Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
Quer ver seu nome aqui? CLIQUE e saiba como.


O futebol brasileiro atualmente vive um caos, a repetição de que o 7×1 contra a Alemanha foi só a ponta do iceberg é praxe em vários dos canais B especializados no assunto, e a demissão do técnico da seleção olímpica a beira dos jogos é mais um indicativo disso. Seleção que eu costumo chamar de time da CBF, ou seria o time da RGT?

RGT, pra quem ainda não sabe, é a sigla do maior conglomerado de comunicação desse país (cujo nome não vou citar aqui), ela começou a ser usada ativamente por torcedores(as) palmeirenses, logo depois por torcedores(as) do Red Bull Brasil (que teve seu logo alterado), e, posteriormente, por torcedores(as) de Santos e Cruzeiro. E o motivo é muito simples: a tal televisão faz o que quer, quando quer e como quer, com o esporte mais popular desse país e do mundo, num clássico manda quem pode e obedece quem tem juízo.

O caso que mais chama atenção no país é, com absoluta certeza, o do novo estádio do Palmeiras, Allianz Parque, que tem esse nome porque o clube em questão vendeu os direitos de nome para a empresa de seguros Allianz por 300 milhões num contrato de duas décadas, um dos fatores que alavancou o time para o posto de mais bem sucedido financeiramente no país. A Allianz não só trouxe o nome, mas também sua parceira em outras arenas que levam ele, como a Allianz Arena do Bayern de Munique, a AEG. A empresa é a gestora do estádio, e tem como função, também, trazer shows diversos para o local, algo facilitado pelos contratos que a empresa tem com diversos artistas.

Abro aqui um parenteses, antes de continuar falando do “problema Allianz Parque”, para expor uma das dificuldades mais graves do futebol brasileiro, as finanças. Em lista divulgada recentemente com os principais saldos devedores do futebol brasileiro, onde o Palmeiras também está, temos valores astronômicos de quantias tomadas por empréstimo pelos clubes, que beiram o absurdo, especialmente com times do futebol carioca (por coincidência o estado matriz da RGT e CBF), apesar disso, o Flamengo foi o único que conseguiu reduzir valor:

  1. Botafogo – R$845,5 milhões (+21% em relação a 2013);
  2. Flamengo – R$697,9 milhões (-8% em relação a 2013);
  3. Vasco – R$596,4 milhões (+4% em relação a 2013);
  4. Atlético-MG – R$486,6 milhões (+11% em relação a 2013);
  5. Fluminense – R$439,6 milhões (+4% em relação a 2013);
  6. Grêmio – R$383,1 milhões (+36% em relação a 2013);
  7. Santos – R$373,2 milhões (+26% em relação a 2013);
  8. São Paulo – R$341,0 milhões (+36% em relação a 2013);
  9. Palmeiras – R$332,7 milhões (+7% em relação a 2013);
  10. Corinthians – R$313,5 milhões (+62% em relação a 2013);
  11. Internacional – R$280,4 milhões (+22% em relação a 2013);
  12. Cruzeiro – R$252,9 milhões (+27% em relação a 2013);
  13. Atlético-PR – R$233,4 milhões (+97% em relação a 2013);
  14. Bahia – R$216,0 milhões (+29% em relação a 2013);
  15. Coritiba – R$214,3 milhões (+27% em relação a 2013);
  16. Vitória – R$26,0 milhões (+12% em relação a 2013).

A lista acima, com os 16 primeiros, ultrapassa os 6 bilhões de reais em empréstimos a juros altíssimos e que nem precisariam ser pegos se o futebol brasileiro não tivesse se tornado refém das tocaias televisivas. A empresa comanda cotas de TV aberta, cotas de paper view, horários, quem aparece e quem não aparece (independente de ibope), e só viu sua hegemonia sendo ameaçada recentemente com a chegada dos canais Fox Sports e Esporte Interativo (de propriedade da Turner), além de um crescimento no investimento nacional por parte da ESPN. E é importante lembrar que a lista acima nem traz as dívidas internas dos clubes, como as trabalhistas e administrativas. O Corinthians, por exemplo, modelo de rentabilidade nos últimos anos, se vê mal esse ano por causa das concessões abertas pela TV que mantém na palma da mão quem cai na sua conversa, usando de adiantamentos, promessa de maior exposição e tudo mais que está a seu alcance. O time, além disso, é vitima de uma má administração que contratou tudo que não podia, fixou salários altíssimos e construiu um estádio acima do valor que gostaria somente para satisfazer o capricho de ter a abertura da “Copa das Copas”. A Copa se foi, as contas ficaram, o clube aumenta sua divida de forma retumbante, correndo para conseguir parceiros que ajudem a bancar um estádio que sequer teve sua obra concluída e prejudica no pagamento de outras contas, como as que tem relação com jogadores. É aí que a RGT age, na fragilidade.

Em nenhum outro lugar do mundo se vê o que temos aqui, e você pode até pensar que não, mas esse descontrole administrativo dos times também passa pelas mãos da RGT. Calendários inflados pelos anseios da TV em ter sempre futebol passando, com janelas de transferências que não coincidem com nenhum outro mercado, fazendo com que times façam loucuras mal planejadas para comprar e vender jogadores, podendo jogar até 4 vezes por semana em horários absurdos e três campeonatos diferentes de uma só vez, além, é claro, do que ninguém fica sabendo (como acordos para vazamentos de informações internas dos clubes). E por falar em horários, eles levam o fã de futebol muitas vezes a sair 1h da manhã de um estádio, sendo que só adicionaram um novo horário quando viram o Palmeiras lotar sua arena batendo audiência às 11 do domingo, mas o que tinha naquele horário pra passar na TV? Nada, apenas a conveniência de uma emissora que viu ali uma oportunidade (de mostrar a manifestação que quis e da forma que quis na parte da tarde, manipulando quem quis ser manipulado, e de preencher um horário vago na agenda).

Se coisas assim ocorressem na Europa, Inglaterra, ou Estados Unidos, os times simplesmente migrariam suas ligas e campeonatos de emissora, como uma vez o Clube dos 13, frustradamente, tentou fazer. Aqui, nem mesmo movimentos como o Bom Senso FC, que é composto de jogadores relevantes no cenário, conseguem algum sucesso, e parte dessa culpa é, também, da torcida, que idolatra a grande empresa que supostamente carrega o futebol nas costas com direito a “Mãe to na RGT” e “Filma nois Galvão”. A empresa carrega mesmo o futebol, e enterra depois que é pra ninguém achar.

A mudança da falência da modalidade por aqui passa pelo setor financeiro, como já disse, e clubes tem tomado atitudes para reverter isso, outros, no entanto, estão sendo enterrados pelo pinscher que acha que é doberman. Guarani, Portuguesa, São Caetano e Botafogo, por exemplo, que quase não tem espaço dedicado pela TV que agora ataca Santos e Palmeiras, dificilmente voltarão a ser o que um dia foram. O futebol do Norte e Nordeste do país só voltou a ganhar vida através do Esporte Interativo, e quem tenta não depender da mafiosa comunicadora recebe na porta de sua casa um capanga ameaçador.

E aí voltamos para o Allianz Parque: o estádio não é chamado pelo nome, a não ser por acidente (assim como o Red Bull), em nenhum dos canais da RGT, afiliadas, ou canais de TV a cabo de propriedade da empresa, o acordado é Arena Palmeiras (já o do Bayern, importado, é chamada sem problemas pelo nome). Recentemente eles inventaram a desculpa de que o estádio só seria chamado pelo nome correto caso o Palmeiras acrescentasse no contrato de transmissão essa exigência, mas até então ninguém sabia disso, se é que isso realmente existe (o contrato atual está em vigor há 3 anos e não pode ser alterado até o final). Como se não bastasse, nesse último final de semana o time foi obrigado a cobrir o nome Allianz com faixas brancas, pois supostamente a área publicitária dos parapeitos das arquibancadas e entradas/saídas, não são de uso do Palmeiras, mas sim da televisão e seus patrocinadores, no entanto o mesmo critério não foi aplicado no Maracanã com a Guaraviton, patrocinadora do Botafogo, que expôs sua marca no mesmo local. As faixas foram arrancadas pela torcida e o tiro saiu pela culatra, a Allianz, mais uma vez, ganhou ainda mais exposição. É importante salientar também que existe uma diferença entre Guaraviton e Allianz, pois a seguradora tem concorrência direta com uma grande empresa que financia tanto RGT, quanto CBF, a Unimed.

O caso Allianz Parque é prejudicial para todo futebol, independente da situação das faixas, e mostra a expressividade do Palmeiras no cenário nacional, pois eu não sei se vocês lembram, mas Atlético-PR também vendeu os direitos de nome do seu estádio, na verdade eles foram pioneiros no país entre 2005 e 2008. Ah, você não se lembra, sabe por que? A Kyocera Arena nunca teve seu nome proferido em lugar algum, e a situação nunca gerou a polêmica que temos agora. Muito disso é culpa do próprio time e até da torcida, por não se mobilizarem. A empresa, por sinal, sumiu até mesmo do mercado que pretendia galgar no país. Os tempos são outros, é claro, o boom das arenas é muito maior, é claro, a Allianz é maior que a Kyocera, é claro, e isso é só mais uma prova de que se você não está ao lado de um dos patrocinadores da dupla CBF/RGT, você está FODIDO.

allianzparquefaixasbrancas00

A área supostamente indicada no ofício é a que assinalei em vermelho, e não a que foi coberta. Essa área em vermelho também tinha o nome estampado, mas no Paulistão, que tem regras diferentes do Brasileiro. Acrescento: pra que um ofício sobre algo que já está na regra?

Em nota a CBF esclareceu que houve um “excesso de zelo de uma empresa terceirizada” contratada para administrar as partidas do estádio, EA Sports Marketing, acontece que, de acordo com apuração do Terra, a área coberta sequer faz parte da tal região reservada para televisão, e uma confusão causada POR UM OFÍCIO DA RGT gerou a possibilidade de todas as marcas com nome do estádio serem tampadas. Qual a dificuldade na redação de um ofício? É confusão ou conflito de interesses? A RGT não quis emitir opinião e disse que a co-irmã CBF já explicou tudo.

Times como Palmeiras e Internacional, que atualmente são os que melhor se sustentam com as próprias pernas, metem medo na emissora por independerem dela e mostrarem a outros que é possível largar da barra da saia da “mãe”. Seja através de seus novos estádios, seja através de seus patrocinadores, seja através de um marketing efetivo, seja através dos mais bem sucedidos programas de sócio torcedor, etc., os dois clubes abrem os olhos de outros times, de outros mandatários e, espero, d@s torcedores(as). A audiência da empresa de narradores jurássicos cai cada vez mais, e a batalha ganha a força de empresas do ramo que bateram o pé na porta do Brasil e vieram pra ficar, e que, com certeza, tem bala na agulha pra ultrapassar os valores de cota televisiva abaixo:

  1. Flamengo – 170 milhões;
  2. Corinthians – 170 milhões;
  3. São Paulo – 110 milhões;
  4. Vasco – 100 milhões;
  5. Palmeiras – 100 milhões;
  6. Santos – 80 milhões;
  7. Cruzeiro – 60 milhões;
  8. Atlético-MG – 60 milhões;
  9. Botafogo – 60 milhões;
  10. Fluminense – 60 milhões;
  11. Grêmio – 60 milhões;
  12. Internacional – 60 milhões;
  13. Outros – 35 milhões.

Pense, você colorad@ ou gremista, se os times resolvessem vender direito de nome dos estádios para o Banrisul (estou usando um exemplo conhecido, apenas), vocês acham que a dupla de siglas, amplamente financiada pelo Itaú, falaria o nome dos locais? Nope. Isso afeta times de norte a sul. A situação que envolve o Palmeiras deveria gerar um levante, mas não vai, pois, mesmo considerando que os valores acima sejam irrisórios quando se trata de futebol, os times são desunidos e tem medo, bem como suas federações regionais. O que precisa ser enxergado por todos é que tanto CBF, quanto RGT, não estão interessadas em um cenário melhor, existe muito mais em jogo, enquanto isso o esporte vai sendo sucateado cada dia mais, com direito a times que somem do mapa. Quem sustenta um futebol melhor são os patrocinadores dos clubes, quem sustenta um futebol melhor é o time, quem sustenta um futebol melhor são os produtos de marketing, quem sustenta um futebol melhor é, em especial, a torcida. E é por isso que ele precisa ser mantido numa condição deplorável, exposto as migalhas dessas duas instituições, dependente delas até os acréscimos do segundo tempo. É o sonho da agiotagem.

Achou nossa mensagem importante e quer que ela chegue em mais pessoas? Ajude o Fast Food Cultural a crescer, seja um financiador! Você pode contribuir com o projeto através do Patreon ou Apoia.se, acesse os links, confira nosso vídeo, nossos objetivos, leia outros textos nossos e faça parte da nossa família.