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A polêmica em torno do comercial da Bombril não pareceria ridícula se não tivesse surgido do mesmo planeta em que mulheres são hiperssexualizadas e inferiorizadas na publicidade há eras. Nesses milhares de casos, não demoram a dizer que tudo não passa de falta de humor e rola por parte das feministas que os denunciam, no entanto, quando são os homens que são chamados de lerdos pela cantora Ivete Sangalo e pelas humoristas Monica Iozzi e Dani Calabresa, aí há “discriminação de gênero” e “deboche”.

Para quem não está inteirado, no novo comercial da Bombril, as famosas dizem que as mulheres nasceram para “brilhar”: “A gente arrasa no trabalho, faz sucesso o dia todo e ainda deixa a casa brilhando. É por isso que toda brasileira é uma diva”, diz Ivete Sangalo. Então, as três dizem que, quando se trata de homens, “não dá nem pra comparar”, pois “esses aí, nem com todos os produtos da Bombril pra ajudar na casa”. Dani Calabresa, então, discorda e diz que dá sim para comparar: “Toda mulher é uma diva, todo homem é divagar [devagar]“.

Rindo por dentro

Rindo por dentro

Em primeiro lugar, registro aqui a minha aflição por imaginar um monte de profissionais em reunião aprovando uma propaganda lixo dessas e ganhando um salário melhor do que o meu. Em segundo lugar, a figura da “supermulher” – a que trabalha, a que faz sucesso, a que deixa a casa limpíssima, a que é ótima mãe, a que é um arraso na cama, UAU! -, apesar de ser apresentada como um lugar de resgate de orgulho e confiança infinitos, é, na verdade, um discurso a partir do qual se atribui à mulher responsabilidades desiguais com relação às assumidas pelos homens, particularmente no tocante aos dilemas familiares referentes à renda, à distribuição dos afazeres domésticos e à criação dos filhos e filhas. É por isso que – e aí entra meu terceiro apontamento sobre o comercial – fala-se de homens que “ajudam [ou não] na casa”.

Repitam comigo: os homens não têm de ajudar na casa, eles têm de dividir as tarefas em casa. Quando chamamos de “ajuda” as atribuições dos homens às atividades domésticas e criação da prole, assumimos que essa é, antes de tudo, uma responsabilidade da mulher e não uma responsabilidade de ambos. Essa racionalidade que se distribui sobre as relações de gênero explica, por exemplo, porque mulheres bem sucedidas profissionalmente são frequentemente questionadas, em entrevistas, apenas sobre sua aparência, roupas, relacionamentos amorosos e projetos de maternidade, tendo suas atividades profissionais totalmente ignoradas. Explica, também, porque um homem é venerado ao assumir a guarda das crianças ou ao criá-las sozinho, ao que se assume que as mulheres, na mesma situação, não fazem mais do que sua obrigação.

Monica: Tem uma Sra. Stevens?

Mr. Stevens: Não, infelizmente a mãe de Liz faleceu logo após ela nascer. Eu a criei sozinho.

Monica e Phoebe: OHHHHH!

Atualmente, de acordo com pesquisa do IBGE de 2007, as mulheres ainda dedicam mais de 23 horas a afazeres domésticos, enquanto os seus parceiros despendem apenas 9,7 horas. De acordo com a pesquisa realizada pela Plan recentemente, a jornada dupla das mulheres começa já na infância. O estudo ouviu mais de mil e setecentas meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e 81,4% delas relatou que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades é longa…

Como já mencionado, o comercial polemizou não em razão do que coloco em discussão, mas em razão da reclamação dos consumidores homens, que afirmam estar ofendidos com as mensagens. O fuzuê foi tamanho que estimulou a abertura de um processo de investigação pelo Conar (Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária) contra a marca Bombril. Vale lembrar que o processo se dá pelo fato de os homens estarem ofendidos, e não as mulheres, e que o processo é contra a marca Bombril e não contra as trocentas propagandas machistas que a gente vê por aí. Em um dos comentários deixados no vídeo do comercial da marca no YouTube, um consumidor diz que “faz supermercado”, “ajuda na limpeza” e que, por isso, “não vai mais comprar produtos da Bombril, pois ela o chamou de ‘divagar’”. Vejam, gente, que exemplo de homem. Ele até ajuda em casa!

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  • Chris

    Muito boa a análise. A publicidade não mede as consequências, e algo está errado no mundo quando um publicitário pensa que é humorista e passa a redigir “campanhas engraçadas”. Sobretudo, é um comercial mal feito, mal dirigido, e que passou longe dos objetivos da marca Bombril. O tal conceito de família Doriana já não deveria existir mais, todos são responsáveis por cuidar da família, independente do gênero. Adorei o texto, Mariana.