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Era uma linda tarde dourada de 2005. Eu desaparecia deitado na vegetação alta e macia do Richmond Park, que me lembrava campos medievais. Me lembrava, também, Orlando, de Virgínia Woolf. Imaginei ela escrevendo aquele manuscrito embaixo de uma árvore há alguns metros de distância de onde eu estava. Ela rasurava um parágrafo inteiro com seus cabelos presos na altura da nuca, olhava os cervídeos e reescrevia o mesmo parágrafo coçando a cabeça. Eu deitava ao lado de minha bike, e olhava para o céu marfínico de Londres e via os aviões minúsculos como moscas. Imaginei a mim mesmo visto de cima naquela vegetação dourada. Mergulhado nas escuras águas abissais de minha consciência confusa como uma página em um livro de Neil Gaiman. Lembrei do medo que senti quando abandonei tudo em 2004 e fui embora de São Leopoldo com meu peito aliviado. Eu nunca fui para Londres. Na verdade, eu senti que sempre estive lá… Como se minha essência vivesse separada de meu corpo, como se estes ossos errantes e moribundos estivessem simplesmente obedecendo algum comando hipnótico para encontrar sua alma. Londres foi uma droga que eu abusei até a overdose e despertei contra minha vontade. E agora, anos depois, percebo repentinamente que aquele caótico Night Bus N° 8 nunca mais me levaria pra East London repleto de bêbados felizes passando por Roman Road onde eu comprava chocolate naquela feira.

Eu tinha um intervalo de duas horas quando trabalhava de Salad Chef no restaurante espanhol. Então eu pegava minha bike e explodia pelas avenidas de Sheperds Bush pedalando com as minhas calças quadriculadas de chef e meus fones de ouvido. Quando eu chegava na ponte de Hammersmith, eu pegava uma trilha de areia deserta passando por baixo da ponte que seguia pelo Rio Tâmisa e acelerava derrapando pelas margens tortuosas. Desaparecia. Claro que eu escutava Killing Moon, me sentia meio Donnie Darko. Lembrava de quando eu sentava na sala de minha mãe contabilizando minhas economias em Pouds em um caderno rabiscado de ensaios e rascunhos de contos de horror enquanto furava os cds Californication e Audioslave do início ao fim. E me imaginava dia e noite me perdendo pelas ruas daquela cidade. Como uma obsessão. A realidade superava minhas fantasias porque Londres também me amou com todas as suas forças e me acolheu como um filho legítimo. Ela me revelou jardins secretos escondidos em ruas sem saída e horizontes de folhas secas no outono. Minha alma fervia em Camdem Town. Meus pulmões inalavam Fuhlam… Previsível… Eu nem sabia andar e meu pai deixava Pink Floyd explodir meus ouvidos com aquelas enormes caixas de som na sala. Certa vez ele estourou o encosto da poltrona no final de Starway to Heaven. Mania de ex-baterista, bater nas coisas. Mas tudo começou assim… Depois veio o fel. As sombras. Um belo dia, em Pimlico, no apartamento de um amigo brasileiro em Londres, liguei pro meu pai estarrecido na sacada e disse: “Sabe aquelas chaminés da capa do Animals, do Pink Floyd? Estou olhando para elas…”

Então eu deslizava pela trilha do Tâmisa escapando de Hammersmith rumo a Richmond. Quando chegava num clube de regatas eu desviava do Tâmisa e passava por uns cemitérios com lápides cobertas de relva. Aquelas lápides escondidas naquele bosque me chamavam e sorriam. Depois eu passava por um clube de golfe. Devia ser em Hampton… Era uma boa pedalada, e então… Oh yeah, estamos em Richmond, baby… Bicicleta em Londres foi uma das experiências mais sensacionais que tive porque praticamente não existe rua sem ciclovia. Era uma sensação de liberdade. De não ter medo do amanhã. Cada dia que eu acordava pela manhã durante aquela meia década, era um sonho realizado de estar conectado à minha própria alma. Até porque eu nunca sonhei com merdas de diplomas, com concursos públicos ou viver em indústrias. Visitava museus até querer vomitar e caminhava sem rumo descobrindo ruas com presentes inesperados do tipo “nesta casa viveu Jimmy Hendrix” ou “naquela William Blake”. Não demorou para que eu desse informações na rua para britânicos perdidos. Sim, eu mesmo, o coloninho de São Leopoldo. Repentinamente o ônibus 19 já não me divertia tanto, era minha rota diária para o trabalho. Picadilly e pontos turísticos estavam no caminho de casa e turistas já me aborreciam um pouco. Eu já não falava nem pensava em português por muito tempo. Todos meus amigos brasileiros já haviam voltado e eu morava em Chelsea. Compreendi que nunca mais me readaptaria. Foram muitas mudanças…. Mile End, Bethnal Green, Sheperds Bush, Chelsea. Morando em Chelsea, só me restavam caminhadas maravilhosas em uma ensolarada King’s Road.

– Thiago, você não vai viajar pela Europa? Está aqui há tanto tempo e só passeia pela Inglaterra…

– Já estou viajando… Estou legal aqui, tem tudo o que eu preciso.

Uma bela vez conheci um menino gaúcho lavando pratos em um restaurante que eu trabalhei. Começamos a conversar. Ele me perguntou:

– Você também é gaúcho?

– Sim, sou de São Léo, e você?

– Sou de Porto… Como é teu nome?

– Thiago. E tu?

– Sou o Leandro… Escuta, como você fez pra arranjar este trampo?

– Aprendi a função que me foi designada e aprendi a língua bem rápido…

– Mas fora isso não tem nenhuma “manha”?

– A “manha” é que não tem manha…

– Bah, tô aqui faz três meses e não aguento mais… Tá foda. Tu fez curso de inglês?

– Na verdade eu aprendi com a rotina. Nunca fiz curso de Inglês. Estudei sozinho.

– O que tu fazia no Brasil?

– Trabalhava em dois empregos, mas mesmo assim não conseguia pagar minha faculdade. Um dia eu estava voltando cansado do trabalho e fui atacado pela polícia. Aquilo era normal. Mas aquele dia eu estava realmente exausto de tudo. Eles me falaram tanta besteira racista que eu cheguei em casa e comecei meu plano de largar tudo e viajar. Basicamente, eu estava cansado de viver em um lugar doente… Precisava saber que existiam lugares diferentes.

– Bah, que foda… tu te formou?

– Não, ia demorar uns trinta anos. Foi mais barato vir morar na Europa. Viver algo diferente. E tu… O que tu fazia lá?

– Eu só estudava…

– Bah, legal. Mas não trabalhava nem nada?

– Não, me formei ano passado.

– Em que?

– Engenharia.

– Legal… Cara, qualquer coisa que tu precisar, tu me dá um toque.

Ele nunca mais apareceu no restaurante. Perguntei por ele depois, me disseram que ele tinha voltado para o Brasil. Então pensei em todo aquele pessoal que vai “morar na Europa” e volta falando mal, que é ilusão, que tu é tratado com desprezo, que o europeu é frio e blá, blá, blá… Mas a grande verdade é que eu imaginava que o tal Leandro podia ser filho de empresário que estudava de graça na Federal porque a Federal foi feita pra quem não trabalha, nunca trabalhou na vida e se formou tomando porre e fazendo racha com o carro que o pai deu pra ele. Daí ele já começou trabalhando na área dele ou na empresa do pai dele ou do tio dele onde já tem um cargo de chefia garantido. Também ia ganhar um apartamento de presente por se formar, o carro certamente já havia ganho de presente quando passou no vestibular. Leandro ia voltar pro Brasil reclamando da vida na Europa. Viraria um grande meritocrata nas redes sociais, seria contra cotas para negros e contra assistencialismos. Seria um grande “capitalista”… Um herdeiro da oligarquia. Eu, por meu turno, já trabalhava em uma lancheria fritando xis aos 16 anos para comprar as minhas coisas enquanto cursava eletromecânica. Juntei grana por um ano e meio para comprar meu fuscão turbinado de motor cromado antes dos 25. O doce sabor das próprias conquistas. Então eu compreendi o que estava implícito naquela pergunta do Leandro… “Mas fora isso não tem nenhuma manha?”. Tipo… NÃO! A “manha” é falar a merda da língua e trabalhar. Não estávamos em Júpiter. Só no Reino Unido, onde tu precisa se virar sozinho. Não tem essa de “tu sabe com que tu está falando?” ou “sou filho do fulano”. Ninguém dá a mínima. Ninguém se importa se você é filho do desembargador. Falou errado vai ficar lavando pratos. Deus, eu amei Londres. E Londres, bem… Ela também me amou.

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