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A esta altura do campeonato, todos vocês devem saber que Porto Alegre presenciou um surto de mulheres flagradas nuas em espaços públicos. Em onze dias, três foram vistas correndo pela cidade: uma delas no Parcão, outra na Terceira Perimetral e a terceira na Rua General Auto. Assumo que apenas me dediquei ao assunto quando me enviaram, via Facebook, o vídeo da mulher que protagonizou o segundo episódio: no caminho que percorria sem roupas e calçados, ela foi entrevistada por um repórter que a bombardeava com perguntas. Antes de abrir o vídeo, vi muitas pessoas discutindo o que poderia haver por trás das ocorrências: a maioria falava em doenças mentais; alguns acusavam uso de drogas. “Ela não diz coisa com coisa!”, um amigo meu me disse no inbox. Nas páginas de notícias online, o palpite era o mesmo: “ela não dizia frases coesas”, “há suspeita de problemas de saúde”.

Que coisa curiosa: abri o vídeo, ouvi o que a mulher dizia e discordei de todos cujas opiniões eu havia lido por aí – e sem forçar a barra, garanto. Primeiro, o cara que a filmava perguntou por que ela estava pelada: ela disse que não estava pelada, que ela estava natural. Argumentou: “o que não é natural é a gente não ter saúde. O que não é natural é uma atleta se tornar prostituta pra sobreviver. O que não é natural é uma prostituta que devia ser rica virar sem-teto.” Ela ainda disse: “Eu era lutadora. No MMA, eu tinha oportunidade de revidar, porque eu estou preparada para estar lá. Eu sei o que vai vir pela frente. Agora, eu não tenho a mínima condição de contar com o meu governo.” Ao final do vídeo, ela completou: “Eu acho normal sair sem roupa porque eu sou saudável, sou bonita. Se eu saísse na Sexy, na Playboy…” e, então, o site G1, onde vi o vídeo na ocasião, interrompe a fala.

Devo dizer que foi impossível reconhecer a tal falta de coesão apontada pela quase totalidade das pessoas que eu conheço: ela disse que estava natural, que o que não é natural é uma atleta ter de se prostituir e, ainda assim, não ter uma casa. Reclamou do governo pela falta de oportunidades no seu campo. No final, pareceu que ia questionar o que aconteceria se estivesse nua em uma revista. O protesto me pareceu claro para qualquer indivíduo com a mínima boa vontade de ouvir o que o outro tem a dizer. Meu palpite é que a acusação instantânea de problemas mentais ou uso de drogas denuncia, violentamente, a forma problemática com que o corpo nu feminino é tratado pela sociedade.

Agora, vou contar pra vocês o que a lutadora de MMA disse por último e que eu não pude assistir no site G1: “Se eu saísse na Sexy, na Playboy ou se estivesse dançando em um clube, iam pagar para ver. Mas por que é de graça e no meio da rua é feio? O esporte fez o meu corpo e salvou minha vida.” Touché.

Eis, então, as circunstâncias únicas nas quais o nu feminino público é permitido: quando ele existe para o consumo e satisfação do desejo sexual masculino heterossexual. Para quaisquer outros fins, a imagem da mulher pelada torna-se simplesmente ilegítima. Essa mesma racionalidade é reconhecível quando se trata de imagens e vídeos íntimos de mulheres vazados na Internet: se foram produzidos por elas para elas mesmas ou para parceiros ou parceiras de sua própria escolha, esqueça. Não pode. A mulher nua deve se esconder, pois, se assim não o fizer, é mulher louca – caminhando ou correndo em via pública – ou mulher imbecil – se filmando ou tirando fotos em atividade sexual. Enfim, uma doente que não bate bem da cabeça.

É flagrante a emboscada social em que a mulher se encontra em termos da liberdade sobre o próprio corpo: parece que, se ela subverte as convenções para o gênero feminino através de comportamentos que, de alguma forma, se assemelham àqueles estimulados nos homens – como se apresentar em público sem vergonha ou viver sua sexualidade expansivamente (enfim, fazer uso de seu corpo com autonomia) – se torna uma mulher que, de alguma forma, pertence a todos: uma mulher que está para ser subjugada, desprezada e dominada – no limite, chamada de doente e excluída via internação. Os eventos de nudez pública em Porto Alegre denunciam as dificuldades que as mulheres enfrentam ao que fazem com os seus corpos o que bem entendem: enquanto o outro não se reconhece em suas razões para se perceber servido, a nudez é condenada.

A questão de gênero que aponto para analisar os eventos de nudez pública em Porto Alegre se torna ainda mais evidente quando, alguns dias depois do último episódio envolvendo mulheres, um homem fica nu na Terceira Perimetral: as páginas de notícias online, neste caso, chamam a ação de protesto; e o próprio protestante faz questão de informar que não tem nada a ver com as mulheres peladas dos dias anteriores. Ele está fazendo política; elas, loucura. Ele voltou para casa; elas, foram levadas pela polícia para serem submetidas à avaliação psicológica.

Me intriga a enorme lacuna entre o tratamento dado às mulheres que andavam nuas em espaços públicos e o tratamento dado a um homem fazendo o mesmo. Houve um curioso silêncio com relação à questão de gênero em jogo. Falta otimismo para acreditar que Porto Alegre vá se tornar uma “capital naturalista”, como alguns amigos meus sugeriram sonhadores. O que vi, nessas últimas semanas, foi machismo escancarado em muita cagação de regra sobre como se deve protestar, o que se pode fazer com o próprio corpo ou onde se deve encontrar alívio no sofrimento.

Sobremesa: 50 Tons de Cinza: no livro ou no filme o tom será o mesmo

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