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Recebi Notas de um tempo silenciado em meio a um turbilhão de mudanças aqui no Fast Food Cultural, e embora tenha ficado impressionado com o trabalho de ilustração de Robson Vilalba, que também é o roteirista, demorei tempo demais para ler a excelente publicação da Editora BesouroBox, aqui de Porto Alegre, que me fora encaminhado pela Danielle Reichelt (que participa do projeto gráfico, editoração e revisão). O tempo que demorei não foi perdido, de forma nenhuma, mas me arrependo de não ter dado atenção antes a uma das melhores HQs que já li. E não que eu seja um exemplo de leitor (de livros/HQs), não sou, e a verdade é que tenho problemas com isso. Um desses problemas advém da dificuldade de me interessar e ser preso por um conteúdo (déficit de atenção?), mas em Notas de um Tempo Silenciado não passei por isso nem por um segundo.

O conteúdo:

O traço de Vilalba completa com primazia as histórias narradas por ele, e logicamente seu desenho foi a primeira coisa que saltou aos olhos quando abri a HQ. De cara me lembrei de um dos poucos trabalhos que consumo com voracidade, a HQ de The Walking Dead, com personagens desenhados por Tony Moore e ilustração de Charlie Adlard (do número 6 em diante), a revistinha é a mais vendida do mundo número após número, e Notas tem tanta qualidade quanto (sem exagero). Consigo vislumbrar um trabalho desenvolvido por Vilalba com essa extensão, talvez até mesmo em cima do próprio Golpe de 64, e eu certamente compraria.

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E compraria não só por causa do trabalho inquestionável de ilustração, mas também porque fiquei imerso em histórias tão palpáveis que sentia como se estivesse lá. Isso, talvez, porque diversas dessas situações remetam a atrocidades ocorridas ainda nos dias de hoje: são comunidades indígenas sendo destruídas para construção de uma hidrelétrica monumentalPMs que são presos por estuprar uma grávida; estudantes e professores sendo violentamente reprimidos pelo Estado; negros vivendo a margem da sociedade e sendo torturados e mortos em UPPs da “vida”; a religião influenciando num Estado que deveria ser laico e lançando mão de movimentos extremamente preconceituosos como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade; pedidos de intervenção militar; etc. Tudo isso décadas atrás, mas também hoje.

Notas, de fato, fez parecer que eu estava lá, que aquilo não havia acabado, e isso é triste. Logicamente eu não me coloco nem de longe perto dos torturados e/ou mortos da ditadura, nem perto dos estudantes, jornalistas, artistas e guerrilheiros que tentaram a todo custo defender a democracia e a liberdade. Mas parece que não saímos daquele ponto, parece que ainda vivemos aquilo, todavia numa versão menos escancarada, que mata na surdina os pobres nos morros, segrega, e faz outras tantas coisas que nunca ficamos sabendo. A ditadura não mais circula no meio da rua pro branco da elite ver, e até hoje tem direito a julgamento especial em estados como o Rio Grande do Sul, que votou por não extinguir o Tribunal de Justiça Militar (aberração que existe também em MG e SP, ou seja: as três incubadoras do Golpe). E será que saímos mesmo dela? Será que aqueles que pedem uma intervenção militar não enxergam que ela está entranhada no Brasil e que só não atinge suas privilegiadas vidas (assim como outrora)?

Vilalba também abre os olhos dos que enxergam a luta contra a ditadura composta apenas por brancos intelectuais da elite andando de braços dados e cantando Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. A ditadura matou negros e índios em toneladas. Heróis também, que tiveram seus corpos carregados e expostos em cordas amarradas em helicópteros militares, ou nunca mais foram vistos, atirados em valas, enterrados como indigentes, sem O que é isso companheiro? pra contar história. Matérias atrás de matérias reclamam até duas centenas de corpos não encontrados, mas que corpos são esses? Pois os índios desapareceram aos milhares. As minorias invisibilizadas diariamente são ignoradas até mesmo na parte trágica de nossa história.

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O conteúdo: 100pontos

A publicação:

Ao abrir a HQ me deparei com o contraste entre uma moderna capa e a classe da ilustração preta sobre papel offset, e de início eu pensei que ou a parte interna devesse seguir a linha da capa, ou a capa devesse seguir o estilo da parte interna. Todavia, no decorrer da leitura, realizei que a BesouroBox não poderia ter feito melhor, pois Notas, infelizmente, é uma história atemporal, onde muitos dos eventos trágicos ocorridos décadas atrás estão presentes no nosso dia a dia, sendo assim, o clássico offset casa muito bem com a contemporânea capa desenvolvida por Marco Cena.

Definitivamente não tenho quase nenhuma ressalva quanto ao material, e encontrar elas em meio aos tantos elogios que gostaria de expressar aqui foi difícil (o trabalho é realmente digno de babação de ovo), de qualquer forma, se era pra achar defeito, encontrei um errinho na grafia do nome de Frank Miller lá pelas páginas finais. Coisa de nerd escroto que busca por perfeição demais. Agora o que eu poderia apontar de mais significativo, e que talvez possa ser um problema para muitos, é a disposição dos balões de diálogos. Embora Vilalba justifique nas suas inspirações o estilo da (falta de) linearidade, em algumas partes ficou bem complicado compreender pra onde ir em meio a tanta informação. São passagens pontuais que, de qualquer forma, não prejudicam o produto final, não pra mim, mas podem influenciar na experiência de algumas pessoas que possivelmente precisem muito mais do que eu acessar as ricas informações de Notas.

Ao final, a HQ traz o Revelando Notas para o leitor saber no que se baseou o escritor, apresentando pessoas envolvidas, seus relatos, fotografias de onde alguns quadrinhos foram tirados, deixando mais claro que o que acabamos de vivenciar nas 82 primeiras páginas não era ficção.

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A publicação: 100pontos

Considerações finais:

Notas de um tempo silenciado abre uma caixa de Pandora desagradável, mas absurdamente essencial, colocando ao alcance de todos, num formato muito mais acessível e atrativo (para jovens principalmente), uma história do Brasil que incomoda. História que convive conosco diariamente ao nomear nossas ruas, nossas escolas, recebendo datas comemorativas e estátuas, tudo isso em homenagens a nomes que foram responsáveis por milhares de mortes num suposto ato de heroísmo que evitou um comunismo que nunca existiu. O mínimo sinal de regressão a essa época é assustador. Notas é mais um material para lembrar que, num país que se diz democrático, atitudes como a dos atletas no Pan-Americano de Toronto 2015, prestando continência a bandeira, é uma afronta a quem foi um dia mutilado por um período para ser esquecido (ou eternamente lembrado?). Uma excelente aula de história em formato de quadrinhos que você pode adquirir AQUI. E não deixe de dar a sua nota no sistema abaixo caso já tenha lido.

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Notas de um tempo silenciado: a crueldade da ditadura ao alcance de todos e todas
Conteúdo:10
Publicação:10
PRÓS:
  • Conteúdo rico;
  • Ilustração fantástica;
  • Material atrativo e diferenciado.
CONTRAS:
  • Posicionamento de alguns balões.
10Nota
Nota do Leitor: (3 Votes)
10.0