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Conheci o Gian em 1985, quase 29 anos atrás. Na realidade ele me conheceu, mais especificamente no dia em que eu nasci, visto que somos irmãos. Já eu mesmo fui conhecendo ele de acordo com a evolução do meu cérebro, criança não acompanha muito o que acontece a sua volta e viaja num mundo diferente.

No meu mundo ele existia como um grande goleiro de futsal, um dos melhores que vi jogar, por sinal, e foi por muitos anos o goleiro titular da nossa cidade natal: Ituiutaba (procure no Google, ela existe e talvez você encontre algumas notícias bizarras vindas de lá). E o conhecimento não ia além disso, fora a admiração que carrega toda essa coisa de irmão mais velho.

Um dia descobri um desenho dele numa agenda de capa azul, do Banco do Brasil, ele trabalhava por lá na época, e foi então que, ao perguntar para nossa mãe de quem era o desenho, descobri que meu irmão era um artista. O desenho era um leão, provavelmente da Nemeia, com uniforme de jogo e uma bola de futebol, eu adorava aquele desenho, mas como uma criança que entendia lhufas de arte. Ele unia muito do que hoje sei que meu irmão gosta, era feito com caneta esferográfica azul e demonstrava bastante talento.

Quando veio para Porto Alegre ele começou a aprender técnicas de pintura, e pintou quadros lindíssimos por sinal, se houve dificuldade aqui, foi pouca. Foi sempre um autodidata, como dizia nossa orgulhosa mãe. Dito isso: temos um cara que, também, desenvolve material de mídia para diversos sites, bem como layout, e faz isso como ninguém. Nosso site, inclusive, tem a mão dele, especialmente a parte visual; inclusa a logo.

Hoje o entrevisto, não como irmão e apoiador, mas como escritor de um livro que traz como cenário uma paixão que temos em comum, Porto Alegre. Além, é claro, da mitologia; que eu também compartilho o gosto, mas não tanto na literatura, e sim em outros canais culturais. O entrevisto, também, como um cidadão dessa mesma cidade.

Mas antes de começar a entrevista alguns detalhes importantes: o livro foi publicado pela Editora Literalis e pode ser comprado AQUI e AQUI, e o site do livro está AQUI. Você pode também curtir ele no Facebook.

E vamos a entrevista:

Fast Food: Quando surgiu a vontade de escrever?

Surgiu naturalmente, tão logo eu descobri que gostava de ler. Acho que essa vontade é normal quando se lê muito. E, quando surge esse desejo de expor seu pensamento e tornar real uma história guardada na cabeça, começar a escrever, mesmo sem método, é a válvula ideal.

 

Fast Food: De onde veio a ideia de fazer esse mashup de conteúdos, e porque os 12 trabalhos?

Sempre gostei muito das mitologias, praticamente todas, mas, em especial, a greco-romana. A lenda sobre os trabalhos de Hércules nunca saiu da minha cabeça, desde menino, quando li “Os doze trabalhos de Hércules”, o livro infantil escrito por Monteiro Lobato e publicado em 1944. Como é uma história bem conhecida, e memorável, durante as minhas andanças na cidade me surgiu a ideia. Comecei a estudar e visitar diversos locais conhecidos e, surpreendentemente, consegui chegar a uma conexão entre eles e os trabalhos. Claro, a imaginação foi a mil para que isso acontecesse.

 

Fast Food: Foi necessário muito estudo dos trabalhos e da cidade de Porto Alegre para que a história pudesse ser criada?

Sim, bastante. Passei várias horas na Biblioteca Pública, além, claro, de pesquisar praticamente tudo sobre os locais escolhidos na internet. Além disso, a ajuda de um amigo gaúcho, Miguel Felippe, técnico restaurador e profundo conhecedor da história da cidade, foi fundamental para me aprofundar na história e poder conectar com o enredo que tinha na cabeça.

 

Fast Food: Dar a luz a um livro, todo o processo, foi um trabalho hercúleo? 

Sempre é. Afinal, é necessário ter carinho pela história, tempo disponível (o que, na época, eu tive, por circunstância) e conhecimento da língua. Além de paciência para não desistir, boa vontade para sempre colocar a autocrítica na mesa e coragem para reescrever, refazer, deletar. Ou seja, é um processo de constante entrega.

 

Fast Food: Segundo Chronus, quanto tempo levou para o livro ser escrito e quais as maiores dificuldades?

Todo o processo levou praticamente um ano e meio. A maior dificuldade, no meu caso, foi o excesso de ideias e a dor de ter que deixar algumas “na sala de edição”. Eu tinha sempre a intenção de editar o livro, e sabia que o tamanho do livro seria um fator importante numa futura avaliação. Sem falar, claro, no tempo diário disponível que eu tinha pra escrever. Noitadas e noitadas foram necessárias.

 

Fast Food: O que você acha que falta para que pequenos artistas, de inúmeras vertentes, saiam do labirinto do Minotauro como você saiu?

Oportunidades, um pouco de sorte, e, definitivamente, disciplina e dedicação. Se não entregar o coração, a alma e boa parte do tempo, no que se acredita, as ideias serão somente ideias, e as oportunidades não virão. E contar só com a sorte não é o melhor caminho.

 

Fast Food: Qual a sua dica para esses que ainda estão escondidos, com medo de trombar com o Leão da Nemeia, ou com o Minotauro?

Primeiramente, ter disciplina e acreditar no potencial. Não adianta começar algo e engavetar, pensando que não vale a pena continuar. Pegue seu esboço, sua ideia ou projeto, e divulgue. Use a internet, suas conexões pessoais, seus amigos ou, simplesmente, busque a fera que pode auxiliar no seu projeto e esfregue na fuça dela o seu sonho. O máximo que pode acontecer é um não, ou um conselho para aprimorar, ou uma mordida. Nada que vá te matar.

 

Fast Food: Sei que deveria haver uma continuidade para a sua história, você pretende concluí-la? Se não, por quê?

O livro apresenta sim a possibilidade de continuação da história. Não significa que o livro não tenha um final, que necessite de outras histórias para fechar algum ciclo. Tem sim um desfecho bem definido, e adequado, a meu ver. Mas, sim, pretendo continuar essa aventura, assim que concluir um projeto atual. Afinal, as mitologias são diversas, e ideias não faltam.

 

Fast Food: Qual a sua maior satisfação após concluir o livro?

Terminar o livro foi um alívio, uma sensação de promessa cumprida. Ter o livro em minhas mãos foi muito legal, uma sensação de que o trabalho foi válido. Mas receber boas críticas dos leitores, e o reconhecimento dos amigos e familiares, foi, e ainda é, a melhor recompensa.

 

Fast Food: Você tem mais algum projeto em mente? Alguma outra história que possa adiantar?

Sim, atualmente estou tentando conciliar o trabalho com a escrita, e finalizar um novo livro, de temática e abordagem diferente das Mitologias Roubadas.

Digamos que eu tenha um terço pronto, mas que toda a história já está pronta, na cabeça. Posso adiantar que terá aventura, mistério, realidade, ficção e fantasia, um detetive improvável, sangue, crítica social e um ingrediente que me enoja: políticos corruptos.

 

Fast Food: Sobre sua participação no projeto “Santa Sede”, como foi a experiência e o que você aprendeu? Qualquer um pode participar?

Ter participado da oficina e do projeto Santa Sede, foi um divisor no meu método de escrita e no meu entendimento da literatura. O Rubem Penz, idealizador e ministrante da oficina, tem uma capacidade surpreendente de envolver, de trocar experiência e de repassar bons métodos para quem gosta de escrever. E ali conheci pessoas especiais, amigos até hoje, que também ensinam enquanto aprendem. Sinto-me melhor escritor depois de ter participado da turma de 2011. Quem quiser participar pode ter acesso às informações através do site dele, o rubempenz.net. Vale muito a pena.

 

Fast Food: Além da escrita, existe mais alguma atividade artística que você desenvolva dentro dos labirintos da vida?

Já fui um ótimo desenhista, dizem. Mas faz algum tempo que não pratico. Qualquer hora eu volto a produzir meus rabiscos, pra ver se ainda tenho o dom, e para satisfazer alguns pedidos insistentes. Produzo também, mais por hobby e exercício de criatividade, sites diversos, logomarcas e material publicitário, como cartazes e folders. Essa produção ainda é, digamos, somente para os amigos e casos excepcionais.

 

Fast Food: Quais os 12 trabalhos que você acha que precisam ser feitos em Porto Alegre para a cidade melhorar? 

1) Escolher melhor os candidatos ao votar;

2) Matar a carreira de quem foi eleito e não cumpriu promessas;

3) Destruir a falta de respeito com o cidadão;

4) Exterminar o preconceito;

5) Valorizar  as carreiras cruciais para a cidade: responsáveis pela segurança, educação e saúde;

6) Ouvir e respeitar a juventude;

7) Dar valor ao papel da mulher na sociedade (sejam elas amazonas ou não);

8)  Respeitar o patrimônio e a história;

9) Exterminar os interesses particulares e opressores de algumas corporações “monstro”;

10) Renovar a cultura local, valorizando os que tem mais qualidade do que “costa-quente”;

11) Abrir a boca e não aceitar o mal feito;

12)  Levar mais a sério o papel de cidadão, afinal não basta matar um leão a cada dia: tem que se manifestar e denunciar.

 

Fast Food: E qual o trabalho mais difícil a ser enfrentado para que a cidade melhore?

Definitivamente saber escolher os governantes no próximo pleito. Se não for levado a sério o voto, o futuro vai apresentar muito mais do que 12 problemas e consequências ruins. E será uma missão ingrata, e difícil, remediar a situação.

 

Fast Food: Desde o lançamento do livro até agora, considerando todo estudo minucioso que foi feito, você acha que a cidade melhorou, ou piorou?

A cidade parou no tempo. Muito pouco, ou quase nada, foi feito para melhorar as opções de diversão, cultura e educação. A falta de respeito com o patrimônio histórico, a natureza e a cultura, é evidente. Os benefícios que os projetos para a Copa do Mundo trariam não se concretizaram por incompetência, ou ficaram mal feitos. Perdeu-se uma oportunidade única que dificilmente se repetirá. Uma pena.

 

Fast Food: Você acha que um dia chegaremos próximos da Porto Alegre retratada no seu livro?

Minha versão da cidade é, evidentemente, utópica. É um futuro desejado, onde a tradição e a tecnologia coexistem. Pode até parecer impossível, mas não é. Com o comprometimento da sociedade, com políticas públicas e políticos melhores, os “devaneios” do livro são, sim, perfeitamente realizáveis.

Um Arroio Dilúvio como um canal limpo, onde as pessoas passeiam a pé ou em pequenos barcos? Dá para fazer. Uma beira do Guaíba com restaurantes, galerias, jardins e natureza exuberante? Sim, é possível. Prédios históricos e monumentos resgatados dentro das leis e técnicas corretas de restauração? Dá também. Trens subterrâneos e aéreos para melhor circulação na cidade?  É só querer.

 

Fast Food: Porto Alegre, no ponto em que está, precisa de um herói?

Sim. Mas não de um herói único, solitário, mitológico. A cidade precisa de uma Liga da Justiça inteira, onde a voz do povo, a manifestação da juventude e a eterna insatisfação com o mal feito, sejam os principais super poderes. Só assim vamos derrotar esse bando de vilões que andam por aí.

 

Fast Food: Para finalizar: qual seu Fast Food favorito?

Não tem como não gostar de um sanduba ou uma pizza bem feita.

 

Fast Food: Sabe cozinhar algum Fast Food que possa nos passar a receita?

Quisera eu ter a intimidade com a gastronomia que meu irmão possui… Mas caso considerem um ovo frito e azeitona, jogados sobre uma fatia de pão, um Fast Food, posso mandar a receita. É bom, até Cérbero comeria.

 

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