Esse prato não sairia do forno sem o financiamento de: Tiago Pariz Almeida!
Quer ver seu nome aqui? CLIQUE e saiba como.


As pessoas preferem as relações fáceis. Os relacionamentos confortáveis e superficiais. Todos nós temos tudo em nossas mãos a um clique de distância. Qualquer tipo de situação que nos tire da zona de conforto não é bem-vinda. Queremos que as pessoas que estão online curtam nossos pratos no site, mas não agradecemos ao garçom por trazer nossa refeição até a mesa, pois acreditamos que o pagamos por isso, portanto é seu dever. A relação entre nós se resume a quem paga e quem serve. Quem tem e quem precisa ter. É o dever de quem não possui viver para servir a quem possui. Mercantilizamos nossas relações.

E nesse cenário narcisista de relações plásticas medidas por likes, ninguém quer perder seguidores por abandonar ideias fabricadas, por contrariar tabelinhas de horóscopos ou dizer que pensamento positivo não vai te fazer enriquecer. E qualquer tipo de evolução social que demande algum esforço é logo sabotada e alvejada por uma enxurrada de protestos tendenciosos sensacionalistas calcados em falsas estatísticas disseminados por fake news compartilhados por uma horda de jovens insatisfeitos e carentes de inteligência emocional.

Ninguém tem tempo para abandonar hábitos preconceituosos em tempos de crise. Uma pequena parte das pessoas brancas já não tem mais preconceitos. De verdade. Conheci muitos deles. Outra parcela afirma que não tem por não cometer atos racistas, mas não compreendem que disseminam atos e ideias preconceituosas por repetição. E quando dialogamos, eles assumem a voz do discurso. E discursam por nós. Sobre o que devemos ou não fazer com nossa negritude, quando e onde. E querem validar a veracidade de nossas declarações com rigor de quem entende. E existe, também, uma outra grande parcela rancorosa que não conseguiu capitalizar seus benefícios. Entraram em um jogo que já começou em 5×0 mas não conseguiram segurar o resultado.

Hoje vemos descendentes de europeus vivendo uma era de profundo ressentimento e ódio por não conseguir manter seus privilégios, culpando minorias pelo seu infortúnio, pela má gestão de seus ancestrais. E esta é a verdadeira razão pela qual tentam impedir políticas de reparações sociais. Não é somente por ignorância. Existe muito ressentimento por trás disso. Hoje queremos receber uma fatia de bolo igual. Não queremos mais que nossos filhos nasçam com uma herança de subemprego terceirizado, que sejam paridos com uniformes de empresas terceirizadas de portaria e limpeza, bonés de segurança patrimonial e vassouras em suas mãos. Queremos que eles tenham o benefício da escolha. Não que simplesmente preencham lacunas vazias. E isso incomoda. E muito.

Incomoda um professor inerte que deixa as crianças chamarem lápis cor-de-rosa de cor de pele. Incomoda a Polícia Militar que agora precisa pensar antes de abordar pessoas repetindo padrões racistas sem parar. Incomoda o piadista medíocre e seu público imbecil que agora precisa ter talento para fazer as pessoas rirem de piadas, e não das características das outras pessoas. De seus cabelos, de seus lábios, de seus corpos. Incomoda mudar a configuração de um sistema pronto. Um sistema preguiçoso.

Muitas pessoas não conseguem entender a dor que elas não sentem. Essa incapacidade de sentir empatia é confundida com força de caráter quando fazemos uma análise estúpida, tendenciosa ou mal-intencionada. Então o covarde sempre vai se proclamar forte, o culpado sempre vai se declarar inocente. Ele vai permitir a sua desumanização e a de seus filhos para obter algum benefício. Ele vai acreditar que a inclusão dele depende da sua exclusão. O cidadão do mal sempre vai se chamar de cidadão de bem. O covarde não quer simplesmente comprar armas, porque qualquer um pode comprar armas hoje em dia. Ele quer, além de comprar armas, que criem leis que garantam sua impunidade, ele quer sim usar suas armas e não pagar pelos seus crimes. Quer um acerto de contas com a sociedade. Quer uma Carta Branca do governo, que legalizem sua vingança. Quer um capuz branco e tochas acesas. O corrupto sempre se proclama honesto. Corram daqueles que se chamam do bem. As relações se tornaram mais difíceis para as pessoas preconceituosas. Muito mais. Relativizar está se tornando mais e mais difícil, e a necessidade de discutir e falar do assunto se torna mais constante a cada dia.

É necessário dialogar. E dialogar com pessoas brancas. Precisamos das pessoas brancas para combater o preconceito, pois a atual sociedade (seja ela pior ou melhor) foi concebida de acordo com suas regras e leis. Precisamos incluí-los em nosso discurso e fazê-los compreender que dialogar conosco é ouvir o que temos a dizer, e não assumir a voz do discurso e nos transformar em espectadores de nossa própria história. Eles precisam entender que a nossa história precisa ser contada por nós mesmos e que toda perspectiva deles a nosso respeito é equivocada, pois foi firmada através de um longo processo de desumanização, através de caricaturas pífias daquilo que eles pensam que somos. Precisamos compreender que não somos a caricatura que eles conceberam. Acabamos nos incluindo nesta sociedade à força e agora precisamos contar a nossa história com a nossa própria voz.

Achou nossa mensagem importante e quer que ela chegue em mais pessoas? Ajude o Fast Food Cultural a crescer, seja um financiador! Você pode contribuir com o projeto através do Patreon ou Apoia.se, acesse os links, confira nosso vídeo, nossos objetivos, leia outros textos nossos e faça parte da nossa família.