Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
Quer ver seu nome aqui? CLIQUE e saiba como.


capa

Em comemoração aos 85 anos de idade de Ursula K. Le Guin, a Editora Aleph nos presenteia com uma nova edição do clássico de Ficção Científica A mão esquerda da escuridão, publicado originalmente em 1969. Incluído entre o movimento conhecido como New Wave – a “nova onda” da ficção científica, que buscava uma abordagem menos aventuresca e mais próximas da literatura mainstream, abordando temas sociais e certo experimentalismo literário –, esse é um dos mais importantes livros da autora e incluído quase sempre em listas de melhores de todos os tempos.

A história

Genly Ai foi enviado a Gethen com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal. Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. Nessa sociedade complexa, homens e mulheres são um só e nenhum ao mesmo tempo. Os indivíduos não possuem sexo definido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero, sendo essas as bases da vida do planeta. Mas Genly é humano demais. A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.

 

Impactante não? Eis a sinopse dessa obra que, em 1960, veio expandir os limites tanto da Ficção Científica (FC) quanto das discussões acerca de gênero na sociedade. Como mostra na introdução da obra, Le Guin pensa a FC não como apenas um meio de prever o futuro, e sim em refletir sobre o presente. Utilizando das ferramentas convencionais do gênero (aqui o literário), a autora desmonta toda uma tradição de se pensar o gênero como natural por meio dos habitantes do Planeta Inverno. Com a missão de convencer os governos deste planeta a fazerem parte da Ekumen, a federação galáctica, Genly Ai, o nativo terráqueo de pele negra (sim, temos um protagonista negro já nos anos 1960! Ponto pra Le Guin), acaba envolvido em jogos políticos e tramas muito maiores do que esperava encontrar. E é essa sua trajetória que iremos acompanhar.

História

100 pontos

Autoria

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin nasceu nos Estados Unidos em 1929. Multipremiada, foi recentemente agraciada com uma das maiores distinções literárias do país, a Medal for Distinguished Contribution to American Letters pela Fundação nacional do Livro, além de outros mais de cinquenta prêmios, incluindo o Hugo e o Nebula, dois dos maiores prêmios de FC, por A mão esquerda da escuridão. Com formação acadêmica em Literatura, é uma das expoentes do já citado movimento New Wave, junto de Philip K. Dick, Samuel R. Delany e das autoras James Triptee Jr. e Joanna Russ. Le Guin também é autora de outras grandes obras, como Floresta é o nome do mundo e Os despossuídos, além da influente série de fantasia “Contos de Terramar”.

 

 

Análise e Impressões

Inovador, transgressor, um verdadeiro desafio, são termos que podem qualificar essa obra. A construção tanto geográfica quanto política do planeta Inverno é bela e intrigante, muito bem trabalhada. As questões sociais saltam aos olhos, principalmente pelas questões sexuais: todos os habitantes do planeta Inverno são assexuados, exceto em um período de alguns dias chamado de “kemmer”, onde cada um assume um sexo. Tanto que ambos os membros de um casal pode vir a ser mãe durante sua vida. Essa realidade molda de forma diferente a sociedade do planeta, levando Le Guin a questionar até que ponto o sexo e os papéis definidos de gênero podem afetar e influenciar as nossas vidas. Lembrando que a obra é publicada nos fins dos anos 1960, quando há um impulso dessas questões de gênero e sexualidade, tanto na academia quanto na sociedade em geral. De forma a descontruir essas definições fixas, o livro abre toda uma nova gama de questionamentos, ajudando a desconstruir essas definições fixas, como as de gênero e de seus papéis na sociedade.

Também é interessante notar a própria trajetória de Genly Ai, que tenta levar uma mensagem de cooperação e avanço cultural mútuo para o planeta Inverno que, na verdade, mal crê em vida alienígena, fechado em seu próprio mundo e em seus conflitos políticos, metáfora do período da Guerra Fria. Genly Ai se torna peça política desse grande jogo e é em Estraven, importante figura política no mundo visitado por Genly, que este encontra um aliado e a chave para compreender tão complexo mundo. As questões da igualdade, tanto de gênero quanto sociais, autoritarismo e liberdade, diversidade, amor e tantas outras surgem e são de grande importância na obra. Por tratar a Ficção Científica como metáfora, Le Guin traz um trabalho que supera os gêneros, tanto literários quanto outros, e se torna uma das autoras essenciais do século XX.

Impressões

100 pontos

Edição Brasileira

As edições da Aleph são, via de regra, um primor. Belas capas, quase sempre minimalistas, um apurado projeto gráfico interno e com boas traduções, essa editora vem cada vez mais destacando a Ficção Científica em nossas livrarias. Essa nova edição de A mão esquerda da escuridão, a segunda publicada por ela, é linda. Com um ótimo material utilizado na capa, boa tradução e acréscimo de uma maravilhosa introdução, onde Le Guin nos fala que “a Ficção Científica é metáfora”, vale totalmente o investimento. A tradução é de Susana L. de Alexandria, acertadíssima.

Edição Nacional

100 pontos

Considerações Finais

Não existe princípio nem fim, pois todas as coisas estão no Centro do Tempo. Assim como todas as estrelas podem se refletir numa gota de chuva caindo na noite, também todas as estrelas refletem a gota de chuva. Não existe escuridão nem morte, pois todas as coisas existem na luz do Instante, e seu fim e seu início são um.

 

A ambientação em um planeta coberto por neve serve perfeitamente a essa obra. O cenário é parte integrante da trama e a sensação de isolamento e as paisagens inóspitas encaixam com o que passa Genly Ai em sua jornada, sozinho em um mundo que desconfia dele, o teme ou o quer como instrumento político para seus próprios interesses, tendo que, em primeiro momento, superar suas próprias concepções quanto à diferença para abrir caminho para o seu grande objetivo.

O tom humanista de Le Guin é muito claro, e seu apelo ao respeito e ao amor entre os diferentes também o é. A primeira leitura dessa obra me abriu os olhos e a mente para uma miríade de questões do cotidiano e da vivência social que antes não pareciam estar lá. Inquietar é uma das principais vantagens de um bom livro de literatura, seja lá de que gênero for. E esta obra faz isso de forma excepcional. Leitura obrigatória para quem é fã do gênero e uma ótima pedida para aqueles que torcem o nariz para o mesmo, achando que apenas se constitui de aliens horrorosos e pistolas de raio-laser em naves espaciais gigantescas. Ursula K. Le Guin tenta, e consegue, construir um mundo belo e misterioso, que nos acolhe e nos desassossega. O futuro desse livro ecoa no presente, mas também tenta desconstruí-lo e erguer uma nova realidade, onde a diferença, o respeito e o amor são os verdadeiros caminhos da humanidade.

 
Agradecimentos mais que especiais à Bianca, pelo presente e pela revisão imprescindível deste texto.

Achou nossa mensagem importante e quer que ela chegue em mais pessoas? Ajude o Fast Food Cultural a crescer, seja um financiador! Você pode contribuir com o projeto através do Patreon ou Apoia.se, acesse os links, confira nosso vídeo, nossos objetivos, leia outros textos nossos e faça parte da nossa família.

A mão esquerda da escuridão: em outros mundos, metáforas para o nosso
Quantos milk shakes vale esse livro?
Prós
  • Abordagem inovadora
  • Temas de importância social
  • Ótima construção dos personagens
Contras
  • Não há
10Nota
Nota do Leitor: (2 Votes)
10.0