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A arte da Carol veio para mim como conseqüência do meu posicionamento ideológico, bem como de alguns amigos. Era questão de tempo. A simplicidade de sua arte me lembrou um pouco o trabalho da Tailor, que já compartilhamos por aqui, mas com um toque único, tanto por causa de seu traço, quanto pela mensagem que ela transmite.

Conheci um pouco sobre a Carol enquanto falávamos sobre a entrevista, sobre o que era o Fast Food e sobre quem já havia passado por aqui. Descobri que ela é mineira como eu, ama pão de queijo como eu (como não amar pão de queijo?), e que estava empolgada em fazer parte de nossas páginas justo no momento em que a Sofia e uma outra pessoa iriam passar por aqui (não posso falar quem é essa pessoa ainda).

Fato é que Carol tem muito a ver com o Fast Food Cultural, sua arte exemplifica tudo pelo que lutamos. Confiram abaixo a entrevista e um pouco do trabalho dela, e além disso curtam a moça no Facebook.

 

Fast Food: Em que momento você descobriu que tinha uma veia artística e como isso começou, foi direto na ilustra?

Nossa, eu desenho desde que tive coordenação motora suficiente para segurar um lápis, e nunca parei. Não sei se tenho exatamente uma “veia artística”. Sei que gosto muito de desenhar, por isso sempre pratiquei muito. Ao longo da vida até tentei outras formas de arte: violão, teatro, dança… Mas não deu muito certo, só conseguia me dedicar de verdade ao desenho.

Fast Food: Você sofreu algum preconceito no início por ter escolhido esse caminho?

Sei que muita gente tem que lutar muito para seguir uma carreira das artes, ou que envolve principalmente a criatividade, mas comigo não foi assim. Minha família me apoiou muito desde sempre. Quando eu era bem pequena e queria desenhar nas paredes da casa toda, minha mãe fez um trato comigo: dentro do meu quarto podia, no resto da casa não. Aí deu tudo certo, estabelecemos o espaço e meu quarto era todo rabiscado até a altura de meio metro que eu alcançava! E foi assim por toda a minha vida. Quando escolhi fazer design gráfico na faculdade, não foi uma surpresa pra ninguém.

Fast Food: Ainda existe muito preconceito contra quem escolhe a carreira artística? Se sim: isso tem melhorado?

Existe, sim. Muita gente ainda não vê isso como um trabalho digno, encara como se fosse apenas um hobby. Isso se reflete no dia a dia da profissão, quando o trabalho não é levado a sério e não é valorizado. Apesar do design e das artes plásticas serem áreas bem distintas, existe essa semelhança forte: todo mundo quer design (ou a arte), mas ninguém quer investir nisso. Fica mesmo um estigma de que não é uma carreira séria. Se isso tem melhorado, eu realmente não sei. Acho que no caso do design um pouco, das artes plásticas nem tanto.

Fast Food: Além das ilustrações, você trabalha com mais alguma vertente artística?

Eu trabalho apenas com ilustração e design gráfico.

Fast Food: Já consegue viver da própria arte, ou ainda não?

Eu tenho um estúdio de design gráfico chamado Café com Chocolate Design. A maior parte da minha renda é através dessa empresa.

Já meu trabalho exclusivamente de ilustração é basicamente em projetos freelance ou pessoais. Aí já é diferente, a demanda é mais inconstante. Tem meses que ilustro um livro infantil, tem meses que não tem nada. Vejo meu trabalho com ilustração como complementar, em termos de renda. De qualquer forma, eu sempre crio alguns projetos autorais, como essa série de ilustrações sobre mulheres. É uma forma de continuar praticando desenho e não enferrujar, além de ser muito bom pra lembrar a gente o porque de termos escolhido fazer o que fazemos. Acho muito saudável ter sempre algo próprio encaminhado, algo no qual possamos exercer nossa criatividade sem limitações externas de clientes ou mercado.

Fast Food: E onde entra o “Café com Chocolate” nisso tudo, e o que é o projeto em si? Quantas pessoas participam dele?

A Café com Chocolate Design é o estúdio de design gráfico que tenho com três amigos que formaram comigo, e ela vem crescendo bastante. Fazemos serviços diversos, como identidades corporativas, marcas, papelarias, material promocional, layout de sites e blogs, editoriais… E em vários momentos eu tenho oportunidade de criar ilustrações exclusivas que enriquecem muito os trabalhos. Nossos projetos tem um resultado bacana também por causa destes diferenciais de cada um de nós: eu sou ilustradora, o André Renault é um fotógrafo incrível, a Anelise Giordani tem um conhecimento de administração imprescindível e a Barbara Grossi arrasa no motion design.

Fast Food: Sobre tua página no Facebook: quando foi que você começou a fazer arte protesto? Como surgiu essa vontade?

Como eu disse anteriormente, é um projeto totalmente autoral. Comecei no início de maio essa série sobre as diversas formas de controle exercidas sobre o corpo feminino, especialmente nas pequenas coisas cotidianas. Optei por fazer uma série com uma linguagem simples, direta e o menos agressiva possível. Eu quero despertar empatia tanto em homens quanto em mulheres, que se identificam como feministas ou não. Eu vejo um problema sério de representação na sociedade, e como meu trabalho (seja como designer ou como ilustradora) é essencialmente imagem e comunicação, eu sinto que tenho responsabilidade em mudar este quadro. Há uma falha de representação. O cinema, a TV, a publicidade, mesmo a literatura…

Tudo isso constrói conceitos e tem um impacto muito maior nas nossas vidas do que a gente imagina inicialmente. Onde estão as pessoas com deficiência física? Por que pessoas em cadeira de rodas só aparecem se falarmos de cadeira de rodas? Pessoas com nanismo são mostradas sempre de forma cômica, quase como se fossem uma espécie diferente da humana em um filme de fantasia, isso não é aceitável. Dia desses passei em uma banca e não vi nenhuma revista com uma pessoa negra na capa. Onde estão as pessoas trans*? Tem gente pela internet dizendo que tem nojo de pessoas gordas. Será que isso não é incentivado através da forma com que pessoas gordas são representadas pela mídia? Eu acredito que desconstruir esses preconceitos é um trabalho árduo, que exige muita humildade para reconhecer os próprios privilégios e ouvir o que pessoas menos privilegiadas do que você tem a dizer, sem que esses privilegiados digam o que pensam logo de cara. Ouvir sem falar, pelo menos por um tempo, porque alguém que foi privilegiado a vida inteira não vai compreender essas questões da noite pro dia.

Não é fácil, é dolorido encarar todas as vezes que foi um completo idiota. Mas isso tem que ser feito. Isso é de extrema importância. E acho que ilustrações e quadrinhos tem uma capacidade de despertar essa consciência inicial de uma forma incrível. É uma forma de comunicação que consegue despertar a empatia e passar conceitos básicos de um jeito que um longo texto corrido não consegue.

Fast Food: Você esperava que seu trabalho fizesse tanto sucesso?

Nossa, de jeito nenhum! Foi uma grande surpresa!

Fast Food: As histórias exemplificadas através do seu traço são enviadas por outras pessoas? Se sim: com que frequência você recebe esses testemunhos?

Várias situações eu mesma percebi, mas hoje em dia muita gente me manda sugestão. Adoro essa participação, anoto tudo. Tenho uma pauta gigante de temas a serem abordados!

Fast Food: Alguém já te agradeceu por desenvolver essas ilustrações?

Sim. Isso é o mais gratificante de tudo. Saber que o meu trabalho teve um impacto tão positivo na vida de alguém dá uma alegria indescritível. De verdade, eu faço questão de responder todas as mensagens no face, esse feedback tem sido maravilhoso!

Fast Food: Qual das ilustrações gerou mais polêmica?

Sem dúvida a do aborto! A maior parte das pessoas recebeu muito bem, e me mandaram mensagens agradecendo, curtiram e compartilharam a postagem. A discussão nos comentários foi bacana também. Mas eu recebi algumas poucas mensagens nervosas pedindo para eu retirar a imagem, dizendo que fui desrespeitosa com o ser humano. Eu discordo. Eu acho que a mulher que aborta deve ser representada e acho que a legalização é uma questão urgente de saúde pública.

Fast Food: Você pretende expandir a arte para outras causas, ou se manterá focada no feminismo?

Por enquanto a série engloba apenas mulheres, porque é um universo ao qual eu pertenço e, portanto, compreendo melhor – e nada impede que homens também se identifiquem com as situações, como já aconteceu várias vezes. Mas não acho que é apenas sobre o feminismo. Eu faço questão de abordar assuntos como deficiências físicas, racismo, transfobia, homofobia… Sim, eu faço através de personagens femininas, mas, como eu disse, mulheres são tão representativas na espécie humana quanto o homem, e nada impede que homens se identifiquem com as situações.

Fast Food: Qual das histórias mais te tocou?

As situações não costumam ser exatamente histórias. Elas derivam de casos, claro, mas eu adapto de uma forma que fique um pouco mais “genérica”. Sempre tento fazer cada ilustração pensando que várias pessoas possam se identificar com aquilo. Acho que o mais “pesado” é certamente o da Ana, que trata do estupro. Acho que pra todo mundo (mas especialmente para mulheres) é um tema muito delicado, muito forte, muito aterrorizante. Essas histórias sempre me tocam profundamente, e a ilustração foi como uma compilação de vários relatos que já li/ouvi.

Fast Food: Alguma dessas histórias poderia ser chamada de “caso de polícia”?

A do estupro, as de discriminação, a da cantada…

Fast Food: Com que frequência homens despejam “male tears” nos teus posts/artes? 

Hahaha! Sempre rola, né? Mas eu não saio do sério por isso. Acho relativamente natural, eu não sou feminista desde sempre. Há alguns anos, se me perguntassem sobre feminismo, diria alguma bobagem tipo “não sou feminista, nem machista, sou humanista”. Nós vivemos em uma sociedade machista, racista, transfóbica, homofóbica e elitista, dentre tantos outros problemas de opressão igualmente graves. Nós nascemos e crescemos em uma sociedade assim, e é claro que internalizamos boa parte disso. Desconstruir isso é difícil, mas é uma responsabilidade.

O feminismo joga na cara de homens o tempo todo que eles são privilegiados num sistema opressivo. A primeira reação é SEMPRE defensiva. Mas eu acredito (e podem me chamar de idealista, otimista ou sonhadora) que, a medida que a pessoa vai tendo mais contato com as questões feministas, ela tende a repensar seus conceitos. Não é de uma hora pra outra, com uma única discussão na internet que isso muda. Mas muda. Comigo mudou. Claro que, na minha posição não privilegiada no machismo, enquanto mulher, isso foi mais fácil. Mas foi igualmente difícil reconhecer meus privilégios em outras questões, porque sou branca, classe média, cisgênero, sem nenhuma deficiência física e há 7 anos em uma relação monogâmica heterossexual.

Eu sou muito privilegiada, e consegui me dar conta disso e fazer o que eu posso pra mudar a situação. Acredito que com os homens machistas que derramam as male tears possa acontecer a mesma coisa. Não vai rolar com todos, mas se meu trabalho conscientizar um único homem sobre isso tudo, já valeu a pena.

Fast Food: Teve alguma mensagem nos comentário que fosse carregada de ignorância e que te chocou mais?

Ah, de vez em quando acontece. Teve um cara que disse que se a mulher tá matando o feto ele nem liga dela morrer junto. Poxa, isso é tenso. Não tem como dialogar com alguém com tanto ódio assim.

Fast Food: Você acredita que as coisas estão melhorando no que diz respeito ao machismo nosso de cada dia (especialmente no país em que vivemos, líder de diversos índices de violência no mundo), ou não?

Acho que há uma evolução constante, embora lenta, na conquista dos direitos iguais. Ao longo dos anos, tem melhorado. Mas não é suficiente, e tem uma bancada evangélica sempre tentando derrubar pontos já conquistados que são muito importantes, e dá o medo do retrocesso. Quanto a igualdade sociocultural, que envolve aquele machismo cotidiano que eu tento retratar, isso eu realmente não sei. Existe muito mais discussão graças as redes sociais, acho que isso deve ajudar. Mas quando a gente sai na rua, ainda ouvimos cantadas. O que chamamos de “jornalismo punheteiro”não perde força por nada. Uma modelo foi assassinada? Bora usar uma foto dela de biquini pra ilustrar a matéria. Acho que a mudança que vem acontecendo ainda é insuficiente, em boa parte por causa do problema de representação feminina na mídia.

Fast Food: O que você pensa que precisa mudar com maior urgência?

Nossa, é muita coisa muito urgente. Se eu tiver que escolher uma única causa para resolver ontem, acho que é das pessoas trans*. As estatísticas de assassinato, os casos de exclusão e discriminação, são assustadores. Crimes de ódio contra mulheres existem, e são sérios. Contra homossexuais é mais comum ainda. Mas contra pessoas trans* é gritante, e não se fala sobre isso. A maioria dos veículos de informação continua falando de trans* com o gênero masculino, o desrespeito é generalizado. Alguma estratégia massiva de conscientização sobre pessoas trans é extremamente urgente. Pessoas estão morrendo. Muitas pessoas.

E a questão do aborto também é urgente, é saúde pública, e não é difícil perceber o quão surreal é essa criminalização.

Fast Food: Quais são suas maiores inspirações, tanto artísticas, quanto politico-sociais?

Bom, são muitas inspirações. Pra começar aquelas pessoas queridas que estão sempre por perto. A gente tende a pensar só em gente famosa quando fala de inspiração, mas quem de fato me inspirou de tantas formas, dia após dia, foram as pessoas mais próximas. Meus amigos, minha família, meu marido, que é a pessoa mais incrível que já conheci e me ensinou tanta coisa. Machista adora falar que mulher é feminista até casar, né? Eu virei feminista depois, então, acho que não! Meus pais sempre foram verdadeiros exemplos pra mim em muitos aspectos, mais do que eu seria capaz de descrever aqui.

Mas, entre as personalidades conhecidas também por outras pessoas, ressalto o casal Neil Gaiman e Amanda Palmer, antes de todos. Tudo o que eles fazem que eu tenho notícia, juntos ou separados, me inspira demais. Cada um a sua maneira, ídolos eternos. Tem a Feminista Cansada, que foi quem começou a me conscientizar sobre feminismo através do blog. Tem a Negahamburguer, com uma arte linda e inclusiva, que desafia aqueles padrões que nunca fizeram bem a ninguém. Samie Carvalho com a Sasha, que me fez atinar para toda a questão das pessoas trans*, e foi também quem me levou pro design gráfico. Aline Lemos e sua arte tão sensível sobre mulheres. Os quadrinhos incríveis de Will Eisner, Craig Thompson e tantos outros!

Fast Food: Os homens tem agregado algum valor ao feminismo em sua compreensão geral, aumentando o número dos entendem essa questão, mas muitos deles não enxergam que jamais poderão ser donos de uma razão que não é a deles, visto que não são eles que vivenciam essas situações. O que você tem a dizer para esses caras que se acham mais entendedores de feminismo do que as próprias mulheres?

Digo a eles que escutem. Que parem de falar, e escutem. O privilégio faz o privilegiado se sentir dono da razão, e querer sempre falar, ensinar e ser a parte “ativa” da troca de informações. Mas é preciso resistir ao impulso de falar e escutar calado, ser “passivo” por um tempo. Escute, entenda. Só depois de compreender o que as mulheres estão falando eles vão conseguir construir conceitos sobre o tema livres da bagagem do privilégio. Isso é importante, mesmo que não seja muito agradável pro próprio orgulho. É possível, eu fiz isso. Comecei a acompanhar várias páginas de pessoas negras falando sobre racismo. Todo dia eu via alguma coisa nova sobre o tema no meu mural. E eu lia, lia os comentários e ficava quieta, nada de sair respondendo. A mesma coisa com páginas/blogs/pessoas trans* e com deficiência. É um trabalho diário que nunca tem fim. Todo dia eu percebo coisas nas quais eu nunca tinham pensado, simplesmente porque estava tão longe da minha realidade. É preciso aproximar. Tem que entender a dor do outro antes de sair minimizando e invalidando a luta alheia. Se o cara conseguir fazer isso, acredito que ele tenha muito a contribuir para o feminismo.

Fast Food: E para as meninas que apoiam o machismo, vítimas de um condicionamento milenar, qual a sua mensagem?

A mesma coisa. Escutem mulheres que sofrem com o machismo, veja o depoimento delas todos os dias. Leia também o que as mulheres que já se consideram feministas tem a dizer. Ouçam suas irmãs. Não precisam concordar com isso, não é este o ponto. O importante é se dispor a enxergar por um novo ponto de vista. Conheça o que o movimento realmente propõe, conheça todas as vertentes do feminismo, que não é um movimento uniforme. Ouça e entenda, antes de brigar. Alguns feminismos lutam pela escolha, para que a mulher faça o que quiser. Mesmo se ela quiser ser dona de casa. Ninguém quer obrigar mulher nenhuma a seguir um estilo de vida que não a agrade.

Fast Food: Para finalizar nossa entrevista: qual teu Fast Food favorito?

O que estiver na minha mesa! 😀

Fast Food: Tem algum Fast Food que você saiba a receita e possa passar para os nossos leitores?

Serve Café com Chocolate? Hahaha! Duas xícaras de design, uma de criatividade, três colheres de sopa de vontade de experimentar coisas novas, duas colheres de bom humor, duas colheres de café e uma pitadinha de bom senso. Chocolate à gosto (dica da chef: quanto mais cacau melhor!). 🙂

 

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