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Nunca vi nenhuma pessoa vegana, vegetariana, ovo lacto ou lacto, comendo a maioria dessas coisas que a criança crescida Felipe Neto escolheu pra representar o que veganos consomem. Produtos que sequer são direcionados a esse público, inclusive. Boa parte do que ele escolheu eu nunca comi e quem compra é gente ricaça com complexo de marca, do mais caro e melhor e que quer ser fit. Eu mesmo tô mais preocupado em achar um quilo de tomate italiano orgânico que custe menos que seis pilas, e em fazer um estoque de polvilho azedo e doce.

Parece que, olhando o Felipe Neto e sua patotinha, eu tô assistindo uma série de pessoas, com as quais já conversei, repetindo o senso comum de que pra ser vegano precisa ser rico, ou que é OPÇÃO, ou que a comida não tem gosto, ou que é tudo soja… Já disse: alguns computadores não devem ter o Google instalado, só pode. Eu aceito uma pessoa da periferia, sem educação e sem acesso a informação, falando esse emaranhado de coisas que geral fala, agora eu nunca vou aceitar pinta com acesso a informação e condições de usá-la, ainda mais rico como ele, falando um bando de bobagem.

Insuportável ver essas três crianças que não gostam de comer o que nem comeram ainda e conversam gritando (sem contar toda a merda preconceituosa que rola no vídeo), e parabéns ao Fabio Chaves que aguentou assistir essa bosta pra comentar, pois é um dos vídeos que mais contém desinformação que já assisti. E isso vai ser visto por 16 milhões de inscritos no canal desse abobado. Pelo menos ele admitiu que é hipócrita. E não, não é só por causa desse vídeo que eu acho ele execrável não.

E como disse o Fabio, por que o Felipe Neto não escolheu pra comer: batata frita, feijão, arroz, verduras, castanhas diversas, chocolate meio amargo acima de 70% de cacau (a maioria vegano e têm vários saborosos sim), cereja, morango, maracujá… É tudo vegano e todo mundo consome, porque distorcer mais ainda uma coisa que já é distorcida diariamente? Falar sobre algo sem nem se inteirar? Porque pegar um bando de bagulho industrializado de prateleiras? Parece proposital (parece?).

Misteriosos produtos veganos sendo vendidos em uma feira livre…

A maioria das pessoas que param de consumir, ou até reduzem o consumo de carne, fazem comida em casa, sequer pedem tele-entrega, porque, além de faltar opções, não dá pra confiar nos restaurantes que tem opções ditas veganas. E a galera acha que o problema é só com vegano/ser vegano, mas há pessoas alérgicas que podem morrer se a comida for feita na mesma chapa que um “fruto” do mar, ou feita no mesmo recipiente onde passaram amendoins, ou feita na mesma panela onde foi feito algo que contenha glúten. Não é assunto pra se brincar dessa forma, vai além. Fico em dúvida se ele é desonesto por natureza, ou se recebeu de alguma indústria pra fazer o vídeo.

Agora, eu discordo do ponto em que o Fabio fala que por ele “as pessoas que se fodam, a saúde das pessoas, eu não sou um ativista pela saúde das pessoas” e que o veganismo (dele) só se importa com animais sencientes, porque é esse tipo de discurso que gera antipatia nas pessoas e faz elas produzirem esse tipo de conteúdo com critica boçal. É contraproducente. Porque é elitista, porque é classista, porque desconsidera uma série de fatores sociais, e é por isso que não me pareio, é difícil eu ter amigo/amiga vegano/vegana, especialmente aqui em Porto Alegre onde os bonito se acham o suprassumo da Terra, tá cheio de rad no movimento (deos me dibre de gente transfóbica, putafóbica e coisas tais), cheio de racista e fascista, homofóbico, e por aí vai.

E boa parte dessas pessoas ofendem outras que ainda consomem produtos animais de que forma? Com discriminações, claro! Mas o que isso gera? As pessoas se afastam do veganismo, e quando as pessoas se afastam do veganismo no que resulta? Mais animais morrem! E o que a gente fez então? Fez mal ao nosso movimento. Ou seja: há problemas de lá e de cá.

Não aceitam, sequer, a aproximação de lactos, ovo lactos e pessoas que estejam reduzindo consumo, e que podem (ou poderiam) vir a se tornarem veganos (meu caso, que consegui). Eu saí de todos os grupos de veganismo do Facebook que participava há anos, vários deles porque combinavam de ir até determinadas postagens pra debochar de pessoas, muitas delas bem simples e que sequer sabiam o que se passava. E eu ali querendo receitas e dicas. Um ambiente nocivo pra qualquer desavisado que chegue buscando mudar a visão.

Eu, por exemplo, além das políticas veganas que já compartilho mesmo antes de me tornar vegano (viu, Fabio), como não comprar nada de couro, não usar produtos de higiene que não sejam vegetais, não ir a zoológicos e aquários, não andar a cavalo, fazer militância pela causa, também não compro produto vegano de locais e marcas que exploram pessoas, escravizam. Não vou a um certo evento de Porto Alegre porque a organizadora se envolveu numa série de casos de misoginia, exercício de poder, classismo e racismo em páginas de mulheres que abordavam a temática de serem mães solteiras (cuidado com a sororidade compulsória), aí depois disse que o computador foi invadido (a desculpa de sempre pra não ser preso, mas tá tudo certo, namastê, segue em frente, participa do evento dela e ignora quem ela é no fundo). Há, também, uma famosa página daqui que expõe pessoas, tipo o tio vendendo churrasquinho e tentando sobreviver.

É desnecessário, nem todo mundo têm a informação e a educação que temos, e a luta não deveria ser contra o cara que tem dez galinhas caipiras e vende ovo pra alimentar a família na roça, ou contra o tio do churrasquinho, ou contra o carroceiro. Essa gente nem sabe o que é veganismo, nem sabem que há pessoas que não comem carne, nem sabem que “fruto” do mar é animal. A luta deveria abraçar essas pessoas, mostrar a elas que há escolhas, promover ações nesse sentido, informativas, numa linguagem que possa ser compreendida e não afastar, e cobrar do Estado ações de inclusão nesse sentido. Especialmente se temos dinheiro pra isso. Eu acho sim que não há militância pacifica que dê certo, tem que bater o pé na porta mesmo, mas guardem as armas pra quem precisa que usemos delas.

Por fim, falta ao veganismo, como falta a maior parte das militâncias, intersecção, é um foda-se total e só interessa o entorno do umbigo. As causas se atravessam, são interligadas, mas me parece que isso não é tão óbvio assim. Mesmo pessoas que admiro de outras militâncias não conseguem fazer os recortes mais basilares. E quanto ao vídeo do Felipe Neto: acho normal que crianças mimadas rejeitem alguns alimentos sem nem experimentar, ou queiram comer só “porcaria”, quando eu era criança como eles eu também fazia isso.

Tchau tchau, pessoal, e um beijinho na pontinha do nariz!

Fonte: Vegano assiste a Felipe Neto experimentando comida vegana – reação ao vídeo em tempo real.

Foto de destaque: divulgação/YouTube.

Leituras complementares:
“A Política Sexual da Carne” e a Relação entre o Machismo e o Carnivorismo;
Política Sexual da Carne – Uma Teoria Crítica Feminista-vegetariana.

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