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Talvez você ainda não tenha visto, mas um vídeo postado por uma mãe nos Estados Unidos têm comovido muita gente. Artistas de vários nichos postando mensagens de apoio a Keaton Jones que, no vídeo, diz não entender o porquê de ser vítima de bullying, ele diz, inclusive, que as pessoas são diferentes e não deveriam ser criticadas por isso. E ele está certo. Mas é aí que vem o problema.

Keaton Jones, tem sim uma grande possibilidade de ser vítima de bullying, visto que tem condições, acredito eu causadas por lábio leporino, que deformaram nariz, boca, arcada dentária e consequentemente fizeram ele ter um problema na fala. Ele foge de padrões de beleza preestabelecidos, portanto. Acontece que informações de toda internet agora dão conta de que a mãe da criança não está assumindo a responsabilidade da família na questão: eles são supremacistas brancos, são racistas.

Keaton ao lado de outras crianças, uma delas armada, segurando a bandeira dos Estados Unidos e a confederada.

Fotos retiradas de comunidades sociais e, também, posts da mãe de Keaton, indicam que a mensagem que ele, uma criança em formação, vem recebendo em casa, pode, talvez sem que ele perceba e saiba, fazer com que na verdade ele seja o “valentão” da história, e que as outras crianças simplesmente reajam ao que ele fala para elas. Em complemento a isso, conforme foi revelado, a palavra utilizada por Keaton para se dirigir a crianças pretas de sua escola é a conhecida “N word”, nigger.

Nigger tem ligação direta com o racismo, a escravidão e o neo nazismo nos Estados Unidos, era a palavra designada para descrever os escravos negros do baixo escalão (vejam bem), e é extremamente ofensiva para o povo preto daquele país. Na definição dada a palavra por pessoas brancas, nigger é uma pessoa sem valor social, parte da escoria da humanidade, alguém estúpido, ignorante, insolente, fétido… Acho que já deu pra entender onde quero chegar aqui, não?

Assim como as pessoas pretas do Brasil têm tentado ressignificar/reapropriar a palavra “preto”, nos Estados Unidos ocorre o mesmo há anos com a “N word” (muito embora a “N word” tenha, num contexto histórico, uma gravidade muito maior por trás de seu uso). Mas, assim como aqui, a conotação e a forma com que a palavra é usada, podem, ou não, incorrer em racismo. E, na minha opinião, é bem fácil de enxergar quando isso ocorre. No caso da “N word”, se você é branco você não deve fazer uso, simples assim. Aqui no Brasil isso ocorre muito quando nós brancos, por exemplo, em ambientes de trabalho, renomeamos pessoas pretas de “negão”, ou “jamal”, e por aí vai. Não faça isso, simples assim.

As questões sobre o suposto bullying sofrido por Keaton se inflaram quando as duas fotos da família que estão nesse post foram descobertas, e há uma série de outras tantas que foram retiradas das comunidades sociais da mãe do garoto (que deletou seus perfis, será por quê?). Algumas delas foram captadas logo após os fatos decorridos em Charlottesville, onde uma manifestação não apenas do movimento Black Lives Matter (Vidas Pretas Importam), mas também de várias instâncias do movimento LGBT, foi atacada pelo movimento Unir a Direita.

O Unir a Direita contava com aquela galera gente boa da KKK (Ku Klux Klan), outras vertentes da supremacia branca como a Identity Evropa (que defende a herança europeia pura (te lembra de algo?)), o pessoal armamentista branco, a galera homofóbica, transfóbica, lesbofóbica… BRANCA, e que foram preparados para um conflito. Segundo informações do governador do estado da Virgínia, eles carregavam consigo armamento e equipamentos de defesa muito melhores que o da própria polícia (corporação essa que vêm cometendo racismo, frequentemente, em abordagens, matando e prendendo pessoas sem a menor razão, como aqui, no Brasil).

Kimberly Jones, mãe de Keaton, ao lado de um homem segurando a bandeira confederada.

Essas manifestações ocorreram em Charlottesville por causa do anúncio da retirada de uma estátua de General Lee do centro da cidade. Lee foi um general confederado que lutou comandando os sulistas na guerra civil estadunidense em favor da continuidade da escravidão e, também, do separatismo da região, em busca de formar duas nações. Essa separação chegou a ocorrer quando o representante do Partido Republicano no norte, Abraham Lincoln, foi eleito presidente, sendo os Estados Confederados da América, no sul, governados por Jeffersson Davis. O norte converteu suas indústrias em fábricas de armas e, mais preparado, venceu a guerra (contando com milhões de escravos dispostos a lutar pela liberdade), o sul não foi separado e a escravidão foi abolida (assim como no Brasil muito mais por interesses mercadológicos do que por qualquer empatia da burguesia branca).

Durante o encontro entre manifestantes, um supremacista branco avançou com seu carro e atropelou diversas pessoas dos movimentos anti-fascismo, anti-rascismo, anti-homofobia, anti-tudoqueoTrumpprega… Tendo deixando 19 pessoas feridas e 1 pessoa morta. Portanto, são bastante significativas as questões levantadas pelas pessoas que dizem que quem de fato é o bullier é o garoto. Não um bullier comum, mas sim uma criança que traz de sua casa a normalização de descriminações que para outras pessoas são caras.

E não pense que não, crianças pretas sabem o que é racismo, elas precisam saber, elas precisam saber como se comportar desde pequenas numa sociedade que pode, a qualquer momento, matá-las ou agredi-las de forma violenta por causa da cor de sua pele. Elas precisam ter noção, desde pequenas, sobre como se portar numa batida policial, o que é absurdo. Então elas sabem, definitivamente, quando estão sendo agredidas por causa de sua cor por um colega na escola e, certamente, vão combater.

Sendo assim, como muitos levantaram, o bullying sofrido por Keaton cai na terra do suposto, haja vista que ele pode estar sofrendo uma reação causadas pelo racismo (e qualquer outra discriminação) que ele leva de uma casa supremacista para a escola e acha ser correto. É preciso recordar que em caso recente, aqui no Brasil, uma criança matou colegas com uma arma por dizer que sofria bullying, para os/as colegas essa mesma criança se descrevia como sendo nazista.

Nós precisamos sim revisar as informações e educação que estamos passando adiante, porque elas podem causar sofrimento tanto para nossos filhos, quanto para os filhos de outras pessoas. Uma criança que apanha como suposta forma de corretivo vai normalizar, no presente ou no futuro, a violência; uma criança que ouve que pessoas pretas são nojentas e inferiores vai normalizar, no presente ou no futuro, o racismo. Elas são pessoas sendo formadas. São pessoas que podem revisar esses pensamentos? Sim, eu mesmo revisei uma série de coisas que o meio me fazia repetir, mas há uma chance pequena disso ocorrer porque nós geralmente continuamos inseridos naquilo a vida toda.

O vídeo de Keaton pode ser comovente, mas às vezes é preciso ouvir o outro lado da história.

Fontes:

N. word? O que é afinal?

Isso foi o que realmente aconteceu em Charlottesville, EUA

Keaton Jones’ Mom Accused of Racist Facebook Posts, Deletes Profile

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