Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
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O texto abaixo contém imagens que podem ofender a “família tradicional” (brasileira e estrangeira), não prossiga se esse é o teu caso. Elas podem vir a ser consideradas +18 por pessoas sensíveis também, então: NÃO PROSSIGA. Obrigadinho!

GOSTOSO (adj.); de sabor agradável; saboroso. que ocasiona ou provoca prazer; fig.: que expressa sensualidade; sexualmente atraente.

 

Os debates sobre afeto e relações têm jogado na fuça de algumas pessoas o fato de os gostos serem fruto de uma construção social; porém muitas vezes se negligencia nestas mesmas discussões o que são as coisas que constroem este gosto. Um desses pilares, senhoras e senhores, é a pornografia.

O que vou colocar em questão aqui não é nem o fato de o pornô existir – embora haja um projeto de lei (PL n. 6.449/2016, de autoria do Exmo. Sr. Marcelo Aguiar, DEM-SP) tramitando na Câmara dos Deputados que prevê a retirada de todo esse conteúdo da internet brasileira, já que aparentemente o país está em crise pelo fato das pessoas se masturbarem em vez de trabalhar. O que proponho é pautar como esse tipo de conteúdo influencia as relações sexuais e amorosas através das implicações sociais que carregam.

O fato de eu ser um viado que fala de dentro de um corpo negro é um fator importante. Determinante até, eu diria, neste caso.

Basta digitar gay negro (ou black gay) na barra de pesquisas do Google ou qualquer outro site de buscas presente na deusa Internet e ver o que acontece; tentar contar mais que cinco fotos onde não haja homens sem camisa, de braços fortes e/ou pênis enormes (caso seu filtro de pesquisa esteja desativado) é uma tarefa bem complicada, quase hercúlea.

Não que seja errado admirar corpos negros. Longe de mim afirmar isso, até porque a gente é gostoso mesmo(!), ainda que o padrão eurocêntrico e caucasiano imposto pelo racismo que estrutura a sociedade tente depreciar e inferiorizar nossa estética. Os negros de tez mais escura e traços mais grossos são os que mais sentem na pele esse ponto (mas falar sobre estética fica pra depois). O errado neste construto é reduzir nossos corpos à existência meramente sexual; não ter noção de que o homossexual negro (e a pessoa negra de um modo geral) é também um ser pensante, sentinte e solidário; o errado aqui é que o pornô acaba criando no imaginário coletivo da comunidade LGBT o arquétipo de gay negro como ativo, viril e dotado, incansável, de braços fortes e uma “pegada violenta”, numa visão reificadora e até animalesca.

Nesta ocasião, se tem preterido estes corpos na sociedade pelo racismo nosso de cada dia e, inclusive e principalmente dentro da comunidade LGBT. Essa tem como representativa uma parcela GGGGbranca, cis, heteronormativa e de classe média, em que fugir daquele ideal de “negão cafuçu” sendo afeminado ou somente passivo ou tendo pau pequeno ou sendo gordo acabará empurrando este ser a um posto mais à margem dentro de um grupo já oprimido.

O que alguns não se deram conta até então é o fato de sermos mais que um corpo-objeto-abjeto (objeto sexual, abjeto socialmente) que os discretos-sigilosos-fora-do-meio que nos fizeram um favor ao decidir marcar por meio do [insira um app de pegação de sua preferência] a fim de experimentar como é ficar com o “moreno” numa foda no fim de semana, com direito a todos aqueles atributos já mencionados anteriormente.

Os corpos negros masculinos escravizados tinham duas serventias: o trabalho braçal ou a reprodução. Hoje somos os porteiros, faxineiros ou bandidos. Vitimistas, privilegiados pelas cotas. Mimizentos, praticantes de racismo reverso. Ainda açoitados e vilipendiados, mas ainda sonhadores que buscam efetivar um Estado Democrático de Direito que tenha como um de seus objetivos fundamentais “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

As lógicas racistas sobre as quais nossa sociedade está assentada e formam sua própria estrutura não desapareceram com o condão da Lei Áurea, apenas foram atualizadas e aprimoradas pela falta de políticas públicas e a desconsideração de pessoas negras em sua integralidade como pessoa: de trabalho escravo hoje têm-se o trabalho análogo ao escravo, em péssimas condições e mal remunerados. O fato de dispor muito tempo para o trabalho, para servir quereres e manter privilégios alheios, desagua na realidade de ter pouco ou nenhum tempo para si, desvalorizando os próprios anseios, desejos e satisfações.

E tudo isso nos leva a um dilema: aceitar a imposição de ser tratado como objeto hipersexualizado e reduzido a um pênis grande ou ficar à margem dentro do marginal? Ceder a cada “gostoso” ouvido/lido em telas de conversas para servir aos afãs dos outros sobre nossos corpos como se fossemos agraciados por isso ou ser preterido e sentenciado como mais um a padecer a solidão dos corpos negros?

Quando se sai do campo do fetiche e do desprendimento de si mesmos, a questão de gosto e do “não tenho nada contra, mas…” são os aspectos mais evidentes nestas relações, que são instáveis, fluidas: um emaranhado de ligações não duradouras, especialmente quando são baseadas nestes pontos de opressão e hegemonia.

Não levar em consideração que essa instabilidade e conflito acabam por transformar o locus de convivência em campo de batalha e terra de ninguém é desconsiderar as múltiplas facetas de que o ser humano é formado em seus marcadores de diferença (de etnia, raça e sexualidades, neste caso). A diversidade, tão aclamada, é que forma a sociedade e deve ser invocada também para apontar o dedo e dizer “meu corpo não é bagunça”.

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  • Naiala Amorim

    Que arraso esse texto! Precisamos superar essa cultura racista que ainda hoje tenta nos reduzir a objetos. A senzala sempre esteve resistindo e hoje nos aquilombamos em vários espaços, especialmente no virtual. Ta tendo pessoas pretas se unindo, se reconhecendo, lutando por reconhecimento e reparação. Não somos meramente corpos e o nosso corpinho gostoso não é bagunça.