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08Marcell:

Assim como qualquer outro, cresci num ambiente heteronormativo, aquele que considera somente a heterossexualidade como natural e sadia. No nordeste, o “cabra macho” me era constantemente cobrado. Aqui no sul, o “gaúcho barbaridade”. Não me tornaria nenhum deles. Na verdade, lutava de todas as formas para fugir dessas amarras que transformavam meus afetos e desejos sexuais numa infração pecaminosa.

Com a puberdade, evidentemente, esses desejos foram ficando cada vez mais fortes, porém preferi guardá-los num armário um tanto inesperado: o mundo da cultura pop. Fingia não sentir interesse por nada (inclusive sexual) além das minhas séries, filmes, livros, animes e sobretudo quadrinhos. O que não esperava é que os quadrinhos (em especial os mangás) me ensinariam a me empoderar, a ampliar meu olhar sobre o mundo e, por fim, minha sexualidade. De tal forma que, atualmente, estudo gênero e sexualidade e suas representações nos quadrinhos. Tanta coisa e desejos guardados por tanto tempo que, aos 17 anos, tudo aconteceu numa só noite: meu primeiro beijo, primeiro namorado e primeiro sexo.

Quando saí do armário para minha família no ano seguinte, aos 18, lembro que umas das primeiras perguntas feitas pela minha mãe foi: você vai começar a se vestir de mulher? Naquela época eu neguei, afirmei que ser gay nada tinha a ver com ser mulher (e não tem mesmo, já que sexualidade e identidade de gênero são aspectos bem distintos), mas hoje, aos 25 anos, percebo que fiz aquela afirmação apenas para me desassociar da figura da gay pintosa ou afetada, aquela que transborda traços de feminilidade. Reflexo daquelas amarras. Diria que o afastamento dessas figuras gays ainda é, infelizmente, não só um retrato  homofóbico e misógino do imaginário coletivo da sociedade  em geral, mas também da comunidade gay brasileira. Está enraizado que, para ser um “gay de bem”, é preciso seguir os padrões esperados de masculinidade e virilidade, sempre mantendo sua homossexualidade entre quatro paredes. É preciso trazer nossas expressões (homo)sexuais à tona, de todas as formas, e não abaixar a cabeça para essa higienização da nossa sexualidade.

 

07Maurício:

Desde minha saída do armário, nunca tive muitos problemas com terceiros devido a minha sexualidade. Tanto família quanto amigos e colegas de trabalho me aceitaram muito bem. O único tipo de homofobia que sofri foi de mim mesmo, aquele pequeno monstrinho que vamos criando desde criança ouvindo como homens devem ser e se comportar. Apenas lá pelos meus 14/15 anos que fui ter o entendimento de que eu era gay, que sentia atração por homens. Desde então foi uma luta constante para tentar “reverter” essa situação. Foi nessa mesma época, durante a adolescência, que eu e Marcell nos conhecemos. Nós dois estávamos no armário ainda e nem sonhávamos que hoje estaríamos juntos. Claro, pois o machismo, irmão do mesmo ventre da homofobia, era (e ainda o é) bastante grande dentro da comunidade nerd, então era sempre aquele constante fingimento para (re)afirmar minha suposta heterossexualidade. Foi somente aos meus 21 anos que finalmente me aceitei; aceitei quem eu era e que não há reversão para minha sexualidade. Foi nesse período também que comecei a namorar o Marcell e decidi me assumir publicamente.

Quanto a minha introdução ao mundo nerd, ela não teve ligação direta com minha sexualidade. Desde muito pequeno sempre fui viciado em computador e vídeo-games, além de devorar as revistinhas da Mônica. Mas vejo como hoje está se abrindo um espaço maior para a discussão da (des)igualdade de gênero e sexualidade dentro dessa cultura pop, que eu não via na minha adolescência, o que fez muita falta para mim, pois certamente eu poderia ter me aceitado muito mais cedo se tivesse lidado com a diversidade sexual de outra maneira, por isso a importância de uma representatividade plural nesse espaço.

 

Ensaio (clique nas fotos para ampliar):

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Fotografo:

Matheus Mignoni.

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