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Por que o mundo anda tão chato? E por que os negros estão protestando tanto? E por que só agora? Bem, o discurso épico de Chris Rock na abertura do Oscar já te dá a dica: “Antes nós tínhamos coisas sérias para protestar, estávamos muito ocupados para pensar no Oscar. Quando o corpo da sua avó está balançando em uma árvore fica difícil se importar com quem foi indicado para o melhor curta estrangeiro…” Bem, o acesso aos direitos básicos melhoraram um pouco desde aquela época.

Falando em representatividade, estamos putos da vida. Cansamos…  É desconcertante o egocentrismo e o narcisismo branco na literatura e no cinema. Então africanos em histórias bíblicas são loiros, o Príncipe da Pérsia é descendente de suecos, e egípcios são um bando de italianos com fantasias de carnaval. Nina Simone vira uma “africana suave”.  Tudo porque os cineastas brancos precisam reescrever a história do mundo de uma forma que lhes agrade. Que lhes represente. Que lhes inclua.

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Uma indústria saudosista pelo blackface encontrou uma forma semelhante de representar personagens de outras raças com atores brancos. Não basta que roteiristas e escritores criem personagens com características diferentes e multirraciais seguindo o exemplo de Suzanne Collins em Hunger Games. A indústria do cinema vai adaptar aquele personagem para que ele seja interpretado por algum ator ou atriz branco ou branca, vai suprimir a diversidade ou vai inserir um artista branco com algumas características desta outra raça excluída. É sinistro e doentio ver Angelina Jolie fingindo ser negra, é tão assustador quanto ver a Vovó Mafalda tentando ser uma velha. E ver Elvis Presley de índio, Marlon Brando japonês, Mena Suvari negra. Não se preocupem, vocês explodirão em gargalhadas com a lista embranquecida que compartilharei. Sim, é pior do que parece quando você olha.

Então o assunto é muito mais grave do que ele parece ser, porque além de lutarmos pela nossa existência na literatura, no cinema e na arte, ainda precisamos lutar para que a indústria não transforme personagens negros, orientais, índios e outras raças  em personagens brancos. Existe, inclusive, um termo estrangeiro para essas práticas deploráveis: Racebending e Whitewashing.

Lembro entre gargalhadas do filme O Último Samurai. Os japoneses, mestres nas putarias de combate e estratégias militares, pedindo socorro e conselhos de guerra para um cowboy estadunidense matador de índios. Então o comedor de churrasco mata um dos samurais em um combate, se torna um deles, acaba sendo idolatrado pela comunidade japonesa, se tornando um dos melhores samurais em combate mestre das katanas, e a viúva do samurai que ele mesmo matou se apaixona pelo estrangeiro e a galera do clã super aprova aquela aproximação… (gargalhadas). Sério, é muito fetiche.

Mas quando é você que conta a história, você a conta como quiser. Muhammad Ali também já havia profetizado: “Por que todo mundo é branco? Jesus, os apóstolos, Maria, os anjos, Tarzan, o rei da selva, na África…, todos brancos! Ele bate em todos, nos africanos, nos gorilas, nos leões, ele fala com os animais… Os africanos vivem naquele lugar por séculos e eles não falam com os animais”. Nada de Goku japonês em Dragon Ball: Evolution. Admirável Mundo Novo. Poderia ser pior? Infelizmente, não poderia. Porque o tiro de misericórdia vem quando eles decidem nos representar. E aí vem o insulto, um atrás do outro. O negro sendo “o negro da história”. Sempre o mesmo estereótipo.

Quando criança ou adolescente, eu sempre me identificava com personagens aleatórios. Eu nunca me identificava com o personagem negro. E, até hoje, eu nunca me identifico com os personagens negros. Porque a maioria deles foram criados para serem superficiais, nenhum deles fazia as coisas que eu fazia, ou tinha os problemas que eu tinha. É como diz a Chimamanda Adichie: “estereótipos não são errados, mas eles são superficiais, você aplica a história de uma pessoa a um grupo inteiro como se eles fossem um só, e assim você os priva de individualidade. Isso é ruim, porque você acaba com a dignidade das pessoas.”

Perceba que os dramas de um personagem negro quase nunca são iguais aos de um personagem branco. Eu, por exemplo, também tenho dias bons e ruins no trabalho, pego o filho na escola, busco o carro na oficina, sou apaixonado por literatura e cinema, bebo umas e curto um Beethoven e Metallica. Às vezes uma Nina Simone. Vou à barbearia pra cuidar da minha barba modinha, me irrito com o trânsito, me irrito com os impostos, junto grana para terminar todas as minhas tatuagens. Assim como a maioria das pessoas. Não fico jogando sinuca no boteco da esquina olhando bundas sem perspectiva de vida, como você vê nas novelas escrotas na TV.

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Não quero ser exemplo de superações ou de citações de luta e persistência, como o seu João que pedalou pelo sertão por sete anos para se formar advogado. Você quer pedalar pelo sertão por sete anos para se tornar advogado? Claro que não. Nem eu. Queremos isso em circunstâncias democráticas. E isso não é possível sem representatividade.

Mas atenção! Não falo da representatividade do Miguel Falabella. Já cansamos de ser escrotizados e representados por brancos. Não queremos uma categoria BLACK no cinema. Um mundo cinematográfico paralelo onde só os negros vivem. Queremos nos ver como nós somos. É preciso mudar aquela concepção rasa, que nos limita, que nos escrotiza. Já sabemos qual é o conceito da indústria sobre o que nós somos. A televisão já mostrou o suficiente. Acredito que o sistema atual não tem capacidade de nos representar.  Eu sou o mesmo que outras pessoas com outras características físicas. Só isso. Não preciso da voz de terceiros para falar por mim, não preciso de licença. Não preciso de carimbos nem de selos de aprovação. “Ah, não, não acho que seja bem assim, acho um exagero”. Nos humanizar não é sobre o que as pessoas acham ou não acham, não é questão de opinião.  É sobre a dignidade de uma raça inteira que falamos. E a galera nem precisa gostar. Basta ser civilizado e respeitar.

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