, confira nosso vídeo, nossos objetivos, leia outros textos nossos e faça parte da nossa família.

  • sara

    Djamila dá indiretas dando a entender que Nadia se incomoda com o sucesso alheio. Nadia acusa Djamila de fazer auto-promoção. Esse texto chama Nadia de racista e recalcada…

    Lola escreve um texto sim outro não difamando radicais… Cintia sugere terapia pra feministas… Cíntia é acusada de passar pano pra homem e de ser defensora do Avelar…

    e muito mais por aí

    Tá tudo muito lamentável… Muito triste tudo isso…