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O filme brasileiro que derrotou Aquarius na disputa pelo Oscar tem tanta empresa privada por trás, que eu não sei se foi a comissão tendenciosa e reacionária que ajudou Pequeno Segredo nessa (bem como o “novo” MinC), ou esse outro fator. A resenha do filme na Folha, veja bem, NA FOLHA, diz um pouco sobre a absurda escolha: “Clichê, Pequeno Segredo é dos piores filmes brasileiros recentes”.

O diretor David Schurmann se defende da “politização” que se misturou e invisibilizou a escolha do seu trabalho, mas não há como se defender, os fatos se misturaram, vimos a comissão que decidia o filme se desfazer por descontentamento acerca de algo vindo de dentro das catacumbas dos responsáveis pela escolha. Vários declinaram e tiraram seus nomes da lista da balada meia boca que estava por vir, ninguém quer curtir festa ruim. Aquarius é considerado um fenômeno cinematográfico brasileiro, e sofre sansões governamentais, com direito a censura através de uma classificação 18+ (baixou pra 16, que também é um erro), desde que surgiu em Cannes com protestos contra o golpe parlamentar que o país viria a sofrer.

E a atriz Julia Lemmertz também entra na defesa, diz que o filme não é o inimigo, e definitivamente não é, não o vimos, mas quem viu disse que não é bom o suficiente para concorrer com Aquarius. Bem, o Oscar é manipulável, bem como essa vaga, então vai saber, né? Já Aquarius, seu protesto, sua história, a atuação de Sonia Braga e sua passagem louvada e premiada por circuitos, ficam para história do cinema nacional.

O critico Pablo Villaça, por exemplo, disse ainda ontem no Twitter que Aquarius seria nossa maior chance na premiação desde Cidade de Deus, que é frequentemente considerado um dos 30 melhores filmes da história do cinema mundial. Não estamos falando, portanto, apenas de política, estamos falando de qualidade e de justiça.

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Mas de que trata Pequeno Segredo? Lembram daquela família de ricaços que velejava mundo afora e tinham uma série que era transmitida na Rede Globo em um quadro no Fantástico? A Família Schurmann? Pois é, não bastando aquele desinteressante simulacro de Discovery Channel, onde éramos forçosamente convidados a embarcar nas aventuras que jamais teríamos, agora temos que conviver com a realidade onde o filme sobre essa mesma família caga na possibilidade de reconhecimento internacional do cinema do nosso país (mas: “Money talks!”). O diretor, por sinal, é da família Schurmann, caso vocês não tenham notado, foi ele que guiou todos os trabalhos deles. A produtora leva o nome da família também! Salve salve egocentrismo!

Se estou exagerando? O livro Pequeno Segredo está com descontos absurdos nas livrarias Cultura (R$24) e Saraiva (R$11), e em nenhuma delas ele tem avaliações dos clientes (deve desencalhar agora, que alegria, né família?). No Submarino, outro líder em vendas no país, o preço é mais alto (R$35) e constam apenas 5 avaliações de clientes acerca do produto (são boas, o livro deve ser bom, rico velejador tem que ter muita história pra contar e tem que saber escrever bem, é o mínimo que se espera).

Espanta ainda que nenhum documentário da família tem avaliação que beneficie o trabalho de cinematografia deles, o trailer do filme, inclusive, é sofrível. Tomadas de câmera péssimas, edição e fotografia duvidosas, e atuações ruins de parte do elenco em cenas curtas, imagina no todo, e que diálogos vazios:

Aquarius, por outro lado, foi premiado com a Palma de Ouro no festival de Cannes; ganhou o prêmio especial do juri no Festival Latino Americano de Lima; foi premiado no Festival de Cinema de Sidney; ganhou o Festival de Cinema de Amsterdam; e será incluído no catálogo global da Netflix (com exceção de alguns países como China e outros que estão em negociação).

Além disso, o filme tem nota 8.5 no Metascore, que reúne as notas de todos os sites de critica especializada do mundo, e a comissão que não o escolheu teve a cara de pau de dizer que Pequeno Segredo, essa história de uma família abastada que veleja pelo mundo, tem mais perfil para concorrer a premiações no exterior.

“Ah, Paulo, mas Pequeno Segredo conta a história com base na filha adotiva deles que tem uma doença incurável, seja mais sensível”, ai que bonito os ricos adotando criança doente, vamos bater palmas! Quanta família no morro não tem criança adotada e morrendo todo dia, né Angelina? Mas tá bom, quanto mais gente adotando melhor, eu apoio e faço votos, já tem gente demais no mundo.

Em suma, é o filme da elite branca que veleja mundo afora contra o filme da periferia brasileira que luta contra a especulação imobiliária. Um doce, não? Que retrato da nossa situação atual. E que deprimente que tenhamos que passar por isso. Vi num comentário uma pessoa dizendo que se houvesse decência abdicariam da vaga e deixariam Aquarius onde deveria estar, mas alguém pensa que o diretor da família que veleja, filho da escritora do livro da família que veleja, dono da produtora da família que veleja, fará isso? Jamais! Ele disse, como já disse a comissão, que acredita que o filme “conversa melhor com o Oscar do que Aquarius“, claro, claro.

Incrível de tudo é ver um filme com produção da Globo Filmes perdendo combate, se bem que, em tempos sombrios, algo com o teor político que tomou, como Aquarius, é capaz de nem ter tanto apoio assim da própria financiadora. O “Pequeno Segredo” aqui é que: quem tem privilégio quer mantê-los custe o que custar.

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