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Maus é um relato pessoal e verdadeiro contado através de quadrinhos com interpretações simbólicas sugestivas, e ao mesmo tempo que é tão real se parece exatamente com um conto infantil, onde os personagens apesar de viverem questões pontualmente humanas, e preservarem seus nomes reais, são representados como pequenos animais. Lançando mão de um antropomorfismo elaborado na mesma estética das propagandas nazistas, Spielgeman representa os judeus como ratos, buscando senão reverter ao menos distorcer o intuito de colocar os judeus como ratos (maus em alemão) uma praga, algo a ser exterminado sendo assim os alemães são os gatos, os poloneses são porcos e os estadunidenses aparecem como cachorros, e são estas personificações que transformam a mesma história, que não soaria nada muito diferente de tantas outras sobre o holocausto, em algo completamente novo e imperdível.

Art Spiegelman é ilustrador, cartunista e autor de histórias em quadrinhos, trabalhou para a The New Yorker como editor e também produzindo charges e capas, expôs no Museu de Arte Moderna de Nova York e recebeu o prêmio Pulitzer em 1992 pela mesma obra, Maus. Spielgeman nasceu na Suécia em 1950, seus pais foram sobreviventes de Auschwitz e refugiados, e é através de conversas com seu pai, Vladek Spiegelman, nos meados dos anos 80, que Art vai registrando e reconstituindo todo testemunho do pai, desde a vida antes do começo da guerra, quando seus pais se conheceram e casaram, os primeiros indícios da expansão do nazismo na Polônia, dos reflexos da evolução do antissemitismo as consequências diretas da guerra na história de sua família.

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É claro que existem lugares comuns dentro das narrativas do holocausto, mas é sobretudo na forma que reside a diferença desta obra, enquanto expõe e analisa quem seu pai é, e o quanto lhe custa visitá-lo, Spielgeman nos mantém conectados com a realidade nem sempre simples de quem não passou por uma guerra mas parece ligado a ela para sempre. Entre a culpa de não precisar viver nada parecido com o que o pai viveu, e uma vontade pungente de conseguir expressar quem os pais foram em sua vida, ele vai construindo quadrinhos cada vez mais sombrios e complexos, ao mesmo tempo quase modestos mas plenos de uma realidade nua, a qual nos faz viajar de uma percepção a outra: estória e história.

Não é mais um simples relato do sofrimento dos judeus durante o apogeu nazista, vai além, segue pelos percalços culturais que separam as línguas, as linguagens e também as interpretações temporais de um mesmo fato histórico. Repleto de situações objetivas e pra lá de reais contadas de uma forma simples e direta, Maus se sobressai de maneira inigualável aos demais livros com o mesmo tema. Por ser real, intimista, e ao mesmo tempo magistralmente elaborado com tanta espontaneidade que beira ao duvidoso.

Podemos encontrar ecos da atualidade nas palavras de Adolf Hitler: “Sem dúvida, os judeus são uma raça, mas não são humanos”. Vivemos em um período no qual as minorias estão expostas a toda sorte de violências, não falamos de antissemitismo, mas com certeza podemos falar em intolerância, em discriminação racial e de gênero, em abuso de poder, em nuances de fascismo. Em como supostamente as minorias deveriam estar protegidas e gozando de um status de igualdade e liberdade, como podemos ter os dois pés no novo século e a cabeça extraviada desde a década de 30, nos primórdios de uma intolerância tão latente que foi capaz de desencadear uma guerra sem igual.

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E é através dessa perspectiva que Maus vai além, trata-se de uma forma de expressão e registro altamente funcional sobre a capacidade de perpetrar o mal apenas por julgar-se superior a uma determinada cultura ou modo de vida. Em uma realidade na qual alguns humanos se conseguem acreditar mais humanos que outros humanos, na qual a crueldade contra os animais e os direitos humanos permanece fora do nosso alcance social, mas firmemente nas mãos das estruturas de poder, sejam elas religiosas, econômicas ou de crença. Ainda vivemos num mundo brutal, capaz de sobrepujar de forma inumana os mais desprovidos de poder, quem pode dizer o quanto de intolerância é necessária ou tolerável até existirem novamente guetos, campos de concentração e assassinatos justificados?

Gostaria de encerrar essa resenha crítica agradecendo ao meu sobrinho, Theo, por ter não só me emprestado o livro, como me dado a oportunidade de conhecer este trabalho fabuloso. Assim como uma criança de 9 anos foi capaz de escolher esta leitura e realmente gostar dela, todos os pais deveriam acreditar o quanto é necessário que aqueles que agora começam a desbravar a vida tenham conhecimento não só histórico sobre a Segunda Guerra Mundial, mas antes um conhecimento social da realidade política e humana.

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Maus: uma graphic novel clássica e destruidora
Quantos picolés de paçoca vale essa graphic novel?
Conteúdo:10
Publicação:10
PRÓS:
  • Excelente qualidade do material gráfico;
  • Preço bacana (em torno de R$ 29,90);
  • Linguagem simples de fácil acesso para crianças.
CONTRAS:
  • Nada a declarar.
10Nota
Nota do Leitor: (2 Votes)
10.0