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Uma cidade qualquer no mundo. Um homem não consegue enxergar todos à sua volta. Os diferentes são invisíveis aos seus olhos: os que cultuam outras divindades, usam outras roupas, falam outra língua. É algum país convulsionado no período pós-soviético? É Jerusalém em suas divisões geográficas? Não, pois a invisibilidade aqui é real. Estamos falando de Beszel, cidade-estado fictícia da obra do escritor britânico China Miéville, A cidade & a cidade. Dividindo seu território com Ul Qoma, outra cidade-estado, os habitantes de ambas são “proibidos” de ver uns aos outros, precisam se ignorar, pois correm o risco de fazer “brecha” e cair nas garras de uma misteriosa entidade que protege as fronteiras das duas cidades.

A história:

“Quando o corpo de uma mulher assassinada é encontrado na decadente cidade de Beszel, em algum lugar nos confins da Europa, parece apenas mais um caso trivial para o Inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Extremos. Mas, à medida que avança a investigação, as evidências começam a apontar para conspirações muito mais estranhas e mortais do que ele poderia supor. Logo seu trabalho o coloca, e aqueles ao seu redor, em perigo e Borlú deve viajar à única metrópole na Terra tão estranha quanto a sua, por meio de uma fronteira sem igual.”

 

Com essa inventiva premissa é que acompanhamos esse premiado romance de Miéville, o segundo lançado no país. Lançando mão de ferramentas caras tanto ao romance policial quanto à ficção fantástica (a fantasia, o horror, a ficção científica), somos levados às ruas dessa(s) cidade(s) tão misteriosas e convidativas. Que parecem próximas e surreais, ao mesmo tempo. Borlú se empenha para resolver um assassinato, por mais que determinados poderes políticos intervenham e o afastem. Crime, política e bizarrice se fundem nesse romance.  Tyador Borlú, o detetive narrador, é um bész, e por isso está proibido de enxergar os ul-qomanos, e vice-versa. O crime investigado começa a cada vez mais o levar para essa dualidade entre as duas cidades rivais. Será preciso atravessar o Copula Hall, único ponto oficial onde um cidadão pode sair de uma cidade e ir para a outra, por mais que ambas estejam fisicamente no mesmo lugar. E é nessas fronteiras borradas que a trama irá se desenrolar. Cotada para virar uma minissérie pelo canal britânico BBC, A cidade & a cidade já foi adaptada para o teatro na capital inglesa.

História: 85 Pontos
China Miéville, autor de "A cidade & a cidade"

China Miéville, autor de “A cidade & a cidade”

Autoria:

Britânico, PhD em Direito a partir de uma análise das leis internacionais por uma ótica marxista, membro-fundador do partido Esquerda Unida (Left Unity) em seu país de origem, quadrinista e membro da International Socialist Organization, há muito o que se dizer sobre China Miéville. Expoente do gênero “new weird”, que pensava uma literatura transversal entre os principais gêneros fantásticos, como o horror, a fantasia e a ficção científica, inspiradas em nomes como Lovecraft e outros que publicavam na “Weird Tales”, é um dos principais nomes da “literatura de gênero” atuais. Premiado e respeitado, porém ainda pouco conhecido no cenário brasileiro, China Miéville é um autor para se prestar atenção.

Análise e Impressões:

Dois gêneros constantemente marginalizados pela crítica literária em geral são a fantasia e o policial. Em A cidade & a cidade, o escritor britânico junta os dois para construir uma importante e impactante obra que transcende os gêneros, quebrando as amarras que os prendem às convenções e os limitam. Miéville costuma dizer que aprecia a literatura fantástica pois a mesma funciona para “além da metáfora”. As cidades que coexistem mas são invisíveis uma para a outra não é apenas uma forma de se referir às cidades divididas como Jerusalém atual ou a antiga Berlim. Ou ao nível mais geral de invisibilidade que determinadas características constroem no cotidiano das grandes e pequenas cidades no mundo, como a cor, o credo, a classe. As cidades são literalmente assim. E é nessa característica que Miéville nos conduz em sua trama. O procedimento é o clássico do gênero policial: um corpo é encontrado, nada se sabe a princípio quem é a misteriosa mulher assassinada. Pistas vão surgindo e se aponta algo grande demais, onde o detetive Tyador Borlú se sente ludibriado ou empurrado para longe. Seguir Borlú e ir aprendendo sobre a geografia e história de Beszel e Ul-Qoma é fascinante. E é na construção do espaço, que aqui atua como um importante personagem, que o romance brilha.

Análise e Impressões: 90 Pontos
Capa nacional de "A cidade & a cidade" pela Boitempo Editorial

Capa nacional de “A cidade & a cidade” pela Boitempo Editorial

Edição Brasileira:

Após a publicação de Rei Rato, seu primeiro romance pela pequena e já extinta Tarja Editorial, Miéville volta às nossas livrarias nessa edição da Boitempo Editorial, feita com cuidado. Traduzido pelo escritor veterano de ficção científica e conhecedor do “new weird”, Fábio Fernandes, a edição se apresenta de forma corretíssima. A tentativa de seguir o ritmo e estilo de China Miéville na obra foi mantida, já que no original ela soa como escrita em um ‘mal inglês”, como narrada pelo próprio protagonista em uma língua que não é a sua ou traduzida de forma um tanto mambembe por alguém que não compreende por completo o idioma desse misterioso país do Leste Europeu. Fernandes consegue compreender o ritmo do autor e o traduziu de forma certa, deixando o livro instigante de ler, como no original. A Boitempo Editorial firmou contrato para publicar toda a obra de Miéville no Brasil, decisão que me deixa ansioso. Que venham mais livros!

 

 

Edição Brasileira: 80 Pontos

Considerações Finais

Embora diga que o movimento “new weird” é passado, o bizarro, o estranho, não se desprendeu da obra de Miéville. E isso não é, de forma alguma, demérito. Ganhador de diversos prêmios, inclusos o Locus Award, World Fantasy Award, Arthur C. Clarke Award, o prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica e o Hugo Award, maior prêmio do gênero de Ficção Científica, a estranheza que permeia a obra de Miéville por completo e esse livro em particular mostra que possui muita força. Buscando inspiração em mestres da literatura policial mais ‘pé no chão’ e suja, como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, e também em autores de ficção científica como Philip K. Dick e no expoente da literatura fantástica, o polaco Bruno Schulz, a quem o livro é dedicado, é que Miéville constrói sua trama.  A jornada do inspetor Borlú pelas duas cidades na perseguição do assassino da jovem conhecida de início apenas como Fulana Detail, é instigante. Sua incursão pelo submundo da política também é interessante. Embora não panfletário, esse livro perpassa algumas ideias que o autor defende enquanto militante. Segundo o próprio, é impossível se dissociar, pois é a forma qual ele vê o mundo. E é esse diferencial que o eleva a um dos grandes nomes da atual ficção científica mundial, embora sua obra seja difícil de classificar. E é nessa “brecha” entre os gêneros que esse romance se faz, lançando mão de diversos tropos literários, sobretudo da fantasia e do policial, para questionar, principalmente, os conceitos de fronteira que possuímos. Tanto a fronteira geográfica, na questão irreal das divisões absurdas das duas cidades, chegando a pontos onde ninguém sabe ao certo a qual cidade pertence, até as fronteiras sociais, colocando em xeque o conceito de “desver” a qual os cidadãos de cada cidade são treinados para não perceber o da sua contrapartida (é crime punido pela assustadora Brecha, entidade mítica e misteriosa que supervisiona as duas cidades). Nos fazendo questionar a organização social e também apreciando esses moldes clássicos da narrativa de gênero, Miéville mostra que para ser relevante pode, assim como o inspetor Borlú, viajar entre fronteiras absurdas mas bem marcadas entre a chamada “baixa e alta” literatura. E, ainda bem, estamos em um período que “fazer uma brecha”, como os personagens da obra, não é crime. É, diria, até desejável. Que  mais fronteiras sejam transgredidas, por favor.

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A cidade & a cidade: as fronteiras fantásticas de China Miéville
Quantas porções extras de batata frita vale esse livro?
Prós
  • Abordagem inovadora
  • Temas de importância social
  • Cenário Instigante
Contras
  • Final um tanto apressado
8.5Nota
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