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O relacionamento de Keanu Reeves com Jamie Clayton é o assunto do momento. O casal foi visto em momentos íntimos, e um amigo de Keanu confirmou o romance.

Para quem não conhece, Jamie Clayton é atriz na última série de sucesso da Netflix: Sense8. Na série, Jamie faz o papel de Nomi, uma mulher transexual, vlogger e hacker. Nomi tem um relacionamento (fofíssimo, diga-se de passagem, sempre choro agarrada num pote de sorvete nas cenas de romance delas) com uma mulher negra, personagem de Freema Agyeman, o que chocou os expectadores. Mesmo com o histórico da Netflix – a participação ativa de Laverne Cox na série Orange is the New Black –, ainda é surpreendente que a empresa tenha representado não apenas uma personagem transexual, mas uma personagem transexual envolvida num relacionamento lésbico e inter-racial.

Desde o lançamento de Sense8 em junho, Jamie e sua personagem vêm sendo centro de debates sobre representatividade, inclusão e empregabilidade de pessoas trans na mídia. Mas aparentemente a grande mídia brasileira não esteve por dentro! Observem como os veículos de notícia brasileiros trataram o relacionamento de Jamie com Keanu Reeves:

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Perceberam o que todos têm em comum? Nenhum citou o nome de Jamie, e todos se referiram a ela simplesmente como “atriz transexual”.

Eu sou aquele tipo de pessoa que adora estimular a criatividade dos meus leitores e ouvintes. Então vamos brincar de imaginar como a chamada dessas notícias seriam caso Jamie Clayton não fosse trans?

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É importante ter em mente que mulheres já não costumam ser reconhecidas pelo próprio mérito. Não importa sua conquista e seu reconhecimento, a mulher no noticiário é quase sempre “a esposa do fulano”. Mas existe uma maneira bastante específica com que a mídia trata pessoas trans. Será sempre sob uma ou mais das seguintes óticas:

  • o Show de Horrores: a mídia aborda as pessoas trans e suas vivências como exóticas, imorais, bizarras ou até mesmo assustadoras;
  • o Stand-up Comedy: o redator aborda a situação noticiada com um ar lúdico de ridículo, como se tudo fizesse parte de uma piada suja – a gente pode até ouvir a risadinha contida nas entrelinhas;
  • a Colação de Grau: a notícia fala de alguma conquista de uma pessoa trans ou da comunidade trans como um todo – envolta naquele ar incrédulo e condescendente de “uau, parabéns, você chegou no nosso nível!”. Nesses casos, parece que toda a transfobia do redator sumiu num passe de mágica e que ele finalmente aprendeu a tratar travestis no feminino e a não chamar homens trans de lésbicas, mas espera só até a próxima notícia sobre “o” travesti que foi parar na delegacia…

No caso de Jamie Clayton, fica claro que se trata da primeira opção, o Show de Horrores (quando ignoram seu nome e seu talento e focam em sua condição enquanto mulher transexual), e da terceira, a Colação de Grau (quando deixam bem claro que ela não é “qualquer” transexual, é uma ATRIZ transexual). A notícia não é sobre o Keanu Reeves, um ator de renome; sobre a Jamie Clayton, uma atriz talentosa e promissora; ou nem mesmo sobre um casal de celebridades – Keanu e Jamie. Ninguém se importa com quem Keanu Reeves está namorando ou como vai o romance – a notícia é sobre um homem hétero cis de renome e reconhecimento que se rebaixou ao nível de sair com uma mulher transexual. Simples assim.

E ainda podemos ser mais otimistas, claro! Pelo menos nas notícias que eu li, não vi a mídia brasileira tratando a Jamie no masculino ou por termos derrogatórios. Apesar do deslize de “esquecerem” do nome dela nas chamadas e títulos, a atriz transexual sem nome ainda foi muito que bem respeitada no corpo das notícias. Mas será que é sorte ou acaso que de repente todas as revistas, noticiários, blogs e jornais brasileiros de peso se informaram melhor e passaram a tratar pessoas trans com dignidade? Eu acho que tem mais a ver com o fato de Jamie Clayton ser gringa, branca, magra, passável, rica, dentro do padrão estético e uma atriz de sucesso e respeito.

Vamos imaginar como seria noticiado o relacionamento caso Jamie fosse menos privilegiada?

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