Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
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Eu via a mim mesmo naquela cena cliché em que um escritor encara uma folha em branco sem que nada aconteça. Com todo o meu sarcasmo engatilhado e a minha careca preta reluzindo como uma bola de cristal na tela do computador. Então, das profundezas de minhas entranhas, ressurge aquele sentimento visceral de quando assisti à senegalesa Fatou Diome fodalizando (mitando, para os bolsonetes) naquele programa francês pela primeira vez e senti que estava sendo muito bem representado. Assistindo novamente, eu ainda sinto como se todo aquele coquetel de emoções ainda surtisse efeitos irascíveis sobre mim. Botemos, então, o dedo na ferida dolorida: e lá estava eu, no home office britânico. Sendo interrogado pelo educado Oficial de Imigração. Não lembro o nome, mas deveria. Ele foi um gentleman (sem sarcasmo). Ele me chamava de “Sir.” e nunca alterou sua voz, sorria constantemente e conversava civilizadamente. Ele falava “por favor” e “com licença”. Meu emocional não estava habituado a estes luxos e regalias. Fui bem adestrado pela Polícia Militar de São Leopoldo. Era “O que tu tá fazendo nessa rua / na frente dessa loja / olhando para aquele carro / parado aí / com esse dinheiro no bolso / com esse livro na mão?”.

Os esculachos começaram aos dez, tipo um estágio. Aos treze eu já tinha Pós em paredão. Eu era, sim, Doutor em humilhação e PhD em esculacho. Eu entendo, nada pessoal. Era o processo de desumanização. Eles precisavam repetir aquilo constantemente até que eu compreendesse que não devia ficar caminhando no centro da cidade, perto das escolas boas, dos condomínios classe média. Eles estavam me escondendo alguma coisa. E eu sabia o que era. Então “não esquecer a carteira de identidade” era um procedimento de auto preservação. Cresci em um “bairro branco”. Meus amigos podiam andar com estilingues e canivetes pelas ruas do bairro e apertar as campainhas das casas e correr. Eu achei melhor não. Desenvolvi estes mecanismos automaticamente. Sem perceber. Aquele processo contínuo a que fui submetido acabou me fortalecendo, mas não ousem me usar de exemplo de meritocracia só porque a dor me fortaleceu e você quer dormir em paz com a sua preguiça social. Encontro ex-colegas de escola que cederam ao processo. Nos sinais de trânsito, embaixo dos viadutos, guardando carros pelas ruas, mortos antes de chegar aos trinta. Mas isso é uma outra história… Permitam-me “fechar esta aba”.

Detido na imigração, eu olhava para os lados e a cada cinco minutos entrava um africano. Duas horas depois, éramos como a escalação da seleção da Nigéria. Eu estava esperando que nos distribuíssem camisetas com números. Ou nos enfileirassem em degrade, começando pelos mais escuros. Todos africanos de países diferentes. Menos eu. Eu, além de negro, sou latino. Abram alas para o duplamente fodido passar. E fui o único detido naquele voo que saiu de São Paulo e desembarcou no Heathrow. Não detiveram o cara nervoso que suava frio e nojento cheio de óleo na testa, nem o outro que fedia a asa e olhava para os lados, assustado. Então, olhando para os africanos, eu entendi. Estava nas entrelinhas. E não importava que eu fosse fluente em inglês e conhecesse nomes de ruas e rotas de ônibus que o Oficial não conhecesse em sua própria cidade natal. Não importava que amigos franceses e suecos estivessem lá esperando por mim. Que eu tivesse todas as minhas malas reviradas em vão e ele próprio tivesse manuseado meu livro do William Blake na minha frente e mencionado a boa leitura após elogiar o meu inglês. Que eu fosse assimilar a cultura do país dele em velocidade recorde, gostar de feijão doce, apimentado e gelado, trabalhar duro, pagar impostos e movimentar a economia. Tudo isso sem querer explodir a Majestade com todos aqueles diamantes repletos de sangue africano isento de impostos e toneladas de ouro indígena. Mas o nosso sangue é bem-vindo. Desde que não queiramos dividir a sociedade que nós financiamos com nossas almas.

Então eu lamentei que estas leis de imigração tão exigentes não tivessem sido aplicadas contra os seus aplicadores em um passado distante. “- Ancore seu navio ali no porto, nada de armas. Você parece doente. Por que tem tantos ratos nestes navios? Seus dentes estão se decompondo, mantenham as bocas fechadas. Façam uma fila para o banho obrigatório. Os imigrantes com ficha criminal naquela fila, e estas mulheres? Não queremos prostituição por aqui. O que vocês faziam na Europa? Por que vieram para cá? É a primeira vez que vocês vêm para cá? Vocês estão matriculados em algum curso? Não queremos ninguém com sotaque estrangeiro daqui a quinhentos anos, quero que assimilem a cultura e a língua local. Não é permitido trabalhar mais do que 20 horas por semana, não quero ninguém roubando empregos por aqui, muito menos matando, saqueando, invadindo terras, se apropriando, estuprando, enganando, escravizando, pregando e formando guetos e comunidades por aqui. Uau! E aqueles animais acorrentados e feridos ali embaixo? O que são? Se parecem com pessoas daqui de cima, só que escuras. Por que estão em estado tão deplorável? Mão de obra? Certo. Preciso dos documentos de todos eles. Vocês pregarão capitalismo e meritocracia no futuro, então nada de mão de obra de graça. Paguem estes empregados. Precisamos de gente com qualificação profissional. Espelhos não são aceitos como corretagem por aqui. Pagamento somente em ouro…”

Ta dááá! Aqui estamos, na História do Brasil, “Bravos navegadores”, dizem os sambas enredo (sarcasmo apocalíptico).

Voltando à Fatou, ela deixou a plateia boquiaberta quando expôs a ideia de que os europeus nos classificam como “imigrante bom” ou “imigrante ruim”. E eles próprios se consideram acima de qualquer seleção desfrutando do mundo sem nenhum tipo de empecilho como se fôssemos um simples quintal exótico e colorido. Conversando com um senegalês tentando a sorte no mercado informal aqui no centro de São Leopoldo, eu percebi que ele já se comunicava em português satisfatoriamente. Então, percebi que ele falava inglês também. Conversamos bastante. Fiquei com ciúmes daquele sotaque. Mas então descobri que ele falava uma terceira língua. O francês. Ele vende bugigangas. Focando na capacidade de se adaptar e interagir, estes imigrantes recém-chegados já lotam a universidade da minha cidade natal. Gosto de ver minha cidade repleta de negros com livros (que não sejam bíblias) embaixo dos braços. Acho que eles vieram para nos ensinar alguma coisa. Não vieram para ganhar lotes de terra, nem sequer são bem quistos. Comparando aos europeus que chegaram aqui anos atrás e simplesmente se apropriaram de tudo de forma truculenta e gananciosa, não entendo a xenofobia brasileira. O que define um imigrante bom e um ruim? Sua etnia? Sua capacidade de adaptação? Comparando a imigração senegalesa e a europeia no meu estado, eu percebo que em tão pouco tempo os senegaleses mostram uma capacidade de se adaptar e aprender muito mais rápida do que os europeus. Considerando e comparando os benefícios que receberam ou deixaram de receber quando chegaram por aqui. Pois desamparados vendedores de bugigangas trilíngues que chegaram ontem merecem mais méritos do que engenheiros e médicos que herdaram todas as formas de benefícios acumulados por gerações passadas e em uma maioria esmagadora não são capazes de se comunicar em uma segunda língua.

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