Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
Quer ver seu nome aqui? CLIQUE e saiba como.


Há uns dias atrás, navegando rapidamente pela internet vi a notícia que o Paraná está recebendo uma onda imigratória de muçulmanos, atraídos há alguns anos pela oferta de trabalho de frigoríficos que exportam carne para países de fé islâmica. A carne consumida pelos mais aguerridos crentes dessa fé precisa ser abatida e cortada seguindo certas normas religiosas. O processo, ou o resultado, é chamado de halal (como para alguns judeus há o kosher). Caí no erro de ler os comentários publicados na página do Facebook do jornal que veiculou a matéria. Uma chuva de gente que usava seu perfil pessoal (ou seja: não eram perfis falsos) surgiu para gritar apenas uma coisa em uníssono: Terroristas, deixem nosso país! (e variantes, entre brados de morte e outras ofensas xenofóbicas e racistas, que normalmente andam de mãos dadas).

MesquitaFozDoIguaçuParanaBrasil

Mesquita em Foz do Iguaçu, Paraná.

 

Essa história toda me lembrou um vídeo. Um vídeo que sempre recomendo. Se trata da palestra da escritora nigeriana de origem igbo Chimamanda Ngozie Adichie, intitulada The danger of a single story (assista ao vídeo no fim do texto!). Nela, entre outras coisas, Adichie fala do perigo que há em se formar uma “história única” sobre determinados indivíduos ou grupos sociais. Os muçulmanos, em boa parte do mundo ocidental e agora no Brasil sofrem disso. Os que professam a fé do profeta Maomé estão confinados a uma narrativa única no imaginário social: todos são terroristas. Brutais e sanguinários. O que essas pessoas não percebem é que elas estão tachando dessa forma mais de um bilhão de seres humanos. Estão falando da segunda maior fé do mundo. Não há um bilhão de pessoas na linha de frente do autointitulado Estado Islâmico, da Al Qaeda ou do Talibã. Não há nada perto disso. Há diversos incontáveis indivíduos que nada tem a ver com esses criminosos. Há incontáveis pessoas que em nada apoiam o terror, o massacre, o assassinato de inocentes e demais atos horríveis. Mas, na mente do cidadão brasileiro que lê certos jornais e vê determinados canais de tevê, há apenas um modelo para essas pessoas: terrorista. Não há nuances, não há divergências, não há nada. Há apenas aquela fé que eles não compreendem (sequer sabem que Alá é Javé, o mesmo Deus ao qual eles oram, assim como o D’us dos judeus também é) e a narrativa de morte e terror.

Esse tipo de pensamento é perigoso. Esse tipo de pensamento, que conecta todo frequentador de mesquita aos assassinos que invadiram a sede da revista Charlie Hebdo é perigoso. É daninho. Nenhuma sociedade que se almeja democrática deveria ser conivente com esse tipo de associação. Querer barrar a entrada de trabalhadores e cidadãos por causa da sua fé, como bradam os internautas (e acredito piamente que essas vozes encontrem respaldo em nosso congresso) é desumano. O estereotipo corrói. As pessoas, por consumirem apenas aquela narrativa quanto àquele grupo, tomam tal história como verdade factual. Não há outra forma de ser muçulmano, há apenas o terrorismo. E é com pensamentos assim que vimos acontecer agressões a mulheres muçulmanas no Rio de Janeiro (o que levou a uma repórter a se ‘disfarçar’ de muçulmana e conferir as reações na rua). Na esteira do atentado, nas ruas de Natal, um amigo sikh também foi importunado, já que o estereotipo, a narrativa única, não consegue sair das generalizações. E a identificação visual é essencial: se usou algo diferente na cabeça, é muçulmano, é terrorista, é inimigo.

Kamala Khan, a nova Ms. Marvel!

Kamala Khan, a nova Ms. Marvel!

Em 2014 a Marvel decidiu que a heroína que carrega o nome da editora seria uma garota muçulmana. Os fãs da Miss Marvel e da editora foram a loucura. Como poderia uma terrorista ser uma heroína da minha editora favorita? E, até agora, a editora não arredou pé da decisão, com uma série que vem sendo bastante elogiada. Acho de extrema importância que a dita cultura pop se posicione em temas assim. E que cada vez mais personagens fora do padrão apareçam e possam fugir dessa linha da história única. Se há apenas uma representação sobre esses grupos na tevê, nos quadrinhos, nos livros e nos filmes, as pessoas a tomarão como verdade, sem questionamentos. Como andam fazendo. Lembro que na novela Amor à vida, que gerou muito debate pela coragem de exibir um beijo entre dois homens no horário nobre da maior emissora do país, havia um personagem muçulmano que era… um ex-terrorista. Como o personagem não caiu nas graças do público sequer lembro o seu destino, mas ainda fazia parte daquela narrativa única, como já citada. Modificar essa visão é essencial, mesmo em um país com uma população muçulmana pequena como o nosso. Compreender as diferenças e aceitá-las no seio de nossa sociedade é um dos mais importantes passos para a nossa democracia. Espero que modifiquemos essa armadilha da história única e que possamos perceber toda a complexidade desses grupos e indivíduos. Termino repetindo a saudação muçulmana: Salaam Aleikum, que a paz esteja sobre vós. Pois, certamente, precisaremos.

 

Achou nossa mensagem importante e quer que ela chegue em mais pessoas? Ajude o Fast Food Cultural a crescer, seja um financiador! Você pode contribuir com o projeto através do Patreon ou Apoia.se, acesse os links, confira nosso vídeo, nossos objetivos, leia outros textos nossos e faça parte da nossa família.