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Os coiotes, como animais sorrateiros e astutos que são, tomaram tudo o que tinha. A travessia foi longa, cansativa e perigosa, mas acreditava que a venda da casa para pagá-los era um acerto. Chamava-se Moïse, como chamavam, no Haiti de onde vinha, aquele que guiou os hebreus para fora do Egito. E assim como o velho de barbas brancas e pedras a tiracolo, esperava chegar a uma terra prometida que nunca veria. O último devido a sua própria ira; o primeiro, por não saber que o tinham vendido uma fantasia nada apropriada ao tom épico e instigante dos filmes que talvez tenha visto uma vez, mas sim cínica e cinza.

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Atribui-se, sobretudo aos intelectuais do século XIX, a criação e fundação do Brasil enquanto ideia e nação. Eles teriam lançando mão de narrativas e da História, elegante e maiúscula, para a criação do caráter e a forja de sua identidade. O triunfo europeu, a vinda dos africanos e a convivência com os indígenas foram signos manuseados pelos escritores desse período e que repercutem até os dias de hoje. Se costurou assim, por meio de palavras, uma nação que substituiu quase que completamente sua população original por estrangeiros. Uns vindos por senso de aventura ou negócio — os europeus no mais alto degrau na escadaria social — ou pela força dos grilhões — os africanos que aqui chegaram como mercadoria.

A linearidade dessa narrativa repercute e desagua nos dias de hoje. Sobretudo na internet, vemos como essas ideias proferidas há mais de 150 anos ainda têm força e vida e interferem no cotidiano de incontáveis pessoas em nosso país. A trajetória de Moïse pode ser tão irreal quanto próxima da de diversos sujeitos que arriscaram tudo para chegar ao Brasil. Está, no entanto, em melhores condições do que aqueles que aqui chegaram sem outra alternativa que o leilão de si, feito pelo peso das correntes que arrastariam ainda por muito tempo.

A partir do contato com essas narrativas oriundas do século XIX, criamos no nosso cotidiano uma mitologia nacional. Uma história — dessa vez sem letra maiúscula, como querem os acadêmicos — que não consegue respaldo na realidade direta em que nos movemos todos os dias. A escolha de certos grupos como “mais relevantes” para a trajetória de nosso país tem efeitos em diversas áreas. Essa forma de narrar o fluxo daqueles que compõem a história no Brasil continuou a ser reformulada e chega até os dias de hoje por meio de produções das mais diversas que não conseguem compreender a diversidade presente na nossa população. O resultado disso vemos, principalmente, na recente leva de imigração: ao chegar em nossas terras, muitos descobriram, especialmente quando próximo das nossas fronteiras ao sul, que a mitologia é bem frágil e a realidade um tanto mais afiada: os gritos de “saiam daqui! ” tornam-se ensurdecedores, principalmente quando replicados por grandes meios de comunicação.

No caldeirão de narrativas que se engalfinham e entornam em nosso cotidiano, a da boa convivência entre os que aqui chegaram, os que estavam e os que foram trazidos é uma das mais potentes. Embora o horror da escravidão tenha transpassado três séculos — quase quatro — de nossa história, ele é deixado de lado. Um sussurro convidativo nos diz para “deixar para lá”. Essas questões surgem em muitos momentos quando percebemos os conflitos que se deflagram no cotidiano. Um deles, por exemplo, em decorrência do calendário: vinte de novembro ou treze de maio? A quem serve cada dia? As lutas são várias e surgem em muitos pontos. É necessário subverter a mitologia, criar uma nova narrativa. Uma princesa salvadora ou uma comunidade gerida por seus iguais? Nesses conflitos percebemos como o poder da narrativa é importante para pensar a si mesmo, o seu grupo e até o país.

Se tenta até hoje, como o Moisés de barbas brancas do imaginário religioso, entalhar em pedra o conto da boa convivência. Mas não notamos que essa pedra é frágil e que não resistirá sempre aos golpes de picareta. O mantra que repetem, que não há problema nenhum nas relações raciais no Brasil, consegue ter força. No entanto, podemos nos perguntar sempre que assuntos delicados são postos à tona, sejam as cotas, a desigualdade, o número de mortes, etc.: essa ladainha quase religiosa pode dar conta da realidade conflituosa?

Está mais fácil acreditar no curupira ou no boitatá, de que no repetido “não há racismo no Brasil”. Essa mitologia é facilmente confrontada com os comentários na internet, mesas de bares, paradas de ônibus sobre a trajetória dos haitianos que chegam aqui. Somos um país fruto da imigração, consentida ou forçada. Substituímos nossa população original quase por completo. Ao longo do tempo, elencamos como personagens principais da história do nosso país os europeus e seus descendentes. Com essa ideia em mente, continuamos a repetir que não há desigualdade no tratamento das pessoas quanto a cor e a vociferar contra imigrantes de pele escura.

Aceitei o convite para tocar essa coluna e abordar aqui temas ligados às questões de cor. Tema que considero de suma importância e urgente debate. Enquanto alguns desdenham ou negam que sequer esse tipo de questão exista, temos cada vez mais casos em que a realidade rasga essa mitologia da boa convivência e se faz ver nua. Procuremos discutir, mostrar que embora essa mitologia seja sedutora, outras narrativas não podem ser ignoradas. Entre outros produtos, de soja a jogadores de futebol, vendemos para o exterior essa mitologia da pacificidade e boa convivência, do paraíso idílico da aceitação e diversidade. É, portanto, necessário deixar em evidência que, como o café que exportamos, nosso Brasil é preto. E ver isso não é fácil, reconhecer que mitos precisam ser derrubados também não. Mas é, acredito, o que precisamos.

Moïse não existe para além dessas linhas. Mas também existe em diversos imigrantes que chegaram e chegam aqui. Infelizmente, embora personagem dessa coluna, sua narrativa não é mitológica, ao contrário da imagem que lhe venderam de nossas terras.

Perceber isso e lutar para mudar é o que queremos. Mas vamos lá, toma um café quente e forte. Precisaremos de energia.

(Foto: Reprodução/Yuri Marcel/G1)

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