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Dia 10 de maio nos trouxe a perda de um dos maiores atores brasileiros, seja no teatro, novelas ou cinema, o pacato e tímido paulista mais mineiro que já existiu, era unanimidade por onde passava.

Na data de sua morte depois de compartilhar a “nota de rodapé” da Rede Globo acerca do fato, acabei recebendo como indicação do Facebook (o olho que tudo vê) informações sobre seu último e premiado filme: Comeback.

Quando o pôster me foi jogado na timeline com aquele título em inglês, pensei: claro que esse é o título internacional do filme. Havia um link para o trailer, cliquei e me deparei com uma possibilidade de história excelente, visto que me interesso muito pela violenta cultura dos matadores de aluguel brasileiros.

Todavia, durante o trailer, me dei conta de que aquele título não era internacional, mas sim nacional também. De forma pouco natural a palavra comeback brota no meio dos diálogos do pistoleiro vivido por Nelson Xavier, e não que ele não fale bem o inglês ali exigido, mas a palavra é intrusa, estranha, não casa com a cultura ali empregada.

O primeiro comentário na postagem da página da produtora O2 é de um senhor, consumidor de velho oeste, que questiona o porquê do uso de uma palavra de origem inglesa. A resposta da O2  é a seguinte:

A O2, em sua resposta (até boa), presume que o senhor em questão não saiba o que é velho oeste, ou faroeste, coisa que ele deixa claro conhecer no comentário que vem depois dessa resposta. Até porque, o consumo desse tipo de produto para pessoas na faixa etária desse senhor era absurdo. Tex, por exemplo, era a revista em quadrinhos da maior parte dos brasileiros e segue sendo uma das mais vendidas no país até hoje. Presumiram, portanto, a ignorância desse senhor.

E não, o termo comeback não é uma “CLARA REFERÊNCIA” ao velho oeste, nem de longe. Ademais, nossos matadores de aluguel – violentos, impiedosos, frios, habitantes de Minas, Goiás, Norte e Nordeste desse país – têm suas próprias histórias pra contar, nós temos nosso próprio “velho oeste”. E não vejo no trailer do filme, também, nenhuma “clara referência” ao velho oeste estadunidense. O que eu vejo sendo vivido por Nelson Xavier é o típico assassino brasileiro.

No comentário abaixo, uma menina (que usa a bandeira do Reino Unido na capa do Facebook), chamando o senhor que provocou o debate indiretamente de “gurizada”, louva a resposta da O2. Faz sentido o que ela diz, que o cinema nacional é desvalorizado, tão desvalorizado que recorre ao uso de língua inglesa para tentar ascender ao mercado externo, quando esse uso deveria vir só num segundo momento (assim que ele saísse para esses circuitos). Na verdade, nesse caso, o mercado externo é priorizado.

A língua, minha gente, têm poder. Tem poder de segregar a “gurizada” que escreve seje da que escreve seja, mesmo que as duas “gurizadas” transmitam a mesmíssima ideia. A língua tem poder de enfraquecer a cultura de um país que nem de longe tem o inglês como mais falado, invisibilizando o que é, de fato, nacional.

Português e todas as suas variedades regionais, todas muito distantes da norma padrão, e mais distantes ainda da norma dita culta, como o mineirês, o baianês, o gauchês, o paulistano, o catarina, o nortista… É tão rico em terminologias quanto qualquer língua estrangeira que bata o pé em nossa porta querendo nos colonizar. Você por acaso imagina um caipira, um sertanejo ou um gaúcho das grotas falando que vai “fazer um comeback“? Você imagina um matador de aluguel brasileiro, considerando que nossa educação é tão precária que nem o direito a norma padrão do português alcança todas as pessoas, falando que vai “fazer um comeback“? Nós temos palavras para isso!

É, pra dizer o mínimo, ridículo. É o contrário do que a moça do comentário disse, pois trata-se de uma desvalorização de nossa cultura, consequentemente uma desvalorização do nosso cinema.

Não sei realmente quem tomou essa decisão torta, se o diretor/roteirista Erico Rassi, ou a produtora O2. De toda forma, é uma decisão errada, especialmente se veio da produtora que é conhecida por nada menos que Cidade de Deus, considerado por muitos um dos 10 maiores filmes do cinema. Seu título nacional era em português. “Ah, mas é o nome da comunidade”, alguns poderiam argumentar. Pois então peguem outros sucessos brasileiros como Tropa de Elite 1 e 2: ninguém precisou de título em inglês no território nacional para sobreviver no cenário mundial.

Penso se essa decisão passou pelo proprietário da produtora Fernando Meirelles, porque, se passou, causa mais espanto ainda. Se queremos valorizar nossa cultura, nosso país, nosso cinema, é preciso considerar e muito a força da língua nas diversas camadas sociais e como ela é ferramenta forte para discriminar.

Será que o sertanejo ou caipira que poderiam se interessar em assistir a Comeback numa pequena sala de cinema precária no interior desse brasilzão vão se atentar a esse título importado? Pra quem é direcionado um cinema que trás pra dentro do nosso país um título em inglês? Fica aí a reflexão.

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