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Quero contar pra vocês que eu li Cinquenta Tons de Cinza. Sabe como é: não ia sair criticando o que eu desconhecia. Aproveitei duas madrugadas nas férias de verão de 2013 para dar conta do livro. Como vocês já podem imaginar, o troço é tão ruim que eu sequer consegui terminar. Simplesmente não deu pra continuar.

Apesar dos problemas do livro não serem mais novidade para ninguém, eu não canso de me surpreender com tamanho sucesso de vendagem: até o ano passado, a série já contava mais de 67 milhões de livros vendidos em 47 países. Aí, pra depressão da geral, decidiram fazer um filme baseado no livro. O trailer foi lançado há algumas semanas e – pasmem! – se tornou o mais visto do ano, ultrapassando 36 milhões de visualizações no YouTube em apenas cinco dias.

Para quem não sabe, Cinquenta Tons de Cinza foi, inicialmente, uma fanfiction da saga Crepúsculo porque não basta a merda do Crepúsculo tem que ter uma fanfiction. Anastacia Steele, a personagem principal, vive uma vida monótona: é uma estudante muito insegura de Literatura que trabalha meio turno em uma loja de construção. Aos vinte anos, ainda é virgem e não curte aventuras, apesar da insistência e vigor da melhor amiga, Kate – que contrasta fortemente com ela, enfatizando sua baixa auto-estima e seus temores. Por acaso, Ana acaba conhecendo o chato Christian Grey, um homem muito bonito de menos de trinta anos, dono de uma empresa extremamente bem sucedida e incrivelmente rico. Tão logo eles começam a se relacionar, o Sr. Grey (como gosta de ser chamado por quase todos, creiam!) salva Ana de sua vida marrenta. Ele a tira de festas em que ela bebeu demais e é assediada por rapazes alcoolizados, ele a provê o conforto de uma vida de fortuna, ele a inicia sexualmente, ele a leva para viajar, ele a deixa boquiaberta com sua inteligência, ele é capaz de fazer Ana gozar trocentas vezes. Uma vez que o livro se pretende erótico, o sexo entre os dois é bastante marcado durante toda a narrativa. O controle que Christian Grey deseja operar sobre Ana é enfático também: além de querer a moça como uma escrava sexual, ele também deseja controlar o que ela veste, aonde vai e com quem se relaciona. O relacionamento entre os dois logo se torna abusivo, no entanto, é promovido enquanto romance ideal.

Dá pra ver que Ana nada mais é que uma representação da princesa contemporânea: como Cinderela, que é explorada e humilhada pela madrasta má e suas filhas, Anastacia vive as limitações de seu turbulento mar de inseguranças e receios. Como Cinderela, que olha pela janela e inveja a liberdade dos passarinhos com quem canta, sem, no entanto, se emancipar da vida tão sofrida e superar as dificuldades; assim Anastacia contempla a amiga cheia de energia e vivências, mas nega as novas experiências que ela a incentiva a viver e se mantém inerte sobre sua baixa auto-estima. Cinderela e Anastacia tentam tirar o melhor de suas existências apagadas, mas suas histórias sempre sugerem que algo externo vai acontecer e que elas serão salvas da condição medíocre de suas vidas – sobre a qual elas não têm qualquer controle! Como Branca de Neve ou Bela Adormecida, cuja ingenuidade e estupidez as levam a um sono profundo, Anastacia é inocente e tola demais para tomar decisões e administrar a própria vida. Assim, nada mais oportuno do que a chegada de um homem seguro, aventureiro e transformador da realidade – que será, ao final de cada uma das histórias, merecedor e regulador do corpo e do pensamento daquela que ele salvou, o que é representado simbolicamente no sexo reservado da virgem que espera. Acho que já dá para ver porque, para estudantes de gênero, os contos de fadas são quase sempre histórias de horror, não é?

Esse papo de que “é só ficção” – que ouvi tanto desde que comecei a debater o assunto – não passa de história pra boi dormir. A cultura a qual pertencemos, como qualquer outra, se serve de todos os meios a sua disposição para obter dos indivíduos determinado comportamento que esteja de acordo com os valores que se interessa conservar e transmitir (e a literatura servirá a estes propósitos, como outras produções). O fato de muitas narrativas incorporarem elementos associados a determinado arquetípico de feminino e de masculino indica a atualização de uma visão da realidade que busca fundamentar as desigualdades de gênero. Anastacia Steele e Christian Grey revisam todo um conjunto de ideias e práticas que privilegiam os homens em detrimento das mulheres: enquanto as atitudes dele se traduzem no enfrentamento, no olhar de frente, no alcançar a todo custo e na postura expansiva de ser; as dela, ao contrário, encontram tradução no confinamento, no olhar para baixo, no não chamar atenção e na limitação do espaço ao que se teme o público. Ele é forte e independente; ela, fraca e submetida.

Como se a glamourização da estrutura de dominação masculina não bastasse, a história de Ana e Grey é marcada por um elitismo de fazer os olhos saltarem da cara. Muitos homens tentam se aproximar de Ana antes de Grey, mas ela não parece se interessar por nenhum deles. Quando ela o conhece, no entanto, fica completamente molhadinha desestabilizada. Ele é apresentado como um homem misterioso, elegante e inteligente, mas os diálogos deles são tão toscos que fariam rir se não dessem vontade de chorar. Fica muito claro, durante todo o livro, que a inteligência de Grey é presumida em função da riqueza que ele acumulou. Ora, se se tornou tão rico antes dos trinta, só pode ser um gênio, né, gentchy? O que restará para os que vivem circunstâncias econômicas diferentes? Com certeza, não serão idolatrados no livro Cinquenta Tons de Cinza nem ficarão com Anastacia Steele.

Para fechar o show de horrores com chave de ouro, cada vez que ouço que Cinquenta Tons de Cinza é um livro libertador para as mulheres e suas sexualidades, eu tenho vontade de ligar a minha mochilinha a jato e fugir para Marte. Eis a razão: quando conhece Christian Grey, Anastacia é uma virgem que sequer se masturba. Quando inicia a relação com ele, ela não apenas goza milhões de vezes e todas as vezes, como também aceita entrar em uma relação BDSM. É bastante verdadeiro que, nas experiências com o sexo, não há regras: a história da vida sexual de Anastacia não é impossível de acontecer. No entanto, em uma ordem social na qual as mulheres são estimuladas a terem, com o sexo, uma relação de muita vergonha, culpa e cobrança – ora para se permitirem determinadas experiências, ora para serem satisfatórias –, o discurso do livro Cinquenta Tons de Cinza faz um desserviço abissal. Primeiro, porque apresenta a sexualidade das mulheres como condicionada à existência do homem e da experiência com ele, ignorando o papel importantíssimo da prática da masturbação. Segundo, porque quadra a primeira experiência com o sexo e com o orgasmo em circunstâncias muitíssimo incomuns à realidade da maioria das mulheres, alimentando a crença de que há algo de muito errado com elas. Terceiro, porque promove um preconceito ainda maior às práticas de sadomasoquismo, que, no livro, são atreladas a um relacionamento abusivo e a um homem com traumas de infância. Quarto, porque o livro promove as vantagens, para Anastacia Steele, em se envolver com um homem experiente sexualmente; enquanto, por outro lado, parece cultuar a falta de experiência dela, assumindo a prática sexual das mulheres como dada e não como construída. Parece que só os homens podem praticar por aí e isso vai fazer a diferença, não é?

O livro foi muito criticado por ter sido muito mal escrito e por conter clichês do tipo vou-vomitar-toda-a-minha-janta-aqui-mesmo. Difícil dizer como o filme será nesse sentido, mas os elementos centrais – e, certamente, os mais problemáticos – seguramente poderão ser odiados vistos nos cinemas também. Boa sorte aos que se aventurarem.

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