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Comecei a ler “O outro cão que guarda as estrelas” por acaso: eu o estava guardando para entregá-lo à Tai Hessler, uma das competentes resenhistas deste tipo de material no Fast Food Cultural. Conjuntamente com outros mangás, ele aguardava a viagem sobre a mesa da sala enquanto eu faxinava o apartamento. Eis que resolvo sentar para descansar por um instante e o folheio descompromissadamente. Uma hora depois, eu não apenas havia esquecido a faxina, como me permiti cancelar os compromissos que teria mais tarde em prol de concluir a leitura. Ao chegar na última página, com o rosto contando mais lágrimas do que poros, não senti como se o recém-conhecido Takashi Murakami fosse simplesmente o autor do mangá: a sensibilidade com que o escreveu fez com que eu me sentisse presenteada por um amigo.

Escrever esse texto foi, certamente, uma decisão arriscada: não sou uma resenhista de mangás, sequer sou uma leitora assídua, e eu nem mesmo havia lido a primeira obra. No entanto, não penso haver melhor forma de iniciar esta resenha do que falando de como ele chegou até mim e de como me atravessou sorrateiramente: “O outro cão de guarda as estrelas” é um mangá que fala de afeto, afinal.

A história de Pequeno, o outro cão abandonado:

Trata-se de uma continuação do mangá anterior do autor, “O cão que guarda as estrelas”, obra que rendeu a Murakami diversos prêmios e indicações em diferentes países. Os dois mangás foram publicados aqui no Brasil pela Editora JBC – o primeiro em 2014, o segundo este ano. Cabe enfatizar que, apesar disso, essa segunda obra pode ser lida de forma independente sem qualquer prejuízo, o que foi exatamente o meu caso.

A trama inicia contando a história do outro cãozinho que foi abandonado com Happy – o cachorro que protagoniza o primeiro mangá (o que descobri apenas mais tarde) – e que, por estar muito fraco e doente, não é desejado para adoção por quem passa por ele na rua. Finalmente, é encontrado por uma infeliz senhora que resolve usá-lo como uma desculpa para acabar com a própria vida. Trata-se de uma história que começa com a morte, mas que se desdobra em vida: Pequeno, o outro cão, recupera-se e, mesmo esforçando-se para isso, a velhinha não consegue deixá-lo e acaba tendo sua vida transformada.

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Você também não quer bater as botas sozinho, quer?

Apesar de a história começar com a relação entre o irmão de Happy e uma senhora, trata de três cachorros diferentes: ao que Murakami dá a narrativa de Pequeno um fechamento, começa a contar a história de Tetsuo, um menino que é tirado do avô pela mãe negligente. Ao que ele é deixado sozinho, faminto e em condições sanitárias deploráveis por ela mais uma vez, sai pela rua a fim de chegar à cidade interiorana onde o avô mora.

Dormindo na rua, passando fome e frio, ele conhece um homem e seu cachorro, o Happy (protagonistas do primeiro mangá), que resolvem tentar ajudá-lo. Apesar disso, ele foge. Ao mesmo tempo, um pug enfrenta dificuldades em ser adotado em uma petshop. Tetsuo, então, o rouba da loja para que todos pensem que ele está apenas passeando com seu cão e ele enfrente menos dificuldades furtando alimentos em mercados. Ao finalmente encontrar seu avô, o pug recebe o nome de Happy em homenagem àqueles que o ajudaram. Há, então, um elaborado encontro entre as três narrativas evocadas no mangá.

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Um mangá sobre pessoas:

“O outro cão que guarda as estrelas”, bem como a obra que o procede, é frequentemente anunciada como uma história sobre cachorros. É notável, por exemplo, a preocupação de Murakami em transcrever os pensamentos dos cães, construindo a trama desde o ponto de vista deles em uma narrativa emocionante e reflexiva. No entanto, mais do que informar sobre eles, Murakami informa sobre as pessoas.

Tanto Pequeno quanto o pug Happy são escolhidos por indivíduos que desejam usá-los: a infeliz idosa quer ajuda para encontrar a morte; a pobre criança quer uma desculpa para vagar despretensiosamente pela rua. As reações dos cães denunciam uma verdadeira banalização da malícia e da truculência humanas: Pequeno é incapaz de reconhecer o desejo de que esteja morto o quanto antes e a tentativa de abandono vindos da martirizante senhora, e as migalhas dadas por ela são percebidas por ele como grandiosos gestos de esforço e de carinho. A pobreza e o desamparo de Tetsuo, por sua vez, não ganham espaço frente à excitação e a alegria de Happy ao finalmente ser escolhido por alguém após tantos meses sendo ignorado na loja. Para além de informar que os cachorros, na ânsia de amar, são levados a uma ingenuidade digna de pena por quem lê a obra de Murakami, o que a história descortina é a normalidade com que percebemos a perversidade – como aquela que está ali a priori e que apenas um tolo (ou um cachorro) não é capaz de notar – e o espanto e a negação que dedicamos ao afeto – como condição relegada à constante suspeita e dor. Pequeno e Happy não nos falam sobre como são capazes de abrir seus próprios corações, eles nos falam sobre como nós não abrimos os nossos e como seremos melhores se o fizermos.

Ler “O outro cão que guarda as estrelas”, para além de fazer desejar adotar um cachorro, como pode parecer, faz com nos permitamos amar antes de desconfiar e desistir. Trata-se de um mangá que nos joga para as relações que temos uns com os outros: o afeto – o que permite que nós nos afetemos e que nos deixemos afetar – pode nos salvar das mazelas que sempre julgamos ter de enfrentar na solidão.

Na prateleira:

Além de contar com uma história apresentada em roteiro bem construído, com partes que se encontram para o compartilhamento de um sentido comum, a publicação da JBC de “O outro cão que guarda as estrelas” é bonita: não conta com páginas coloridas, mas a capa é dura e apresenta orelhas em um volume tão bem feito como a obra que o procede. O traço simples de Murakami pode ser estranho a alguns olhos, mas dialoga bem com a proposta do mangá e faz com que o leitor se volte aos detalhes dos cenários e contextos, importantes ao trajeto da sensibilidade que busca cumprir. Certamente, uma obra para ler e, também, para olhar.

Sobremesa: O Cão Que Guarda as Estrelas: prepare seus lencinhos

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O Outro Cão Que Guarda as Estrelas: um mangá sobre a gente
Publicação:9
Conteúdo:10
PRÓS:
  • É possível ler a segunda obra da série independentemente;
  • Narrativa emocionante e reflexiva;
  • Volume muito bem feito.
CONTRAS:
  • Vai deixar sua cara inchada de tanto chorar;
  • Não há páginas coloridas, apesar da publicação ser, em geral, bonita.
9.5Nota
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